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Deus nos procura sem cessar

Padre José Assis Pereira. Publicado em 23 de setembro de 2017 às 22:00

Por Padre José Assis Pereira

Continuamos no discurso à comunidade eclesial em que o evangelista Mateus coloca a parábola dos trabalhadores da vinha (cf. Mt 20,1-16), como uma catequese sobre a generosidade e gratuidade de Deus.

Nesta parábola a Igreja aparece como o novo povo de Deus, composto agora, não exclusivamente de israelitas, como no Antigo Testamento, mas de judeus e de pagãos. A comunidade cristã deve acolher como Jesus os pecadores. Assim age Deus, diz Jesus com a parábola, dando lugar a todos no seu Reino e pagando aos últimos quanto aos primeiros, usando não os nossos critérios humanos de justiça, mas critérios de amor extremado e gratuito, que ama os últimos como ama os primeiros.

Com a parábola, Cristo insinua que os primeiros chamados por Deus, os trabalhadores da primeira hora, eram todos os judeus, como povo eleito, da primeira Aliança: “A vinha do Senhor, é a casa de Israel” (Sl 79). Os últimos trabalhadores, pelo contrário, são os pecadores que Jesus veio buscar e que, convidados por Ele, entram no âmbito da misericórdia da Deus, como o “bom ladrão” que “roubou” o Céu no último instante.

Para nos ensinar que nos procura continuamente, desafiando-nos a trabalhar na vinha da nossa salvação, Jesus conta-nos esta parábola: “O reino dos céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia e os mandou para a vinha.” (vv. 1-2) Na verdade, o Senhor chama-nos continuamente a mudar de vida, a tomar a sério a nossa salvação, não adiando continuamente este problema fundamental e urgente.

“Às nove da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes disse: ‘Ide também vós para minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’. E eles foram.” (vv. 3-5) O patrão voltou até o fim do dia praticamente, para contratar operários que trabalhassem na sua vinha. Acolher o convite para trabalhar na vinha concretiza-se ao deixar a “praça” da ociosidade e seguir a vontade do Senhor com disponibilidade para trabalhar na nossa santificação, sem cair na tentação dos adiamentos.

“Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!” (v. 8) No entardecer da vida seremos julgados sobre o Amor. Todos receberemos a mesma salvação eterna, mas cada um será feliz na medida em que tiver sido generoso na vida presente. Deus quer sentar-nos à sua mesa, fazer-nos participantes da sua mesma felicidade infinita e eterna. De algum modo, assim como o trabalhador se anima ao pensar que tem garantido o salário no fim do dia, também o nosso prêmio começa nesta vida por uma alegria que ninguém nos pode arrebatar.

Os dons de Deus, a sua graça, o chamamento à fé e a entrada no seu Reino são sempre imerecidos e são fruto exclusivo da sua bondade generosa. Deus é sumamente bondoso, ama-nos com amor gratuito e nos procura sem cessar para nos conduzir à felicidade.

O Senhor, na sua infinita misericórdia, vai chamando desde a madrugada até ao cair da tarde.  Mas, é esta a imagem que temos de Deus? O Deus compassivo e misericordioso que Jesus nos revela, ou o Deus fiscal de comportamentos e castigador?

Certamente precisamos de conversão. É possível que tenhamos herdado a ideia de um Deus distante, severo e intratável, fácil em castigar e difícil em perdoar. Isso parece ser uma triste herança duma heresia que nunca foi condenada como tal, mas se meteu no seio da Igreja Católica como uma epidemia. Esta corrente de doutrina chamada “jansenismo” (séc. XVII-XVIII) que se desenvolveu, sobretudo na França e Bélgica e que vem na sequência de erros protestantes acerca da justificação das pessoas. Essa doutrina afastou muitas pessoas dos sacramentos mantendo-as afastadas de Deus.

A conversão implica numa mudança na forma de ver Deus. Temos sempre a tendência a construir um deus à nossa imagem, um deus previsível e domesticado que funcione de acordo com a nossa mentalidade. No entanto, Deus não pode ser reduzido aos nossos esquemas humanos: “meus pensamentos não são como os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos.” (Is 55, 8)

“Converter-se” é, a este nível, aprender que Deus não é redutível aos nossos esquemas humanos como nos fala o profeta Isaías (cf. Is 55,6-9); e é aprender que Deus tem os seus próprios caminhos, diferentes dos nossos. “Converter-se” é, a este nível, prescindir das nossas certezas, preconceitos e autossuficiências, confiar em Deus e na bondade dos caminhos através dos quais Ele conduz a história da salvação.

Jesus revela e proclama a gratuidade de Deus, que é bondade e misericórdia, e nos convida a imitá-la. A gratuidade da salvação e do perdão de Deus faz parte dos pensamentos, planos e caminhos do Senhor, que não coincidem com os nossos.

“Buscai o Senhor enquanto pode ser achado, invocai-o enquanto ele está perto.” (Is 55,6) Para procurar o Senhor não é preciso andar longos caminhos, nem interrogar muitas pessoas, para que nos digam onde podemos encontrá-lo. Ele espera de nós o mais leve sinal para nos abrir logo os braços e nos acolher.

A cultura pós-moderna prescindiu de Deus… Considerou que o homem é o único senhor do seu destino e que cada pessoa tem o direito de construir a sua felicidade à margem de Deus e dos seus valores; considerou que os valores de Deus não permitem ao homem potencializar as suas capacidades e ser verdadeiramente livre e feliz… Mas, na verdade temos necessidade de Deus, de nos voltarmos para Ele muitas vezes por dia e durante a noite. Trata-se de reconhecermos com humildade que estamos mal, afastados do seu caminho e acalentar o desejo de recomeçar e intensificar a amizade com Ele.

“Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus que é generoso no perdão.” (Is 55,7) Como é atual este apelo do Senhor! Há tanta maldade e perversidade no mundo! Há tantos caminhos que conduzem a precipícios! Há tantas pessoas que não aceitam o convite à conversão!

Ouvimos a Palavra de Deus, enganamo-nos a nós mesmos se pensarmos que esse convite à conversão que escutamos não é para nós, mas para os outros, porque eles é que precisam se converter e adiarmos nossa resposta.

A conversão é um processo contínuo, nunca acabado. Todos precisamos estar continuamente a converter-nos, a pedir perdão e a voltar para Deus, confiantes no seu amor gratuito e generoso e carinho infinito para cada um de nós.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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