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Dia Mundial do Diabetes. Há motivos para comemorar?

Alberto Ramos. Publicado em 17 de novembro de 2018 às 11:35

Do ponto de vista dos avanços tecnológicos, eu diria que sim, temos motivos.

Afinal de contas, nos últimos anos temos visto impressionantes avanços em várias áreas da diabetologia. Por exemplo:

No diagnóstico – atualmente podemos dar o diagnóstico do diabetes ainda na fase pré de forma mais rápida e confortável que o TOTG ou o “exame da garapa” como também é conhecido.

Um exame laboratorial chamado HbA1c que alguns chamam de Glicohemoglobina, se altera bem antes que a glicemia de jejum. Podemos assim identificar aqueles que têm predisposição para o diabetes e alertá-lo para que, tomando medidas visando melhorar o estilo de vida, possam evitá-lo. E, em ficando diabético, tratando cedo se evitam complicações.

Mais opções no tratamento com drogas orais – a hipoglicemia sempre foi uma espada de Dâmocles sobre o diabético. Quando se usa drogas mais antigas tentando um controle mais estrito, corremos o risco de provocar hipoglicemias. Estas, principalmente durante o sono, podem provocar arritmias cardíacas e morte súbita.

Nos últimos 10 anos, foram descobertas drogas que diminuem a glicemia sem provocar hipoglicemias. Principalmente para os diabéticos idosos e cardiopatas estas drogas mudaram o tratamento. Além disso, algumas delas protegem a função renal e o coração. Outras também ajudam a reduzir o peso, problema comuníssimo entre os nossos pacientes. Apesar disso, a metformina ainda é a droga que tem melhor custo benefício. Em todos os manuais para tratamento do diabetes ela é sempre a primeira opção.

Mais opções de insulinas – hoje existem insulinas com ação muito mais previsível que as antigas NPH e Regular. Isto nos permite um controle bem mais estrito com menos hipoglicemias. As insulinas ultrarrápidas facilitaram em muito a vida dos diabéticos tipo 1 (principalmente crianças e adolescentes) que podem tem uma alimentação praticamente igual a de uma pessoa não diabética.

Monitorização melhor e mais fácil – lembro que quando aluno, a forma que existia para o paciente fazer monitorização domiciliar era uma substância chamada Reativo de Benedict. O Dr. Sérgio Dantas (meu professor) convenceu o setor de farmácia da faculdade a produzir o mesmo que era fornecido gratuitamente aos pacientes. Quando fui trabalhar no então Ipase hoje HUAC, eu e a Dra. Aline também conseguimos distribuir o reativo.

Era muito complicado. O paciente recebia um vidro com o reativo, um tubo de ensaio e uma pipeta. Ele colocava 1ml de urina no tubo, não me lembro quantas gotas de urina e levava o tubo diretamente ao fogo. Quando este fervia (frequentemente queimando o executor), a cor era comparada com uma escala. Se ficasse verde escuro não tinha glicose na urina.

Se ficasse verde claro, amarela, cenoura ou tijolo tinha respectivamente +, ++, +++ ou ++++ de glicose na urina. Era um método rudimentar e pouco sensível. Nos últimos anos temos fitas que medem a glicemia capilar em alguns segundos com uma acurácia razoável. Já existe no Brasil um sistema com adesivo e sensor subcutâneo que evita as furadas dos dedos e mede a glicemia a cada 10 minutos durante as 24 horas.

Apesar do acima exposto, entre nós, temos também motivos para afirmar que não temos muito a comemorar. Senão vejamos:

Todos os avanços citados são muito caros – nenhum desses novos remédios custa menos de R$ 120,00 por mês. As novas insulinas também são caras e só no mês passado o Ministério da Saúde autorizou entregar uma delas nos postos de saúde (a NovoRapid).

As fitas e os adesivos custam entre R$ 200 e R$ 500,00 por mês. Se adicionarmos as despesas obrigatórias de quem tem diabetes (alimentos especiais, visitas aos médicos, outros remédios para hipertensão, colesterol alto, etc.), ser diabético é financeiramente inviável para a imensa maioria da população.

Medicamentos de baixa qualidade na rede pública – aqui em Campina Grande ainda usamos obrigatoriamente a glibenclamida. A pior de todas as Sulfoniluréias! Aquela que mais provoca hipoglicemia desencadeando problemas cardíacos e aumento do peso. Nós médicos somos obrigados a usá-la porque não tem outra opção e a glicemia alta seria mais danoso para o paciente.

Exames complementares – toda pessoa com diabetes tem que obrigatoriamente realizar determinados exames. O objetivo é identificar aqueles mais predispostos a complicações e trata-los com maior rigor. Por exemplo: tem um exame chamado Albuminúria (era chamado Microalbuminúria antigamente).

