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Deus ou o dinheiro

Padre José Assis Pereira. Publicado em 25 de fevereiro de 2017 às 13:20

Por Padre José Assis Pereira

No Evangelho deste domingo (cf. Mt 6,24-34), com o qual concluímos o Sermão da Montanha que em diferentes fragmentos foi proclamado ao longo destes domingos, somos questionados sobre em que Deus cremos. No que é nosso Pai que nos ama como uma mãe? Ou no ídolo imediato do dinheiro, do temporal e, portanto, perecível?

Jesus nos adverte: “Ninguém pode servir a dois senhores, pois ou odiará um e amará o outro ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v. 24). Há uma incompatibilidade entre o amor a Deus e o amor aos bens materiais.

O primeiro mandamento da Lei de Deus ordena: “Não terás outro deus além de mim” (Ex 20,3). Como então uma coisa material pode se transformar em deus? O deus dinheiro quando ocupa o coração do ser humano destrona qualquer outra divindade. Portanto, a disputa é inevitável. Deus e dinheiro não podem estar juntos no coração das pessoas porque são adversários, estes dois senhores dão ordens opostas.

O culto ao deus dinheiro acabou por se constituir o sucedâneo da religião autêntica. A serviço de uma moral egoísta e individualista, o dinheiro há muito assumiu o lugar de Deus na ordem mundial capitalista. Mais do que nunca, serve-se, presta-se culto e sacrifica-se ao deus dinheiro. Aliás, sacrificam-se tudo no seu altar, pois ele exige tudo! Ele compra consciências, poder, bem estar, projeção social, reconhecimento e até o amor. Por amor ao dinheiro as pessoas estão dispostas a perder a própria dignidade, calcam-se aos pés os valores mais fundamentais, sacrifica-se princípios morais e éticos, amor, família… Envenena-se o meio ambiente, poluem-se os rios, desaparecem as florestas, se isso fizer mais ricos os donos do mundo, escravizam-se até os irmãos. Tudo para ter mais coisas e poder de consumo.

Quando nossa atitude pessoal perante o dinheiro e os bens desvia estes de serem “meios” de subsistência digna: alimentação, vestuário, casa, família, educação, lazer e cultura; para se converter em “fim” obsessivo da nossa vida, começamos a soldar os elos das correntes que nos amarram à tirania deste ídolo: o consumismo. 

Os cristãos não podem cair nesta idolatria. Para nós, porque assim o fez e o pregou Jesus, o dinheiro deve ser sempre um meio a serviço moral e social das pessoas, não o contrário. Necessitamos o dinheiro, claro, para poder viver com dignidade. Mas o fato de que necessitamos do dinheiro para viver, não quer dizer que tenhamos que viver escravos dele. O dinheiro deve ser sempre só um meio para viver, não um “senhor” ao qual servir. Na realidade Jesus nos ensina a não confiar no dinheiro. E, sobretudo, a não fazê-lo senhor nosso. Fica claro que toda pessoa muito ocupada com o dinheiro não tem olhos para outra coisa e seu empenho pelo dinheiro terminará em avareza ou ganância.

A avareza é uma espécie de idolatria. Quando o amor ao dinheiro ocupa o lugar do amor a Deus e do amor ao próximo, passa a ser um ídolo que escraviza. E a avareza é a mais cruel de todas as enfermidades da alma. Eu diria inclusive que mais que a soberba. Quase tudo, dizemos se pode comprar com o dinheiro. É bastante certo que com dinheiro se pode obter tudo. Ou pelo menos quase tudo, a maioria das coisas que há sobre a terra. Mas, obviamente o dinheiro como tal não é nada.

Mais que a riqueza em si ou aos ricos, Jesus combate a atitude de apego frente a essas riquezas. A preocupação pela riqueza quase inevitavelmente sufoca a Palavra de Deus. A crítica de Jesus ao abuso da riqueza se baseia no poder totalizador e absorvente desta. A riqueza quer ser senhora absoluta daquele que a possui. Muitas vezes essa riqueza é conseguida injustamente. A corrupção, a droga, a excessiva pobreza de muitos e a excessiva riqueza de uns poucos, assim como muitos vícios humanos são quase sempre consequência de um desmedido amor ao dinheiro.

Jesus avisa do perigo do apego às riquezas e do esquecimento de Deus e do irmão que sofre. Ele via na maior parte dos fariseus e saduceus, representantes da classe rica e dirigente do país, as funestas e alarmantes consequências do culto ao deus dinheiro. O que lhes impedia segui-lo mantendo-os afastados do reino dos céus, não era a riqueza em si, mas sim seu apego a ela, a seus privilégios.

Quando Jesus chama a atenção aos ricos é porque o rico, apegado às riquezas, não sente necessidade de nada, pois tem tudo e não deseja que mudem as coisas para seguir em sua posição privilegiada. A maior riqueza do discípulo de Cristo é o desapego das riquezas. Temos de ser livres e evitar a escravidão que nos produz o dinheiro.

Para os discípulos de Jesus propõe uma inversão da ordem dos valores: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça…” (v.3 O “Reino” deve ser o valor mais importante, a principal prioridade, a preocupação mais séria. Só se busca o que se valoriza como necessário. Jesus propõe um ordenamento diferente, uma justiça diferente. O ordenamento da vida baseado no dinheiro gera na pessoa um estado de sufoco que termina por aniquilá-la. E a pessoa não vale mais que todos os dinheiros juntos?

Jesus propõe uma confiança absoluta em Deus, a Providência divina. O profeta Isaías (cf. Is 49,14-15) apresenta-a com a imagem da mãe que nunca se esquece de seu filho, da mesma maneira é o amor de Deus, ele nos ama como o amor de mãe: ternura, cuidado, proteção e nunca se esquece de nós.

Essa ideia do amor providente de Deus Jesus apoia em duas imagens da natureza: as aves do céu e os lírios do campo. A humanidade tão obcecada pela segurança, que tem o dinheiro como garantia econômica e segurança deveria em lugar disso abandonar-se serenamente e confiantemente à providência divina: “O vosso Pai que está nos céus sabe que vocês precisam de tudo isso” (v.32). Ele que alimenta as aves e veste os lírios.

Propõe Jesus, contempla os pássaros: não há neles a mais leve angustia, assim a confiança absoluta no Pai. Se os pássaros e os lírios são objeto do cuidado de Deus quanto mais o ser humano. Jesus sabe que nós não somos aves nem lírios, e que necessitamos ganhar a vida com trabalho, mas descobrindo a cada passo a providência amorosa de Deus e confiando-nos totalmente no amor do Pai.

Sem a angústia obsessiva pela aquisição e acúmulo de coisas e mais coisas, numa sociedade consumista e “do descarte”, encontraremos o verdadeiro Deus e com um coração aberto partilharemos e seremos solidários com todos os irmãos e irmãs.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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