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Desencontros

Ribamildo Bezerra. Publicado em 30 de setembro de 2016 às 22:18

Era um daqueles raros momentos em que percorria a orla da capital mais festiva do Brasil, buscando respostas na sonoridade das ondas que quebravam naquele fim de tarde.

Mesmo próximo a antigas igrejas preferiu questionar o criador ali mesmo, a céu aberto. Sentia-se fraca por não ter certeza de suas decisões. Era o próprio paradoxo em si, diante dos fortes que compunham a Baia de Todos os Santos. Naquele verão de 1988, onde o Brasil se embalava no movimento axé music através dos seus ritmos e suas  coreografias, aos 18 anos, parecia destoar da alegria tão presente que tomava conta dos turistas que visitavam a capital soteropolitana.

Sorriu da estranha ironia quando ao longe ouviu, em um som vindo de um potente toca-fitas de um carro à beira da orla: “Jogue a vida arrisque tudo e curta esse amor. Se livre dessa cara amarrada e saia como entrou”… Riu. Pedia resposta aos céus, e recebia um recado de uma banda chamada Chiclete com Banana. Se a Bahia era de Todos os Santos parecia que os Santos estavam todos aderindo à nova onda do axé.

Para os olhos mais racionais e distantes dos seus problemas, seu drama tratava-se de uma questão simples, o exercício do desapego. Para ela um eufemismo mais complexo e sonoro: desenraizar-se. Sua alma feminina romanceava alegrias e tristezas mas quando se tratava de suas próprias inseguranças, era fetiche puro. Até o ano de 1987 estava decidida a prestar vestibular para jornalismo em Campina Grande, na Paraíba, onde faria companhia ao namorado que há mais de um ano já cursava Odontologia na universidade estadual localizada naquele município. Estudou, fez e passou. E a hora de partir estava chegando.

Perguntava – em solilóquio – a necessidade de assumir um compromisso. Já não tinha mais certeza. Como filha única pensava nos pais, do quanto amava o seu ninho, dos Natais inesquecíveis, para ela, a melhor parte do ano. Dos verões ao lado dos primos e tias no bairro da Pituba, sem hora certa para ir dormir. Dos acarajés compartilhados, quando o dinheiro era pouco, no Largo de Amaralina.

Da alegria de ter uma família compacta, que cabia em um fusca. Quatro anos longe poderia ser um bom tempo de maturação pessoal, como também poderia ser uma lacuna que jamais poderia ser preenchida ao lado dos seus por causa de um capricho romântico.

Sua interrogação já dava espaço a um saudoso sentimento acompanhando a cadência dos passos na areia. Suas memórias, tais quais as ondas que quebravam na praia, pareciam cada vez mais fortes naquele fim de tarde. De repente, uma voz suave lhe trouxe à realidade. Um solfejo de uma música que não lhe era estranha, uma canção que seu pai costumava cantar para ela, só que em um tom ainda mais festivo: “Na baixa do sapateiro eu encontrei um dia/A morena mais frajola da Bahia…Pedi-lhe um beijo, não deu/Um abraço,sorriu,/Pedi-lhe a mão,não quis dar,fugiu…

Na Baixa do Sapateiro, a grande composição de Ary Barroso, tinha se tornado uma canção de ninar, já que seu pai famoso, advogado de Salvador, exaltava dois grandes amores naquele clássico: a Bahia e sua pequena morena, rechonchuda, que abria um largo sorriso toda vez que ouvia aquela melodia.

Mas dessa vez a canção era cantada por um estranho, que mesmo de voz suave, não era o seu pai, mas cantava como se a conhecesse. Adiantou o passo, assustada, até ouvir alguém chamar seu nome:

– Pâmela! Não se assuste. Este livro é seu?! Nas mãos do jovem rapaz, de olhos castanhos e um sorriso marcante, um exemplar de Germinal, uma das obras do escritor francês Emile Zola lançada em 1885.

Reconheceu seu livro, mas não entendia como ele teria ido parar nas mãos daquele estranho.

Como se adivinhasse o questionamento dela, ele de pronto respondeu: “Ultimamente tens andado tão perdida em pensamentos, que esqueceste esta pérola por aqui, na praia. E sei que no coração onde Germinal floresce, uma certa inquietação bate a alma. Zola parecia conhecer a alma dos seus leitores…”

Parecia que a conhecia há tempos. Sentiu nele uma estranha empatia pela forma livre como falava e gesticulava. Seria ele a tal resposta dos céus…? Seria o primeiro anjo a vestir-se com a griffe para surfista FICO e ter cheiro de MensCLUB 42!!

