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Doctor Virgílio Brasileiro, o inesquecível

José Mário. Publicado em 2 de novembro de 2017 às 8:22

Por José Mário da Silva (*)

Sempre que o encontrava, nos inúmeros contatos que tive com o Doutor Virgílio ao longo da minha existência, costumava cumprimentá-lo com a expressão Doctor Virgílio, consórcio do imenso carinho que lhe devotava, acumpliciado ao reconhecimento de ser ele a cartografia exata de um verdadeiro cientista da medicina; aquele que, com assombrosa competência técnica e genuína compaixão pelo outro, sempre soube fazer do seu sublime ofício profissional, a arte e a ciência do bem comum.

Para a indesmentível corroboração dessa assertiva, bastaria tão somente apurar os ouvidos e captar, na indesviável essência de cada relato, os depoimentos, numerosos e multiplicados, dos que, ao se despedirem do Doctor Virgílio, transnarravam os inúmeros benefícios recebidos do médico padrão, do irretocável humanista, do homem solidário, que, no exercício do seu mister cotidiano, em nenhum momento hipotecou a sua consciência no altar espúrio da ética mercadológica, de resto ética nenhuma, porque, ao privilegiar o ter em detrimento do ser, vende a alma a Mamom e instaura os degradados (anti) princípios da desumanização do homem.

Médico paradigmático, Doctor Virgílio foi, de igual maneira, um refinado esteta: na recorrente elegância do vestuário; na polida linguagem de que sempre se instrumentalizava em suas intersubjetivas relações; no apurado gosto das amplas e exigentes leituras que lhe adornavam o alentado e desfronteirizado paideuma transliterário; na imperiosa vocação que cultivava para o estudo de diversas línguas estrangeiras (francês, inglês, alemão, russo, esperanto, espanhol, dentre outras que integravam o escopo ampliado dos seus interesses), das quais sempre falava com um incomum brilho nos olhos; olhos expressivos e inarredavelmente vigilantes e comprometidos com a fascinante e ingente busca do conhecimento.

Flâneur incorrigível, Doctor Virgílio faz de cada espaço em que habitou o mapa-múndi das suas constantes investigações. Por esse patamar, Campina Grande foi o seu poema de todas as horas; o romance deleitoso da sua existência; o seu mais entoado canto lírico; e o seu gesto épico mais celebrado.

Apaixonado por futebol, Doctor Virgílio fez do Treze Futebol Clube a sua bandeira clubística mais altaneiramente hasteada, sem nunca destilar sobre os clubes alheios, a mais leve farpa ou o mais imperceptível vestígio de censura ou ironia. Era, acima de tudo, um gentleman, na acepção semântica mais rigorosa da palavra.

Leal aos amigos, modelo para a família, cultivador do diálogo, fora do qual o que existe é o precipício, no poético dizer de Eduardo Portella, Doctor Virgílio fez história e é história nas cenas e cenários da cidade por ele amada e transformada, diria Roland Barthes, na sua “mitologia secreta e particular”.

Doutor Virgílio parte e fica ao mesmo tempo. Não o verei mais no Cata-Livros de Ronaldo. Nas variadas geografias da Universidade Federal de Campina Grande. Doctor Virgílio parte. Mas, ao mesmo tempo, fica; fica no imperecível exemplo que legou. Na honradez comportamental que foi a indelével marca do seu ser/fazer existencial, consubstanciada na fecunda cronologia dos oitenta e dois anos que lhe foram concedidos pela Providência divina.

Anima-nos, contudo, saber que a morte jamais terá a palavra final da história. Indesejada das Gentes, no dizer de Manuel Bandeira; Descida do mistério, na afirmação de Fernando Pessoa; o olvido, o irrevogável e o absoluto, na sentença de Camilo Pessanha; o último inimigo a ser vencido, na proclamação escatológica do apóstolo Paulo, a morte já foi ferida de morte e vencida por Aquele que morreu, mas ressuscitou; e em cujo túmulo vazio reside a esperança, segundo a qual todos os que nele creem não morreram para sempre, mas desfrutarão da bem-aventurança sem fim, que somente Jesus Cristo pode dar.

(*) Docente da UFCG/ membro da Academia Paraibana de Letras

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José Mário

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