Quando uma pessoa tem albuminúria positiva, sabemos que esta pessoa provavelmente vai desenvolver problemas renais. Instituímos o tratamento adequado (gratuito nas farmácias populares) e insistimos no bom controle. Provavelmente esta pessoa não vai ter problemas. Se não conseguirmos fazer esse mínimo, só daremos o diagnóstico de Doença Renal quando aproximadamente 50% do rim já estiver destruído. Neste caso, mesmo tratando adequadamente, a evolução é quase que inexorável para a Insuficiência Renal e diálise.

No nosso ambulatório no Hospital Universitário (HUAC), solicitamos pelos menos uma vez por ano este exame (como mandam os livros). Infelizmente, menos de 10% conseguem fazê-lo. A mesma coisa acontece com quase todos os exames um pouco mais sofisticados. Para os exames mais simples, a espera fica em torno de um ano. Vou repetir: UM ANO.

Abandono da rede básica – praticamente todas as equipes de saúde básica estão abandonadas. Salários atrasados, condições de trabalho precárias, sobrecarga laboral, ausência de programas de treinamento, etc. Para completar, hoje, dia 14 de novembro, tivemos a notícia que, por conta do despreparo alarmante do presidente eleito em lidar com relações internacionais, os médicos cubanos estão indo embora.

Para Campina Grande não vai ser problema uma vez que, até onde eu saiba, não temos médicos cubanos. No entanto, muitas cidades da Paraíba, principalmente as mais pobres e mais distantes, vão sofrer um impacto que agora é difícil de mensurar. Os médicos cubanos são muito bons nos procedimentos da rede básica.

Eu fui supervisor de 4 deles e posso afirmar que, em saúde pública, sabem mais que nós além de serem muito mais dedicados. Colocar médicos recém-formados? Como se atenção básica fosse coisa fácil. Quero saber quantos médicos brasileiros, com salário de R$ 11.500,00 vão ocupar pelo menos metade das vagas. Eu aposto em menos de 50%. Ou seja, por conta da diarreia verbal de um fanfarrão, milhares vão morrer. Os diabéticos e hipertensos serão particularmente atingidos.

Falta de programas de educação – até o mundo mineral sabe que a parte educativa é extremamente importante não só no diabetes, mas em praticamente todas as doenças crônicas. Pacientes que tiveram pelo menos uma hora de atividades educativas têm diminuição de 80% no risco de amputações. Entre nós, tanto na rede primária quanto na secundária e terciária, os profissionais sobrecarregados não conseguem desenvolver atividades educativas efetivas.

Descaso pelos pacientes com complicações – nos países civilizados, os sistemas de saúde inteligentemente preferem gastar na rede básica. Sabem que é muito mais barato investir em medidas de prevenção, no diagnóstico precoce e no tratamento adequado do que nas complicações que são caras e tem resultados quase sempre pífios. É algo como investir um dólar na rede básica e economizar 10 na rede terciária. Tentei mostrar esses dados a alguns gestores. Expus dados e evidências comprovando esta afirmação.

Todos*, até hoje, fizeram ouvidos de mercador. Eu não conseguia entender porque eles não investiam na rede primária. Depois de algum tempo descobri. Eles não estão nem aí. Para eles, gente pobre não vale porcaria nenhuma. Esses “gestores” simplesmente lavam as mãos e deixam os pacientes com complicações morrerem, ficarem cegos ou serem amputados. Por exemplo: Em nossa cidade, uma pessoa só consegue fazer um cateterismo cardíaco ou uma angiografia se pagar ou se conseguir uma ordem judicial.

Dos 12 leitos que temos no HUAC, pelo menos 8 são ocupados permanentemente por amputados. Nos revolta saber que pelo menos metade poderia ser revascularizada e evitarem amputações ou que estas fossem mínimas (vide artigo neste site intitulado Pedaço de mim). Durante o segundo mandato Veneziano e o primeiro Romero, o HUAC tinha equipamento para fazer cateterismo cardíaco e cirurgia além de angiografia periférica e durante pelos menos esses 8 anos, todos os nossos “gestores”, criminosamente não autorizaram o HU a realizar esses procedimentos. O equipamento ficou obsoleto e centenas morreram ou foram amputados. Quem tiver sangramento de retina, tem que pagar R$ 5.000, por uma injeção intraocular de um antiangiogênico. A opção é ficar cego. E os nossos “gestores” continuam a dormir em paz.

Fazendo um balanço cuidadoso, acho que no dia 14 de novembro, temos muito mais motivos de chorar do que motivos para rir. E continuaremos chorando por muitos anos, se essa choldra continuar a nos governar.

* Vale salientar que nem sempre foi assim. O Dr. Newton Figueiredo, o secretário André Luiz e a amiga Dionéia foram honrosas exceções. A eles o agradecimento de todos os diabéticos e dos profissionais de saúde.

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Alberto Ramos

Médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, preceptor da pós-graduação do HUAC/UFCG e chefe da Unidade de Endocrinologia e Diabetes Professor Bezerra de Carvalho do HUAC.

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