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Campina Grande - PB

Dois personagens, duas atitudes

22/10/2016 às 16:32

Fonte: Da Redação

 

Foto: Paraibaonline

Foto: Paraibaonline

Por: Padre José Assis Pereira

Hoje Jesus nos conta a parábola do fariseu e do publicano. (cf. Lc 18,9-14) É um desses textos ou peças mestras que só o evangelista Lucas nos oferece. Já no início o autor do terceiro evangelho nos adverte que a parábola é dirigida aos fariseus, que tinham a convicção de que eram justos e desprezavam os outros como impuros e pecadores (v.9).

“Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano.” (v.10) Duas formas de entender a relação com Deus. É uma forma de Jesus ensinar a humildade, a atitude fundamental com que a pessoa humana tem de se apresentar diante de Deus para ser atendido.

O fariseu se acha santo, por isso se sentia “separado” do outro, o publicano. O desejo de santidade levou muitos a separar-se dos outros.

Cifravam a santidade no cumprimento da lei tal como prescrevia o livro do Levítico. Punham todo seu empenho na recitação diária de orações, jejuns e a prática da caridade.

Sentiam-se satisfeitos pelo que eram e pelo que lhes diferenciava dos outros. Estavam convencidos de que assim obtinham o favor de Deus.

Sem duvida, aquele que se acreditava perto de Deus, na realidade estava longe. Porque lhe faltava o essencial: o amor. Assim o reconheceu depois São Paulo, que foi fariseu antes de seu encontro com Cristo: “se não tenho amor, não sou nada”.

Ainda que alguém repartisse em esmola tudo o que tinha e até se deixasse queimar vivo, se lhe falta o amor, não vale nada. (cf. 1Cor 13)

O fariseu disse “Ó Deus, eu te agradeço…” Santo Agostinho se pergunta onde está seu pecado e responde: “em sua soberba, por que desprezava os outros”. Sabe o que é bom neste publicano? É que era mal e sabia que o era. Era cobrador de impostos.

Sabia todas as coisas que havia praticado; todo o dinheiro que havia extorquido as pessoas a quem havia feito sofrer. O sabia e se envergonhava. Sua mão, seu dedo não aponta ninguém e sim a si próprio, “batia no seu próprio peito”. Seu coração estava vazio de boas obras, ali pode entrar Deus sem dificuldade.

O publicano tinha o que faltava ao fariseu: amor. Ficou atrás, não se atrevia a entrar no templo. Mas Deus não estava longe dele, e sim bem perto. Não dá graças, mas, pede perdão.

“Não se atrevia a levantar os olhos para o céu”, porque se via a si mesmo e reconhecia sua miséria, porém confia na misericórdia de Deus. Uma vez mais Deus está na miséria do homem, para levantá-lo da mesma. Quer curar-se, por isso procura o único médico que pode dar-lhe o medicamento e lhe curar: sua graça sanadora.

Não se trata aqui de cair no maniqueísmo: homem mal, homem bom. O fariseu era pecador e não o reconhecia, o publicano também era pecador, mas o reconhecia e queria mudar. O fariseu se sente já contente com o que faz, se sente salvo com cumprir a lei, mas isto não é suficiente.

Deus se aproxima de todos, mas só pode entrar naqueles que o invocam, porque Ele escuta sempre o aflito. Este é justificado e o fariseu não. Paulo na carta aos Romanos emprega o mesmo termo “justificação”. Justificar é declarar justo a alguém e só Deus pode fazê-lo. Não é um mérito que se possa exigir, mas sim um dom gratuito de Deus. Ele é misericordioso com todos.

A grande diferença entre o fariseu e o publicano é que um não necessita mais que a si mesmo e o outro só busca a misericórdia de Deus. O fariseu repassa seus méritos, os descreve, os enumera e assim se contempla a si mesmo, impecável ante o Criador.

Pode fazê-lo no templo ou só em casa, o lugar sagrado é o de menos. Ao não prostrar-se fisicamente ante Deus deixa claro que não necessita de sua ação, que não vê sua vida como necessitada de sua misericórdia.

O publicano abre sua vida a Deus, a sua misericórdia. Não expõe seus méritos, mas sim deixa espaço a Deus para que atue. Abre sua vida vazia ao criador para que se encha de sua ação regeneradora. A glória do fariseu é sua vida presente enquanto que a glória do publicano é a futura pela ação de Deus.

A ação de graças do fariseu não deixa de ser um exercício de autocomplacência onde Deus não tem espaço, enquanto que o pedido de misericórdia do publicano é o silêncio do homem ante seu criador que implora a eficácia de seu perdão.

A humilhação do publicano deixa a Deus ser Deus enquanto que a soberba do fariseu simplesmente expressa sua não necessidade de misericórdia. Por isso a glória da justificação de Deus se faz eficaz em quem como o publicano a pede e não pode fazer-se presente em quem como o fariseu a ignora.

“Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado.” (v. 14) É uma conclusão que deve ter sido surpreendente para os ouvintes de Jesus.

Assim é Deus, Ele diz sim ao pecador desesperado e não àquele que se autojustifica. Ele é o Deus dos desesperados e sua misericórdia é sem limites com os de coração contrito. Assim é Deus.

Examinemos nosso comportamento como cristãos. Não somos muitas vezes como o fariseu crendo-nos salvos não só porque “cumprimos” nossos deveres religiosos? Inclusive desprezamos os outros ou lhe tachamos de hereges ou depravados.

Quem somos nós para julgar? Só Deus pode justificar. Além disso a fé cristã não consiste só em um cumprimento de devoções, mas sim no encontrar-nos com Jesus Cristo Resuscitado e deixar que seu amor vivificante transforme nossa vida. Então nos daremos conta de que há amor em nossa vida.

Como vemos a parábola do fariseu e do publicano, não se refere à oração, mas à nossa vida e ao nosso comportamento, que precede, acompanha e sucede a oração. Tampouco a parábola não trata das qualidades externas da oração, técnicas ou fórmulas, posturas ou posições do corpo, lugares ou tempos propícios à oração etc.

E sim trata do sincero reconhecimento da própria condição de nulidade do ser humano que se encontra diante da infinita misericórdia e amor de Deus.

Essa parábola está dirigida aos fariseus de todos os tempos, porque na Igreja sempre existiu e existe o perigo do farisaísmo, dos guetos, grupos eclesiais que se apresentam como possuidores da verdade e os outros estão errados; os que se consideram os mais justos e santos.

Entre os grupos eclesiais há os que convidam a unir-se a eles “porque possui a verdade”, o que implica a ignorância religiosa dos outros. Há os que se mostram inseparáveis amigos enquanto tratam de conseguir um novo membro.

E quando ao fim não o conseguem, não têm nenhum problema de negar-lhe a amizade, dando-lhe por perdido. Em nome da santidade de nossa doutrina quanta barbaridade se tem cometido ao longo da história!

Neste “Dia Mundial das Missões” tenhamos consciência de que não se pode anunciar o Reino sem a coerência de vida de um coração humilde. A evangelização exige servidores humildes porque não é um projeto pessoal por mais bonito e forte que pareça. Não se pode sobreviver na fé sem a autenticidade da relação com Deus e com os irmãos.

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