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Deus Menino

Pe. Luciano Guedes da Silva. Publicado em 28 de dezembro de 2017 às 9:00

(*) Pe. Luciano Guedes

Na antropologia das religiões imaginou-se a divindade de muitos modos ao longo da história. As imagens de um Deus guerreiro e valente, implacável e terrível, foram por vezes invocadas na concepção dos antigos e também hoje dos contemporâneos. A ideia de que o sobrenatural seja sempre imenso, superior e inatingível permitiu-nos a representação de que Deus estivesse muito longe de nossa pobre sorte.

A novidade do cristianismo é precisamente que “o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós, e nós vimos a sua glória (Jo 1, 14). O apóstolo Paulo ensina que Jesus Cristo é “a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criação” (Col 1,15). Na Revelação, o Deus infinito e onipotente, deu-se a conhecer no rosto de Cristo, nosso Salvador. Desse modo, a fé cristã anuncia que Deus desceu das alturas para visitar a terra e nela elevar todas as coisas ao Céu. A este acontecimento singular, situado no tempo e no espaço, chamamos mistério da “Encarnação do Verbo”. No sim fiel e obediente da Virgem de Nazaré, a Palavra Eterna iluminou definitivamente a nossa história.

Ocorre que a Encarnação revelou-nos Deus nas feições de um Menino. Os pastores de Belém encontraram um recém-nascido, envolto em faixas, protegido por seus pais, Maria e José. Deus pequeno, próximo, necessitado e frágil, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado. É possível que por vezes nosso desejo de representar um Deus general, vingativo e impiedoso tenha mais a ver com nossa própria cegueira e trevas humanas. Em nossa limitação, contradição e busca de justificativas, erramos em definir Deus por nossas medidas tão precárias!

O Menino Deus, com seus braços abertos e o seu olhar a nos pedir acolhida, convida-nos a renovar nossa mentalidade sobre o jeito de nomear a Deus. O presépio proposto à pedagogia da fé por São Francisco de Assis no século XIII trouxe consigo até mesmo os animais, presentes na cena, para exprimir o quanto o Verbo feito carne toca esta natureza criada por Deus nosso Pai.

Estamos nos dias que chamamos liturgicamente Oitava do Natal, tempo oportuno para prolongarmos as alegrias de tão grande festa em nossa Mãe Igreja. É preciso outra vez perguntar: Onde estamos procurando o Natal? Na abertura do coração aos outros e na simplicidade dos afetos ou na correria das distrações? Existe um espaço para o “menino” ser acolhido em nossas relações humanas ou a necessidade de sermos grandes, superindependentes e notáveis deixou-nos indiferentes uns aos outros?

Sem o presépio, sem o Menino, o Natal pode tornar-se uma festa sem Deus, fechada na egolatria e no consumo que turva o coração de tantas pessoas! Natal é tempo de revisar os relacionamentos a partir da manjedoura, colocada à contemplação, para nos indicar onde Deus é manifesto! Nestes dias, olhemos mais para a família e os amigos, olhemos mais para os pobres e os sofridos desta terra despertando neles a força da vida, anunciemos mais a alegria onde houver sintomas de ressentimento e de rancor. Haverá sempre uma tentação de procurarmos Deus em nosso fechamento e megalomania que são somente expressões de nossa miséria e finitude. Abramo-nos ao Natal de Jesus Cristo, iluminemo-nos com a visita do Menino Deus!

(*) Pároco da Catedral Diocesana de Campina Grande

 

 

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Pe. Luciano Guedes da Silva

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