Fechar

logo
logo

Fechar

E a Paraíba pacificou Pernambuco

Josemir Camilo. Publicado em 19 de setembro de 2021 às 8:54

Pode parecer estranho o título, porque parece que a História da Paraíba tenha sido só de subserviência à do centro do colonialismo português no Nordeste, isto é, Pernambuco. Vale antecipadamente dizer que não estamos tratando de gentes e povos e sim de estruturas de dominação externa.

A ideia se naturaliza mais ainda quando estudamos que, por uma ordem do governo da metrópole, para economia de seu tesouro real, dentro do esquema mercantilismo/colonialismo português, foi autorizado que um governo militar centralizasse em Pernambuco, a administração das capitanias adjacentes.

Era um pacto forçado que, se não se olhar direito, vai se tirar, no caso de pernambucanos não críticos, a visão também de subserviência, em detrimento de um falso orgulho de potencialidade da gente pernambucana, quando o era da estrutura colonialista da economia e de governo. Para as capitanias anexadas na marra, fica o vazio da potencialidade histórica, uma baixa estima, uma falta de orgulho “pátrio” (no sentido em que começou a nascer o conceito, no começo do século XIX).

Pois bem, é dentro deste vazio político e histórico que o título acima provoca contradições de juízo. Mas, ocorreu. E agora perfaz duzentos anos.

Trata-se do movimento liberal que surgiu em Portugal, em 1820 e chegou ao Brasil, no ano seguinte, em que, lá, se estruturava a primeira Constituição portuguesa. Um dos pré-requisitos era a eleição de uma Junta em cada província. Os liberais de Pernambuco e outros, vivendo lá, inclusive o paraibano de Pilar, Manoel Clemente Cavalcanti de Albuquerque, se armaram e elegeram uma Junta em Goiana. Cercaram o Recife para derrubar o general português, o governador Luiz do Rego Barreto. Tanto a Junta de Goiana, como o governador real pediram ajuda à Paraíba, em armas e homens. É, aí, que entra, como personagem e não mais como coadjuvante, a Paraíba.

Em 23 de setembro de 1821, a Câmara da Capital da Paraíba levou ao conhecimento do governador da província, o coronel português Joaquim Rebello da Fonseca Rosado as representações da sociedade paraibana, com a intenção de evitar que este, obedecendo cláusulas colonialistas, enviasse tropas ao governador de Pernambuco, para combater as tropas do Governo liberal e constitucional de Goiana. A Câmara se posicionava contra o envio, e convidava-o a comparecer à sessão que iria debater o tema.

A Câmara da cidade da Paraíba alegava que o povo paraibano não deveria concorrer para uma guerra civil, “indo atacar aos nossos mesmos irmãos que se não afastam da Constituição e que só querem sacudir o jugo do despotismo”. A ordem do governador de marchar tropa a favor do general de Pernambuco foi suspensa por ato democrático da Câmara da capital, o que demonstra que a maioria dos vereadores aderira às bases da Constituição portuguesa, ainda em construção.

O governador Rosado ainda tentou uma sobrevida, convocando seu Conselho para deliberar se devia ou não mandar tropas para ajudar o governador português de Pernambuco. O tiro saiu pela culatra, pois o Conselho, em apoio ao que decidira os senhores camaristas (vereadores), sugeriu que, em vez de armas e tropas, se mandasse uma delegação para conciliar os dois grupos beligerantes.

Elegeu-se, então, no dia 29 de setembro, uma delegação composta pelo ouvidor geral, Dr. Francisco de Souza Paraízo, pelo tenente coronel João de Araújo da Cruz e pelo Padre Amaro de Barros de Oliveira Lima. Juntando ordenanças, seguranças e apoio logístico a tropa chegou a 40 homens.

Estiveram em Goiana, mas o Estado Maior se encontrava, naquele momento, cercando a capital Olinda, e os membros Junta que permaneceram na vila, não puderam discutir propostas. A delegação paraibana continuou seu caminho para onde estava instalado o Governo de Goiana, na povoação de Beberibe e, daí, seguiram para parlamentar com o Governo de Pernambuco, em palácio.

O tenente-coronel João de Araújo da Cruz, Comandante do Batalhão da Cidade da Paraíba, fez um verdadeiro discurso político, em que expôs ao governador Luiz do Rego os perigos de uma guerra civil. O general, arrogante contra esta delegação, como registraria em sua Memória Justificativa, teve que aceitar a representação paraibana, porque esta já havia parlamentado com os de Goiana, sobre um encontro dos dois governos em Beberibe.

Naquela povoação olindense, ocorreram, entre 5 e 9 de outubro, as trocas de intenções de cada governo e se concluiu um Tratado de pacificação da Província, o que ficou na história com o nome de Convenção de Beberibe. Luiz do Rego não compareceu, sendo representado por dois delegados, um deles, o comerciante e republicano de 1817, Gervásio Pires Ferreira.

Os delegados da Paraíba, sentaram-se à mesa e durante quatro dias de rodadas de proposições de pacificação, foi assinado um Tratado de paz, em que ficaram explícitos dois pontos políticos: a retirada do general e seu batalhão para Portugal, e eleições para uma junta pernambucana.

O Governo de Goiana agradeceu a cooperação dos delegados da Paraíba, quando do seu regresso para prestarem conta ao seu governo, por terem agido como o fiel da balança, para que não se rompessem o que ali estava se estabelecendo, como liberdade política, soltura de presos e liberação de estradas e embarcações. Afirmaram os delegados que a Paraíba se tornava garantia, e empregaria todas as forças que pudesse dispor contra aquele grupo que primeiro violasse o presente tratado.

Em 14 de outubro, regressaram à Paraíba, e foram elogiados no palácio do governo, pelas “trabalhosas diligências e importante serviço que fizeram os referidos senhores enviados, conseguindo com o seu trabalho e incansável diligência a conciliação dos dois governos e em consequência dela a pacificação daqueles povos que se achavam em sanguinária discórdia”.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Josemir Camilo
Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube