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Deus é misericordioso

Padre José Assis Pereira. Publicado em 10 de setembro de 2016 às 16:29

padre-jose-assis-pereiraA misericórdia e a ternura de Deus resume a Liturgia deste Domingo. O Evangelho de São Lucas (cf. Lc 15,1-37) recolhe três parábolas da misericórdia divina; todas põem em evidência a alegria que Deus sente com o reencontro com o pecador, representado na ovelha, na moeda e no filho perdido.

Jesus não fala da misericórdia de modo abstrato, mais do que definir, narrou-a através dessas parábolas. Deus ama os pecadores, e por isso os busca como o Bom Pastor vai à busca da ovelha perdida; ou como uma dona de casa busca um dinheiro que não sabe onde o guardou, até que o encontra.

Deus ama o pecador, como um pai ama a seus dois filhos: o mais novo sai de casa pedindo adiantada sua herança. E o que fica em casa, se comporta de modo distante e anti-social. E porque ama, não pode fazer outra coisa que mostrar seu amor: perdoando, comunicando o amor, festejando, convidando todos a compartilhar da sua alegria.

Nos três relatos se repetem os binômios, perdido-encontrado e tristeza-alegria. A distância de Deus é o que produz a perda e a sua proximidade, a possibilidade do encontro. A tristeza pela solidão experimentada longe de Deus se transforma em alegria após o encontro.

É Deus quem toma a iniciativa de buscar o extraviado, simbolizado na ovelha perdida, na moeda ou no filho pródigo. É Deus o autêntico protagonista das três parábolas

A intenção de Lucas na chamada “Parábola do Filho Pródigo” é manifestar a ternura de um Deus que nos convida a estar ao seu lado. Deus Pai reflete em seu rosto os traços da vida. Ele dá vida àqueles que, livremente, decidem segui-lo. Deus Pai nos dá vida porque é Amor.

Habitar na casa do Pai é gozar da misericórdia e do carinho de Deus. O Filho menor representa o discípulo autossuficiente que se tem afastado do caminho.

Longe da casa do pai não há vida verdadeira, somente fome, desgraça e morte. Mas o discípulo decide voltar ao bom caminho e ali goza da profundidade da vida.

O Pai o acolhe de novo, sua acolhida paternal devolve àquele homem a certeza de sentir-se querido e o reabilita como pessoa. O irmão mais velho é o paradigma do cristão que sempre se achou no caminho certo, mas lhe faltou o mais importante: o amor que supõe o encontro pessoal com o Deus que nos dá vida.

Havia vivido na mesma casa do Pai, pertencido desde seu batismo à Igreja, talvez trabalhado duramente em defesa de sua fé, mas não experimentou a grande alegria do amor do Pai. Por isso põe dificuldades à misericórdia, não entende um Deus que perdoa sempre sem limites.

O Deus de Jesus Cristo é o Deus da Vida. Quando nos distanciamos dele nossa vida se debilita. Quanto mais estamos longe do fogo de seu amor, mais frio teremos. Sentimos-nos sós e abandonados, como a ovelha perdida.

Quando nos fechamos a seu amor, como o filho mais velho, nos invadem a rotina, o desespero e o desamor. O mais significativo que nos ensina a parábola não é nem nossa fuga nem nosso fechamento, o mais importante é a misericórdia e a ternura de Deus, que quer que vivamos de verdade.

Temos de dar-nos conta de que Deus nos leva na palma da mão, só quer nossa autorrealização pessoal. Este é o convite que o Pai nos faz, o aceitamos?

A atitude de Deus é a acolhida, a compreensão e o perdão. Compreendemos o que é a autêntica conversão e o que significa o Amor misericordioso de Deus? As características da misericórdia divina são que:

A misericórdia de Deus não está submetida às leis do tempo, em um duplo sentido: primeiro qualquer momento é bom para que o Bom Pastor busque a ovelha perdida, como também o é para que o filho se ponha a caminho de volta à casa do pai; em segundo lugar, a porta do coração do Pai está aberta as vinte e quatro horas do dia e da noite, não tem horários. Ninguém poderá dizer a Deus: “Quando te busquei, tu não estavas”;

A misericórdia divina não se esgota jamais, está marcada pela eternidade que Ele é e na qual Ele vive. Enquanto exista a vida, sempre haverá a possibilidade de chegar até Ele e ser acolhido em seus braços de Pai.

Deus não olha o comportamento indigno que se tenha tido, nem o número de vezes que o tenha abandonado e desprezado; olha unicamente os movimentos interiores da alma que deseja o abraço paterno, olha os olhos cheios de lágrimas nos quais brilha o arrependimento, olha os passos indecisos de quem se aproxima dele para dizer-lhe:

“Pai, eu pequei. Perdoa-me… Que queres que eu faça?” Deus não se fixa na categoria do pecado, mas sim na categoria da alma;

A misericórdia de Deus transforma a gente, revoluciona de certa maneira a nossa vida. O povo de Israel, em meio a tantas dificuldades e apesar de suas quedas e infidelidades, levou sempre a bandeira do Deus fiel e redentor de seu povo bem alta. O povo da nova Aliança levanta bem alto a Cruz redentora como sinal permanente da misericórdia e do Amor de Deus pela humanidade.

A Bíblia é a cátedra a partir da qual Deus ensina aos cristãos, e a toda humanidade, a ciência da misericórdia, do amor e do perdão. É uma ciência cuja aprendizagem dura a existência inteira, porque em qualquer momento da vida nos pode espreitar as garras do ódio ou do desespero na dor. Como amar a quem nos tem difamado ou caluniado?

Como perdoar a quem, em nossa ausência, entrou em nossa casa e nos roubou? Como amar alguém que quis abusar e violentar nossos filhos queridos ou dos nossos amigos? Como perdoar a quem meteu a sua filha ou filho pelo escuro túnel do alcoolismo e da droga, destruindo-o? Estas e outras perguntas semelhantes mostram quanto é difícil a ciência do perdão cristão. Mas o ideal está claro.

Mantenhamos em primeiro lugar a decisão e a vontade de aprender esta misteriosa ciência, apesar de todos os obstáculos que encontremos.

Leiamos com frequência a Bíblia, sobretudo estas parábolas da misericórdia, os salmos nos quais brilha de modo admirável a misericórdia divina, e tantos outros textos nos quais aparece a misericórdia de Deus em ação.

Por ultimo, levantemos nossos olhos e nosso coração até Jesus Cristo, toda a sua vida desde a encarnação até a cruz e a ressurreição, para que no contato assíduo e orante com o mistério de Cristo vamos assimilando pouco a pouco, a maravilhosa ciência da misericórdia e do perdão cristão.

Queremos viver este Ano Jubilar à luz desta palavra do Senhor: “Misericordiosos como o Pai!” É um programa de vida. Somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco.

O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir.

*Padre Assis

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Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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