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Direito a tristeza

Jurani Clementino. Publicado em 8 de novembro de 2017.

Por Jurani Clementino (*)

Ontem à noite cheguei num bar e, ao pedir uma cerveja gelada, dei um velho e companheiro sorriso falso pra o garçom, que, a propósito, é meu amigo. Ele percebeu na hora e disse que qualquer expressão de felicidade seria superior ao que ele estava sentindo. Imaginei que ele estivesse triste e procurei saber o motivo. Quando retornou, com a cerveja na mão e um leve sorriso no rosto, me disse que não estava triste, pelo contrário, estava super feliz. Aí eu fracassei geral. Ia vibrar com a tristeza dele. Afinal uma vida sem tristeza deve ser insuportável.

Falei pra ele que a gente também deve se dá ao direito de viver a tristeza. É ela que nos traz sentido à vida. É ela que nos apresenta a vida da forma mais original. Viver de alegria e viver quase sempre iludido é não perceber, muitas vezes, o mundo ao seu redor. É habitar, cotidianamente e constantemente, o Fantástico Mundo de Bob (Bobby’s World). O Mundo de Bob deve ser uma tristeza, mas ele não enxerga. E não enxerga porque não quer. Porque acredita que o melhor é fantasiar. E, nesse caso, o que é a fantasia? A fantasia é a plenitude da ilusão. Viver iludido é não viver.

Só se vive quando se bate de frente com a vida. Quando se encara de cabeça erguida os obstáculos. A gente está cada vez mais habituado a não encarar de frente os nossos desafios. Que merda! Aqui e acolá vale a pena fantasiar um momento ou outro. Depois vestimos a roupa e vamos à luta. Quem disse que viver é fácil? Viver é preciso. Tão preciso quanto navegar por águas estranhas. Todo dia tem um rio, um oceano, monstros nos desafiando. Ignorá-los é bobagem. Eles vão reaparecer na próxima esquina. No próximo sorriso falso. No próximo atendimento do bar.

Por isso, caro amigo Matheus, bola pra frente. Quanta bobagem eu falei. Coloca mais uma cerveja que vou acender um cigarro. Abraço.

Campina Grande – 08 de novembro de 2017

(*) Jornalista, escritor, professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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