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Dom Genival Saraiva: Igreja: unidade e universalidade

Dom Genival Saraiva. Publicado em 28 de junho de 2020 às 18:45

Ao celebrar, a cada ano, a memória dos apóstolos Pedro e Paulo, a Igreja volta-se pra si mesma, vendo-se diante de Deus, e se coloca perante o mundo, vendo o horizonte da missão que lhe foi confiada pelo próprio Jesus. Estes dois apóstolos foram chamados por Jesus, em tempos, formas e lugares diferentes, para “proclamar a fé”: Pedro “fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel” e Paulo, “mestre e doutor das nações”, corajosamente, anunciou o Evangelho entre os gentios.

A história confirma e a liturgia celebra essa face comum da missão de ambos: “congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio”, são venerados como “colunas da Igreja”. A esse respeito, escreve Santo Agostinho: “Num só dia celebramos o martírio dos dois apóstolos. Na realidade, os dois eram um só. Embora tenham sido martirizados em dias diferentes, deram o mesmo testemunho. Pedro foi à frente; Paulo o seguiu.”

Ao iniciar seu trabalho de evangelização, Pedro fixou-se no universo judaico e Paulo, consciente da natureza da missão, como determinara Jesus – ir a “todas as nações”, a “todos os povos” –, dirigiu-se ao mundo pagão. No anúncio da “Boa Nova”, cada um deles encontrou abertura para ouvir e se deparou com resistências e perseguições. Aliás, em diversos momentos de sua pregação e através de muitos ensinamentos, como na parábola da semente e nas bem-aventuranças, Jesus havia se referido a essa situação da mente e do coração das pessoas, frente ao anúncio do Evangelho.

Na celebração dos apóstolos Pedro e Paulo, além do caráter de veneração, são identificados traços da natureza, da personalidade da Igreja – a unidade e a universalidade. Em que consistem esses traços? No tocante à unidade da Igreja, essa é a doutrina do Catecismo da Igreja Católica: “A Igreja é una pela sua fonte: ‘Deste mistério, o modelo supremo e o princípio é a unidade de um só Deus, na Trindade de Pessoas, Pai e Filho no Espírito Santo’. A Igreja é una pelo seu fundador: ‘Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, por sua cruz reconciliou todos os homens com Deus, restabelecendo a união de todos em um só Povo, em um só Corpo’.

A Igreja é una pela sua ‘alma’: ‘O Espírito Santo que habita nos crentes, que plenifica e rege toda a Igreja, realiza esta admirável comunhão dos fiéis e os une tão intimamente em Cristo, que ele é o princípio da Unidade da Igreja’. Portanto, é da própria essência da Igreja ser una: Que estupendo mistério! Há um único Pai do universo, um único Logos do universo e também um único Espírito Santo, idêntico em todo lugar; há também uma única virgem que se tornou mãe, e me agrada chamar Igreja’.” A respeito da universalidade, da catolicidade, ensina o Catecismo: “É católica porque nela Cristo está presente. ‘Onde está Cristo Jesus, está a Igreja Católica’.

Nela subsiste a plenitude do Corpo de Cristo unido à sua Cabeça, o que implica que ela recebe dele a ‘plenitude dos meios de salvação’ que ele quis: confissão de fé correta e completa, vida sacramental integral e ministério ordenado na sucessão apostólica. Neste sentido fundamental, a Igreja era católica no dia de Pentecostes e o será sempre, até ao dia da Parusia. Ela é católica porque é enviada em missão por Cristo à universalidade do gênero humano: Todos os homens são chamados a pertencer ao novo Povo de Deus.

Por isso este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os tempos, para que se cumpra o desígnio da vontade de Deus, que no início formou uma só natureza humana, e finalmente decretou congregar seus filhos que estavam dispersos… Este caráter de universalidade que marca o Povo de Deus é dom do próprio Senhor, pelo qual a Igreja Católica, de maneira eficaz e perpétua, tende a recapitular toda a humanidade com todos os seus bens sob Cristo Cabeça, na unidade do seu Espírito”.

Assim, vive a Igreja no tempo, caminha e faz história, em meio à diversidade, com “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias” da humanidade. Essa diversidade, como também ensina o Catecismo da Igreja Católica, “provém ao mesmo tempo da variedade dos dons de Deus e da multiplicidade das pessoas que os recebem. Na unidade do Povo de Deus se congregam as diversidades dos povos e das culturas.

Entre os membros da Igreja existe uma diversidade de dons, de encargos, de condições e de modos de vida; ‘na comunhão eclesiástica há legitimamente Igrejas particulares, gozando de suas tradições próprias’. A grande riqueza desta diversidade não se opõe à unidade da Igreja. Todavia, o pecado e o peso das suas consequências ameaçam sem cessar o dom da unidade. Assim, o Apóstolo tem de exortar a ‘conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz’ (Ef 4,3.”

Particularmente, neste tempo sofrido da pandemia do Covid-19, “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias” da humanidade são também experimentadas pela Igreja, na sua forma de viver a fé, celebrar a esperança e praticar a caridade.

Com os estímulos da palavra e a força do testemunho do Papa Francisco, sucessor de Pedro, a Igreja está preservando a unidade, “nas coisas essenciais”, exercitando a liberdade “nas coisas não essenciais” e suscitando “em todas as coisas, a caridade.” De modo especial, nesse momento crucial da história, a exemplo de Jesus, ela continua lançando sementes de esperança e colhendo frutos de solidariedade, na certeza de dias melhores, porque aqui, afinal, “tudo passa”.

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*Administrador Apostólico da Arquidiocese da Paraíba

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