Falou que passou a percebê-la pelos livros que levava para ler nos fins de tarde, e que os mesmos traziam em comum o tema liberdade. Aproveitou o ensejo e disse que a magia da liberdade está não em tê-la, mas em saber o que fazer com ela.

Nunca esqueceria aquele fim de tarde. Tinha perdido a hora antes de chegar em casa, tendo usado os famosos quindins da baiana Cristina  como desculpa para acalmar os pais, já que os mesmos só eram vendidos a partir das 21h, e era sim, literalmente, um ótimo encerra assunto. Daquele estranho nunca perguntou o nome, nem nunca manteve contato, apesar de lembrar a promessa de um reencontro. Sua presença marcante e leve se tornara inesquecível e a ajudou-a, de certa forma. a dar prosseguimento aos seus planos.

Há 18 anos morava na Rainha da Borborema. Tinha se tornado uma conceituada jornalista no Estado. Um dos textos mais bem pagos na região, orgulho do seu pai, falecido há cinco anos em Salvador. Mãe da jovem Marcela, também era professora da Universidade Federal de Campina Grande no curso de Educomunicação na disciplina Teoria da Comunicação. Amava expressões, gestos, sonoridade, ideias. Nasceu para aquele universo.

O Largo de Amaralina fora substituído pelas margens do Açude Velho. Era lá que suas lembranças ganhavam asas, maiores do que as garças que ali pairavam.

Atuante, amava a vida dinâmica que levava. Naquela tarde ao deixar a filha no cursinho, aproveitou os 20 minutos que antecedia uma entrevista que iria fazer para um famoso portal da cidade e ligou para a mãe. Falou das novidades, do quanto Marcela estava focada em prestar vestibular para Medicina, das saudades que tinha da avó. Do quanto o esposo era um workaholic convicto, e como isso a deixava “nas tamancas”.Amava-o

Entrevistaria , logo mais, um famoso psiquiatra baiano de nome Ângelo, que viria proferir a palestra “As Fragilidades da Alma”. O palestrante concederia entrevista apenas a dois jornalistas, sendo uma, ela.

Como de hábito nunca levava pauta. Preferia construir as perguntas durante o tempo de espera, em seu preservado caderninho de anotações. Cabeça baixa. Foi tomada de súbito, por uma voz que lhe pareceu familiar que solfejava: “Na baixa do sapateiro eu encontrei um dia/A morena mais frajola da Bahia…Pedi-lhe um beijo, não deu/Um abraço, sorriu,/Pedi-lhe a mão, não quis dar, fugiu…

Ao levantar a cabeça, um impacto na alma. Um pouco mais velho, mas com o mesmo jeito expansivo, reconheceu de pronto, o jovem da praia de Amaralina. No momento crucial da sua vida teria ajudado-a, naquele verão, há dezoito anos.

Pensou em lembrá-lo, porém nada foi dito. Sobre a entrevista, a certeza de que se tratava da mesma pessoa do passado quando ele disse uma frase que foi definitiva para suas opções: “Cada escolha sempre determina, o que vem em seguida…isso define o grau de equilíbrio de uma alma.”

Era ele, pensou. Disse que também era soteropolitana. Ele nada disse. Apenas sorriu. Na dúvida ainda questionou se ele possuía algum irmão parecido com ele… pois ele lembrava um antigo amigo de Salvador. Sentiu o olhar do entrevistado desviar do seu …e muito discretamente falou que possuía um irmão gêmeo falecido há 18 anos …teria morrido, desaparecido no Largo de Amaralina, possivelmente afogado. O corpo nunca foi encontrado.

Mas estranhamente, aquela mesma sensação de paz que sentira naquele dia, estava ali presente e acompanhou-a durante toda a tarde. Lembrou o início do dia, de uma discussão boba, onde a culpa por estar ali, numa terra que não era sua, que a teria afastado das suas raízes. Da despedida, que nunca houve, do pai, antes da sua morte.

O bem-estar que sentia trazia o orgulho de uma filha campinense, nascida em uma terra boa, de gente plural. Ligou para o marido. Pediu que cancelasse as consultas. Iriam jantar e discutir uma importante pauta: como convencer a mãe de que Campina Grande poderia sim ser uma nova Salvador para ela?

 

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Ribamildo Bezerra

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