Fechar

Fechar

Desvendando os segredos da Língua Portuguesa

José Mário. Publicado em 24 de dezembro de 2016 às 16:55

 

O lançamento de um livro é o singular momento em que se constata que o ser humano continua acreditando na possibilidade de compreender o mundo e traduzir tal compreensão no corpo das palavras e na alma da linguagem.

É o consórcio da inteligência e da sensibilidade deslizando no incontornável horizonte do conhecimento. É a irreprimível utopia de nos transcendermos a nós mesmos.

É um ato de amor e de solidariedade histórica, na medida em que o livro, depois de publicado, liberta-se do agente empírico que o gestou e se abre para o gesto compartilhatório  com a alteridade.

Para o mestre Eduardo Portella, ícone da crítica literária brasileira de natureza poética, “somos um ser para o outro e fora do diálogo o que existe é o precipício”. Em seu clássico ensaio Que é a literatura?, o filósofo Jean Paul Sartre afirma que “a literatura é um estranho pião que só existe em movimento; e fora da interação concreta produzida pelo leitor o que há são negros espalhados na face branca do papel”.

Nesse sentido, o lançamento de um livro se pretende uma parceria afetuosa entre autor e leitor, mediada pelo conteúdo que o livro apresenta em sua intrínseca estruturação interna.

O lançamento de um livro é um ritual de congraçamento, ponto de aproximação e ponte de comunicação entre os que, à luz do preconizou o mestre Afrânio Coutinho em seu instrutivo livro No Hospital das Letras, sabem que é nos livros que o conhecimento encontra morada permanente.

Conjugando todos esses aspectos, o professor Sebastião Vieira do Nascimento, ou simplesmente Sebá como é mais conhecido nos méis acadêmicos, lançou, no aconchegante auditório do Teatro Paulo Pontes, em nossa cidade, no último dia dezessete do mês em curso, mais uma obra da sua lavra, o precioso livro Desvendando os segredos da língua portuguesa e descobrindo o caminho para não errar mais.

A cerimônia contou com as brilhantes exposições dos doutores Virgílio Brasileiro e Edmundo Gaudêncio, duas luminosas expressões da inteligência de Campina Grande. Ancorado no porto de um estilo substantivo e sumamente preciso em suas formulações, o doutor Virgílio Brasileiro traçou, no sequenciado itinerário do que chamou de a linha do tempo, toda a difícil e multiplicadamente ascensional trajetória do professor Sebastião Vieira do Nascimento.

Estribado, intertextualmente, no apotegma esculpido por Euclides da Cunha, segundo o qual “o sertanejo é antes de tudo um forte”, doutor Virgílio percorreu, com elucidativa riqueza de detalhes, a travessia de quem, nascendo num meio carregado de adversidades de variegada espécie, o sertão paraibano, a todas elas sobrepujou, com os ingredientes existenciais da fé, do trabalho, da férrea determinação de vencer na vida e do enorme talento com que foi dotado pela providência divina.

A caminhada do professor Sebastião, emblematicamente roteirizada pelo objetivo texto do mestre Virgílio Brasileiro, no final das contas, finda configurando-se como um exemplo altamente inspirativo próprio de quem, contrariando os versos de Alberto Caeiro, clássico heterônimo de Fernando Pessoa, recusa-se a apenas contemplar o espetáculo do mundo, mas nele intervém, com ele se envolve, anelando promover a sua transformação.

A apresentação do livro, na apreciação do indesviável cerne da sua matéria íntima, ficou a cargo do mestre Edmundo Gaudêncio, uma das mais privilegiadas inteligências do Estado da Paraíba.

Com a erudição contumaz, ingrediente que confere singular distinção a todos os pronunciamentos intelectuais que produz nas cenas e cenários de Campina Grande, Edmundo Gaudêncio principia o seu texto-ensaio dialogando com o pensador francês Maurice Blanchot, segundo o qual “o que mais interessa ler em um livro é aquilo que não está escrito no livro que lemos.

O mais importante em um livro é o para-além do livro, tudo aquilo que está posto (mas não dito) nas entrelinhas de um texto”.

Sábia ponderação, a do criador de O espaço literário. Nesse sentido, o título do professor Sebastião, mais do que uma bem urdida sistematização de fatos da língua portuguesa, notadamente os que se vinculam ao território do bem dizer e do bem escrever, cartografa a história de um homem apaixonado pelos vãos e desvãos da língua portuguesa, tanto assim que os percorre com humor, ludismo e aliciante graça, sem a caturrice gramaticalista inerente a certas exposições tão ortodoxas quanto chatas.

Curiosidades da língua portuguesa multiplicam-se numa obra que pretendeu, e alcançou plenamente o objetivo de ser um imprescindível manual de consulta a quem anela fazer da “Inculta e Bela Flor do Lácio” fonte perene de ensino e de deleite estético.

*Por: José Mário da Silva

Docente da UFCG/ Membro da Academia Paraibana de Letras

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

José Mário

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube