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Dona Laura e a arte de “capar” pintos

Jurani Clementino. Publicado em 23 de novembro de 2018 às 11:10

Poucas vezes vi um sorriso no rosto de dona Laura. E quando sorria, era como se fosse contra a sua vontade. Como se desautorizasse a sua própria natureza. Ela era séria, um tanto quanto sisuda, uma senhora de poucas palavras. Fazia tudo em silêncio como se estivesse meditando. Quase todo mês ela vinha lá em casa. É que minha mãe sempre gostou de criar galinhas e convidava dona Laura para fazer a castração dos frangos. Pra quem não sabe, o frango é uma espécie de galo na adolescência. Então, dona Laura chegava para realizar a castração das aves e já ia direto ao chiqueiro onde elas estavam presas. Minha mãe levava uma cadeira pra ela sentar, mandava a gente entrar no chiqueiro por uma porta pequena pra pegar os frangos e o resto era com Dona Laura.

Aquela senhora de cara fechada, sentada numa cadeira de madeira ao lado do chiqueiro de galinhas, botava a ave entre as pernas de cabeça pra baixo, arrancava as penas abaixo do sobrecu e começava o trabalho. Com uma faca amolada, dona Laura abria um pequeno buraco e com o dedo indicador tirava os testículos dos frangos. A gente ficava ali observando, assustado e imaginando a dor que as aves sentiam. Era uma incisão cirúrgica muito primitiva. Ao final, ela fechava o corte costurando com uma agulha e linha fina e, em seguida, colocava um pouco de cinza, tirada do fogão a lenha, no corte recém-fechado. As cinzas funcionavam como uma espécie de anti-inflamatório. Ela também colocava um pouco de água salgada no bico das aves castradas. Depois, lançava-as de volta ao terreiro. As pobres saiam cambaleando e passavam uns dois ou três dias tristes por causa da cirurgia, mas dificilmente morria alguma delas.

Dona Laura guardava um segredo que só fomos descobrir depois de crescidos. Era a gente, ainda menino, que ia chamar dona Laura para “capar os pintos”. Às vezes chegávamos lá, dávamos o recado e bem séria ela dizia: hoje não dá certo não. Mas também não dizia o porquê, não dava certo.  Quando crescemos fomos entender. Dona Laura confessou que não podia “capar os pintos” se ela tivesse namorado na noite anterior. Eis que estava revelado o segredo para as aves não morrerem no momento da castração.

Você deve tá se perguntando o porquê da castração dos frangos. Ora, depois de castrados ou capados como a gente chamava, eles cresciam mais rápido, engordavam com facilidade e tinham uma carne saborosa. Ao invés de galos, viravam capões Tinha quem acreditasse ainda que após a castração os frangos/capões ajudavam as galinhas a criar os pintinhos, ou seja, eles cuidando da ninhada a galinha voltava a colocar ovos mais cedo. O fato é que por décadas vi dona Laura fazendo isso. Ela chegava lá em casa fumando um cachimbo encardido com a nicotina do cigarro. Nunca cobrou um centavo por aquele rústico serviço de medicina veterinária. Mas minha mãe procurava compensar o trabalho dela dando algo em troca como alimentos, verduras, frutos etc.

Em julho de 2014 dona Laura faleceu subitamente, aos 82 anos. Coincidentemente, eu estava no Ceará, fui ao velório e acompanhei o corpo até a igreja de São Raimundo Nonato em Várzea Alegre. Ainda na Igreja Matriz, vi os filhos, netos, noras e genros emocionados ao ouvirem, no sistema de som da paróquia, a música Lady Laura interpretada por Roberto Carlos. Recordo que quando o carro com o corpo de dona Laura deixava o Sítio Queixada pela última vez, passou bem em frente à casa de meus pais e minha mãe chorava em silêncio na calçada vendo aquele carro funerário desaparecer na curva da estrada. Aquele carro levava, pela última vez, além de uma experiente castradora de pintos, uma grande amiga de minha mãe.

Jurani Clementino

Campina Grande – quinta-feira 08 de novembro de 2018

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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