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Dom Genival Saraiva: Espírito gregário

Dom Genival Saraiva. Publicado em 21 de janeiro de 2020 às 12:43

Escreve o autor do Eclesiástico: “Vou agora recordar as obras do Senhor, vou descrever aquilo que vi. Pelas palavras do Senhor foram feitas as suas obras, de acordo com a sua vontade realizou-se o seu julgamento. O sol brilhante contempla todas as coisas, e a obra do Senhor está cheia de sua glória. O sol que aparece proclama, ao sair, que coisa maravilhosa é a obra do Altíssimo! Também a lua, sempre pontual em suas fases, indica as épocas e é um sinal do tempo. É a lua que assinala as festas, diminuindo a claridade até desaparecer. É dela que o mês recebe o seu nome, enquanto cresce maravilhosamente em suas mudanças. (Eclo 42,15-16; 43,2.6-8)”

No mundo dos seres animados, o Criador colocou um traço comum – o espírito gregário. Com efeito, na vida de todas as criaturas, o espírito gregário se revela de conformidade com as espécies. Está suficientemente constatado que viver sozinho não faz parte da natureza dos seres animados. Nos seres irracionais o espírito gregário os mantém unidos, próximos, como manifestação de seu instinto de conservação. Nesse sentido, um exemplo paradigmático é o comportamento das aves migratórias. Há espécies que migram “da área de reprodução para áreas de alimentação e descanso em uma determinada época do ano.” Algumas voam “11 mil milhas sem paradas”, mais de 17 mil quilômetros, em busca de alimentação e reprodução. Dessa maneira, mesmo privadas da racionalidade, essas espécies, movidas por sua própria natureza, por seu instinto, fazem a “leitura” de sua vida “hoje” e vislumbram o “amanhã’ de sua sobrevivência.

Nessa ordem de consideração, em se tratando do universo humano, além da linguagem do instinto de conservação, o espírito gregário, a sociabilidade, é um fator preponderante no tocante à vivência de sua natureza e à consciência de identidade de cada um de seus membros. O ser humano, além do instinto, conta com uma faculdade, um dom que Deus imprimiu ao seu ser, a fim de agir movido pela razão e, assim, buscar o porquê de tudo, a começar pelo desejo e pela necessidade de viver em sociedade.

Sob todos os aspectos, a vida humana, observada individual ou coletivamente, tem sempre diante de si o ontem, o hoje e amanhã. Aí está, sem dúvida, o realismo da vida e da história humana, carregado de esperanças, de luzes, de incertezas, de trevas. Essa realidade é constatada por todos, em qualquer contexto, com maior ou menor percepção, de conformidade com a personalidade e a formação dos indivíduos. De fato, as consequências da atenção ou da desatenção a determinados elementos que fazem parte do dia a dia das pessoas se revelam de maneira muito concreta, ao longo de um tempo determinado – dia, semana, mês, ano, década –, envolvendo-as, positivamente ou comprometendo a sua realização. 

Viver em sociedade, obviamente, contém exigências para as pessoas e para a coletividade. “Do lado contrário do instinto gregário está o desejo, a necessidade, também profunda, de liberdade e de originalidade. As identificações e semelhanças proporcionam sensação de segurança. As diferenciações, por sua vez, desafiam a busca do novo, fomentam o progresso e o desenvolvimento, rompem os limites do desconhecido, ampliando os horizontes das possibilidades humanas, em todos os sentidos e direções. Gregarismo e liberdade são tendências opostas, que incitam ao controle de uma através da outra. Encontramo-nos entre essas duas tendências. Precisamos estabelecer uma maneira equilibrada de projetar atitudes que manifestem tanto nosso ser pessoal como nosso ser total.”

É sumamente importante que as pessoas tenham consciência de sua identidade, da sua individualidade; é indispensável que tenham consciência das exigências da sociabilidade. O “eu” de cada um aparece e deve ser respeitado numa coisa muito simples, já identificada pelos antigos: “gosto e cor não se discute”. Por isso, nada mais incompatível com o espírito gregário, com a sociabilidade, do que a violência patrocinada nos estádios e nas ruas pelas “torcidas organizadas”. Porventura, teria o mesmo “sabor” a vitória se todos torcessem pelo mesmo time? Daí a necessidade de cada pessoa exercitar a liberdade, responsavelmente, em vista da autorrealização e do bem coletivo, em qualquer circunstância.

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*Administrador Apostólico da Arquidiocese da Paraíba

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