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Depressão: uma doença da alma!

Flávio Romero. Publicado em 30 de abril de 2017.

Por Flávio Romero

Infelizmente, está sendo cada vez mais comum a morte prematura de pessoas, notadamente de jovens, como consequência do suicídio. De um momento para outro, por meio de um ato extremo, o sorriso largo é substituído por lábios frios e cerrados, definitivamente. O corpo que irradiava alegria e vitalidade, se transforma em matéria inerte, rígida e inanimada.

A notícia da morte por suicídio de um (a) adolescente ou de um (a) jovem na “flor da idade”, como se diz costumeiramente, nos impacta a todos. O suicídio em qualquer idade é um ato derradeiro que nos entristece. No entanto, ao ser cometido por alguém jovem, se reveste de uma diferenciada comoção, face ao contexto de uma vida que desabrochava para o mundo, revestida de sonhos e de ilusões.

Um fato chama atenção na maioria dos casos. Ao se fazer o histórico de vida do (a) jovem que faleceu, por trás do suicídio há sempre a sombra de uma enfermidade de etiologia complexa: a depressão.

Estudos científicos revelam que cerca de 60% das pessoas que morrem por suicídio apresentavam depressão ou outro distúrbio de humor. Esse alto percentual revela um cenário extremamente grave que serve de alerta para todos nós, notadamente os familiares e amigos mais próximos de pessoas que apresentam quadro depressivo. É certo que a depressão afeta de forma profundamente negativa as relações familiares da pessoa, com impactos nas atividades laborais e/ou escolares.

Dados de 2013 revelam que a depressão afetava aproximadamente 235 milhões de pessoas em todo o mundo (3,3% da população), sendo mais frequente nos países desenvolvidos (15%) do que nos países em vias de desenvolvimento (11%). Os sintomas aparecem geralmente entre os 20 e os 40 anos de idade, sendo duas vezes mais comum entre as mulheres do que entre os homens.

Cientificamente denominada como Distúrbio depressivo maior (DDM) ou Transtorno depressivo maior, a depressão é um distúrbio mental que comumente se instala, acompanhado de baixa autoestima, pouca energia, dor sem causa definida, perda de interesse em atividades que antes eram consideradas prazerosas, podendo, também, se manifestar, com menor frequência, por meio de delírios ou alucinações.

A medicina alerta que a depressão é causada por uma conjunção de fatores genéticos, ambientais e psicológicos, estando associada a certos fatores de risco, a exemplo da história de depressão na família, alterações significativas na vida, uso contínuo de certos medicamentos, problemas crônicos de saúde e até ao consumo de drogas. De forma equivocada, algumas pessoas confundem a depressão com a tristeza que é algo normal da vida, que não apresenta a mesma gravidade. O tratamento geralmente inclui medicamentos, psicoterapia ou uma combinação dos dois. Cada vez mais, as pesquisas sugerem que esses tratamentos podem normalizar a função cerebral associada à depressão.

Apesar da necessidade de levar em consideração estas explicações de natureza científica, também é importante considerar a dimensão insondável da depressão, associada as dores da alma. Neste sentido, o médico psiquiatra, professor e escritor Augusto Cury, ressalta: “nunca despreze as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana”.

A depressão é um grito da alma que se fartou do silêncio.

No entanto, na maioria das vezes, esse grito, apesar de reverberar no íntimo da pessoa deprimida, não encontra eco nos ouvidos das outras pessoas, principalmente da família e dos amigos próximos. Apesar de causar um barulho ensurdecedor das lacunas da alma do deprimido, esse grito parece inaudível aos ouvidos alheios.

Desta forma, é comum que as pessoas próximas falem às pessoas deprimidas por meio de frases de efeito que em nada colaboram com a superação da enfermidade, a exemplo:

– “Você não tem motivos para estar assim”.

– “Veja a vida dos outros e compare com a sua. Vai ver que essa depressão não se justifica”.

– “Você é jovem, bonito e cheio de vida. Não se entregue a essa doença”.

Todas essas frases podem ser verdadeiras. No entanto, quem menos sabe a causa da depressão é o deprimido.

A depressão se instala de forma silenciosa e sorrateira.

Lentamente vai invadindo os espaços lacunares da alma e dominando a capacidade de reação da pessoa. A entrega é a face mais cruel da enfermidade. Assim, é preciso que a família esteja atenta aos sintomas apresentados pela pessoa deprimida. Esses sintomas trazem uma mensagem do corpo e, principalmente, da alma, de que é preciso fazer algo.

A depressão como doença da alma não sangra. Não é palpável. Em geral, os exames clínicos não a detectam e nem as máquinas mais sofisticadas não a registram. A maioria das pessoas a ignora e boa parcela dos profissionais da saúde não dão o devido valor. Mesmo assim, a depressão não deixa de ser dolorosa e, infelizmente, tem destroçado famílias inteiras pela perda do enfermo, motivada pelo suicídio. Mesmo sendo um dor da alma, provoca tanto sofrimento quanto a dor do corpo. É uma dor ampliada pelo preconceito ou pela indiferença dos menos informados, inclusive da própria família.

Neste sentido, é importante conscientizar a família de que a depressão, a exemplo de qualquer doença, merece respeito, atenção e tratamento adequado, por meio de profissionais especializados. É um grave equívoco exigir que a pessoa deprimida reaja por si só, sem o auxílio médico.

Pressionar a pessoa deprimida para que enfrente a enfermidade com suas próprias forças é, antes de tudo, um ato de insensibilidade, nascido da desinformação. O deprimido não é um fraco. Não pode sofrer, ainda mais, pela cobrança dos familiares que exigem reação de um enfermo que não encontra forças, em si mesmo, para fazer esse enfrentamento.

Ao deprimido devemos levar uma palavra de estímulo e de incentivo, no sentido de que não se deixem abater pela desesperança. É preciso ressaltar que a cura é possível e que viver ainda é e sempre será o bem maior, concedido por Deus.

É importante observar os momentos de incertezas, de desânimo e de desesperança que afligem os enfermos, inclusive durante o tratamento. Nestes momentos, a família e os amigos próximos devem atuar de forma mais intensa no sentido de ajudar o doente no enfrentamento desses momentos mais críticos. Sem a compreensão e o apoio dos familiares e dos amigos mais próximos, a luta pode ser muito mais árdua. A luta pode, inclusive, ser perdida, culminando com o suicídio, cada vez mais comum, entre as pessoas com depressão.

Certamente, caro leitor, você convive ou conhece alguém com depressão. Ou, até mesmo você já foi acometido em algum momento da vida por essa grave doença da alma. Assim, como você enfrentou a doença? Tem expressado uma atitude solidária que acolhe e respeita o enfermo? Reflita e assuma uma posição proativa de solidariedade, respeito e atenção, enquanto há tempo.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Flávio Romero

* Educador.

falecom@fhc.com.br

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