Fechar

Fechar

Dona Dorziat, a mestra atemporal

José Mário. Publicado em 8 de março de 2018.

Com imensa tristeza, tomei conhecimento da morte da minha paradigmática e inesquecível mestra Josefa Dorziat ou simplesmente Dona Dorziat como sempre a chamei na intimidade do afeto que sempre lhe devotei: professora que marcou profundamente a minha trajetória profissional. Recém-chegado ao curso de Letras da então Universidade Regional do Nordeste, no ano de mil novecentos e oitenta e cinco, tocado de paixão pelo desbordante universo da linguagem, eis que me deparo com uma mestra singular, cujos predicativos logo a distinguiam e a faziam alvo da respeitabilidade crescente dos que passaram a tê-la como professora.

Dinâmica e, ao mesmo tempo, enriquecida, pela circulação de numerosos e multiplicados saberes, a aula de Dona Dorziat era um enamorado passeio pelos vãos e desvãos da Língua Portuguesa, que ela dominava e percorria com impressionante competência, dela extraindo as mais insuspeitadas e consistentes lições. Rigorosa, a sua infrangível ética comportamental principiava por sua mais que britânica pontualidade, signo inequívoco de seu compromisso com o outro, do qual ela jamais abriu mão em sua superior e cidadã pedagogia.

Madura, íntima do seu ofício, Dona Dorziat nunca sonegou conhecimentos, hábito muito comum nos inseguros; os que presumindo saberem muito, não sabem que sabem muito pouco. E pior que tudo: não sabem que “o conhecimento existe para ser repartido”, conforme a certeira e imperecível lição do filósofo Emerson. Erudita, porque consumida e consumada por uma irrefreável sede de saber, por uma desfronteirizada curiosidade intelectual que a impelia a transformar o mundo no corpus privilegiado das suas incansáveis pesquisas, Dona Dorziat também era, como um inimitável fastígio dos que são verdadeiramente sábios, a cartografia mais exata da genuína humildade; não aquela que não passa de uma peça que gostamos de pregar em nós mesmos, conforme sinalizava José Américo de Almeida; não aquela que não passa de orgulho escamoteado, mas a que sabe que, por mais que saibamos, ainda resta muito por saber, dado que o conhecimento é vasto, incontornável, pródigo em resistir às nossas sempre limitadas tentativas de apreendê-lo.

Apaixonada pelo que fazia, para Dona Dorziat, ensinar, mais que um complexo processo de produção e transmissão de conhecimentos, era um ato de amor e um gesto de solidariedade estendido a quem, mercê de Deus e dos caminhos da sua misteriosa Providência, teve o privilégio de tê-la como professora.

Educadora exemplar, Dona Dorziat cuidava da formação integral dos estudantes postos ao alcance da sua docência, formação essa que, principiando no cultivo da Língua Portuguesa, inexaurível tesouro da nossa cultura pátria, pudesse ser expandida para todas as áreas da vida. Dona Dorziat fez história e é história nas cenas e cenários de uma Campina que, sendo sempre Grande, tornou-se ainda maior e agigantada pelo fulgurante e ascensional exemplo que nos foi legado pela incomparável mestra. Exemplo que, pela força moral e grandeza ética de que se revestiu, emulou contra o tempo e contra a implacável aferição que ele exerce sobre todas as glórias humanas.

Por esse patamar, o das realidades que surgem sob os auspícios do signo de cronos, mas são nutridos pelos sabores da eternidade, Dona Dorziat é índice de permanência, ícone de durabilidade e símbolo do que se eterniza, do que é atemporal por excelência. Dona Dorziat parte e fica ao mesmo tempo: na realização concreta de finitude e de infinitude a que todos estamos expostos em nossa bifronte e congênita vocação para “a injúria de nos tornarmos pó”, conforme sinalização do emblemático verso do grande poeta Lêdo Ivo, e a elevação aos páramos da transcendência mais sublime, a que nos convida a nos reconectarmos com Deus por meio de Jesus Cristo.

Dona Dorziat é tema para memorialismos mais verticais e é matéria para estudos de longo fôlego, textualidades essas que não cabem neste depoimento portador de dicção puramente afetiva e impregnado do mais vivo sentimento de saudade. Dona Dorziat é página de glória na recordação campinense e livro de ouro no imperecível relicário de nossa terra.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

José Mário

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube