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“Destruição destrutiva”

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 15 de maio de 2019 às 10:01

A destruição criadora em economia é um conceito popularizado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter. Significa sepultar o que veio do passado e ultrapassado pelas exigências do mundo contemporâneo, criando, contudo, algo novo e melhor.

No Brasil, temos invertido a lógica de Schumpeter e inventamos a “destruição destrutiva”; eliminamos algo e nada criamos de útil em seu lugar e essa síndrome tem acometido muitos dirigentes.

É um pálido reflexo da mediocridade que tomou conta do país, em que os dirigentes públicos não se preocupam (ou não estão preparados) em responder a dois quesitos fundamentais: competência na gestão e projetos que possam oferecer bons resultados. Mas existem muitas exceções a essa regra, de quem criou sem destruir.

Competência na gestão compreende bons projetos, a escolha de auxiliares capazes, acompanhamento da execução e cobrança de resultados. Na Paraíba, dentre alguns poucos, podemos citar dois dirigentes que preencheram esses requisitos básicos: O Governador João Agripino e o Prefeito Williams Arruda.

João Agripino foi, sem dúvida, um dos mais bem-sucedidos governadores que a Paraíba já teve. Cercou-se de colaboradores do quilate de Juarez Farias, José Marques de Almeida, Otacílio Silveira, Luiz Almeida, Manoel Dantas Villar. A máquina pública foi modernizada, priorizou-se o planejamento, criou-se a CAGEPA que executou obras de abastecimento de água em setenta e cinco cidades, a CINEP – Cia. de Industrialização do Estado, foi asfaltada a rodovia Anel do Brejo e a BR 230, a partir de Campina Grande, só para citar alguns exemplos.

Já no governo de Williams Arruda foi criada a CELB, a CEHAP, a CINGRA (companhia de industrialização), a TELINGRA (companhia telefônica), que foi entregue sem nada em pagamento ao Governo Federal, a não ser alguns empregos a apadrinhados de então. E, em primeiríssimo lugar, a criação da hoje Universidade Estadual da Paraíba. Deixou a Prefeitura sem nenhuma dívida e recursos para pagamento da folha de pessoal por cinco meses.

No que diz respeito a bons projetos, faz-se necessária, antes de mais nada, a escolha de ideias que possam ter sua viabilidade mensurada sob os pontos de vista econômico e, também, dos resultados sociais. Para isso existe um instrumento largamente usado em todo o mundo, e, infelizmente, abandonado no Brasil: são os chamados termos de referência, com avaliação a preços sociais, com cálculo dos custos em moeda e os benefícios indiretos, que são distribuídos de forma difusa, impossíveis de ser avaliados monetariamente, mas de larga repercussão sobre a sociedade.

Às vezes o balanço monetário do projeto é deficitário, mas os benefícios sociais compensam essa aparente deficiência. Por exemplo, a construção de um hospital, uma creche, uma escola. A maioria dessas iniciativas requer investimentos de menor monta, ao contrário de obras faraônicas cujos resultados (vantagens) a preços sociais são baixos.

Os projetos grandiosos são fortemente determinados pela suposição, pelo “achismo” do dirigente, sem que atente para as regras básicas a ser seguidas.

Certa ocasião fui consultado por um empresário sobre um determinado tipo de negócio que desejava explorar. A primeira pergunta que fiz foi se ele tinha feito algum estudo preliminar, ao que me respondeu: “já tenho tudo na cabeça, não preciso de nada mais”.   É óbvio que nunca mais voltamos a falar no assunto, mesmo porque o projeto foi um fracasso.

No serviço público a coisa é mais complicada, pois os governos não estão sujeitos à Lei de Falência. Se não der certo, “a viúva paga a conta”. E isso se agrava pela falta de transparência na administração. Não conhecemos estudos de viabilidade dos projetos obedecidos os princípios aqui levantados.

Ouvimos o anúncio do Governo do Estado de construir em Campina Grande um Centro de Convenções, ocupando o espaço do Parque de Exposições Carlos Pessoa Filho, no Ligeiro. Não foram divulgados detalhes sobre o projeto e os resultados sobre a economia do Município. Por sinal, carecemos de informações sobre os efeitos positivos do Centro de Convenções de João Pessoa, quanto custou, o que agregou em termos de geração de emprego e renda na cidade. Ainda bem que não se destruiu nada pois ocupou uma área virgem.

Já em Campina é diferente. Fundado em novembro de 1964, o Parque do Ligeiro, numa área de 12 hectares, abriga instituições importantes como a APACCO -Associação Paraibana dos Criadores de Caprinos e Ovinos, SRP – Sociedade Rural da Paraíba, SEDAP/PULSAV – Defesa Animal e Vegetal, 3ª Cavalaria da Polícia Militar, Equipe de Equoterapia, 131 baias para caprinos e ovinos, cavalariça com 40 baias, 8 galpões para bovinos, bubalinos e equinos, Galpão Administrativo com 22 salas, pista para julgamento de caprinos e ovinos com apoio ao criador, restaurante, seis boxes e um galpão para comercialização de comidas e bebidas, estacionamento para veículos de grande e pequeno portes, 72 currais para comercialização de gados, duas casas, três prédios de apoio aos feirantes e equipes da Defesa e Administração.

No Parque é realizada semanalmente uma feira de animais, com uma média de 6.000 bovinos, 3.000 caprinos e ovinos, 1.400 suínos e 2.000 animais de outras espécies. O público presente gira em torno de 4.000 pessoas entre visitantes e comerciantes. Em edição passada da tradicional exposição anual de animais e produtos industriais, o Parque recebeu cerca de 120 mil visitantes e foram movimentados mais de 10 milhões de reais. Já ocorreram mais de 50 exposições semelhantes.  São mantidos empregos diretos e indiretos nas atividades de fretes e carretos, manejo de animais, vigilância, comercialização de rações, equipamentos agrícolas, gastronomia e veículos automotores.

O Centro de Convenções é muito importante, mas o município tem necessidades mais urgentes.

Para onde transferir equipamento do porte do Carlos Pessoa e os custos decorrentes disso?  Será que os benefícios compensarão os dispêndios com a construção do Centro de Convenções a isso se somando os custos de construção e os prejuízos econômicos e sociais com o deslocamento do atual Parque de Exposições.

O Governador João Azevedo é um técnico competente, experimentado e de bom senso. Talvez não esteja sendo bem assessorado com relação a esse novo projeto.  O certo é que ainda não ouviu ninguém em Campina Grande sobre o importante tema.

O que as autoridades locais têm feito quanto ao assunto. O Prefeito, como é de sua obrigação, pela relevância, já tentou contato com o Governador? Os vereadores já se pronunciaram? A impressão é de silêncio tumular. Parece mesmo que estão pensando apenas em 2020.

Conversar, ouvir opiniões, mesmo contrárias, e recuar quando necessário, é prova de inteligência, e isso o Governador tem.

O Centro de Convenções, repetimos,  é obra importante, mas, não podemos cair na síndrome da “destruição destrutiva”. Pense bem, Governador!

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Arlindo Pereira de Almeida

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