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Campina Grande - PB

Devaneio

23/07/2016 às 0:16

Fonte: Da Redação

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Por Ribamildo Bezerra

Já viu aquela cena repetidas vezes. O mundo parecia estar preso em um dia. Nada de novo. As mesmas cores, os cheiros, e um sabor de monotonia na boca. Na verdade tudo estava certo, ele é que não se sentia ali. Era um semiestranho. Um pé ali e outro na lua. Bem, a lua era um lugar específico e geralmente nunca costumava estar em alguma localidade determinada.

Sabia e não media esforços para tentar se encaixar. Mas tal qual água e seda, adaptar-se a um estilo de vida tido como normal era esquisito. A desordem sobre a mesa era a anárquica forma de respeitar às suas ideias, todas ocupando os espaços necessários diante de sua vista. Era o que importava. Ordem era uma descrição subjetiva, onde cada pessoa estabelecia a referência. O que era desordem aos olhos de muitos para ele poderia ser uma forma criativa de distribuição espacial.

Naquele dia mais uma vez se fez pontual em seu atraso, sempre às 9h30min da manhã. Exatamente uma hora depois do horário acertado iniciava a sua rotina de trabalho. Tinha certeza que gostava do que fazia, mas não se prendia à rigidez contratual. Tinha de ser natural e com prazer e liberdade. Aquela era a sua liturgia.

Aprender a ver tudo com uma dimensão a mais, o olhar não óbvio, que só os OFFs do mundo possuíam, este era o valor que o segurava naquela instituição. Era um bom amigo diziam, carregava uma certa inocência para o mundo, afirmavam outros. Na real, não ligava para muitas coisas e por isso nunca tinha ao certo a noção de valor. Das pessoas que pensava gostar, hipervalorizava a relação com presentes e mimos. Daqueles que se via distante, buscava se aproximar com adjetivos que enquanto para ele era o elo para novos amigos, para outros, pura bajulação.

A aparência, levemente desleixada, era como um refinado charme, que no fundo só transparecia a sua falta de conexão com o mundo. Escondia-se por trás de grossos casacos em dias de chuva, como se frio e água fossem a mesma coisa. No fundo, muitas vezes, queria se esconder. A capa mais funcionava como uma blindagem psicológica do que necessariamente física.

Preservava o bom humor, característica tão sua. Achava-se melhor quando esse humor era dosado com uma pitada de acidez, porém não menos inteligente. A vida assim como o café, pensava em alguns momentos, se mostrava amarga e forte e nem por isso perdia o sabor.

Para aquela segunda-feira, de súbito, quis se dar mais uma chance e deixar a sua mesa de trabalho em ordem. Era preciso acreditar em renovação. Ideias vagas em anotações rôtas, números de telefone sem nome, frases soltas em devaneios sem conexão. Era preciso um pouco de sobriedade, pensou. Viu a foto do filho e achou que aquela súbita vontade de ‘por os pés no chão’ tinha razão de ser. O pequeno Rubens de olhos castanhos a sorrir na foto merecia um pai mais lógico e menos abstrato. Era passional em tudo: no trabalho, nas razões, nas paixões. Demorou a entender que seu relacionamento tinha acabado. Foi preciso um choque quando ‘Tíssia’, corrutela carinhosa de Patrícia, que há dois anos, desde que decidiu investir todo o seu pouco tempo de folga naquele Mestrado que nunca terminava, que o casamento teria ficado para reposição, e que esta era uma tese já comprovada sem direito a defesa. Já eram seis meses de uma liberdade inútil, que mais o oprimia pelo simples fato de nunca ter pensado em outra vida além daquela, antes iniciada a dois, a três, e que agora se resumia a si mesmo e um trabalho como desculpa.

Era vítima das comédias românticas, das verdades sutis dos textos de Nora Ephon sobre a vida a dois no cinema, e do eterno nerd John Hughes e suas comédias na Sessão da Tarde.

Não se sentia um fracassado. Relacionamentos podem ou não dar certo, mas não entendia como deixou o barco se afastar do porto. A tela branca do computador desafiava àquele jovem de 32 anos a materializar alguma ideia há quase 15 minutos. A simples tarefa de uma mesa limpa o fez resgatar um pouco da autoestima. Acendeu um cigarro naquela manhã fria. Decidiu caminhar um pouco em busca de alguma palavra perdida pelas esquinas ou algo que o fizesse iniciar pra valer o seu dia. Ao atravessar a rua, despercebido, mal viu o carro que agora avançava numa tentativa de desvio, entre destreza e potência nos freios. Inútil. Atropelado numa segunda-feira sem cor, sem ritmo, sem glamour. O corpo quente naquele asfalto era agora a atenção de muitos. A necessária imobilidade como forma de não complicar aquela estranha situação, era uma ordem consciente que fazia questão de obedecer. Não sentia dor. Agora representava um bicho incômodo de ser visto, como um estranho, por uma multidão curiosa por algo novo. Não sangrou. Apenas sorriu quando aquela mulher, de olhos claros e sorriso cativante, perguntava num misto de susto e irritação se estava tudo bem…Pronunciou seu primeiro nome, Guilherme, antes de fazer o sinal de positivo com as mãos. Do carro que o atropelou, antes de desmaiar ouviu a voz do Guilherme Arantes…cuja sua mãe era fã… “Eu vivo sempre no mundo da lua”…graciosa ironia.

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