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Delmiro Gouveia, sob um olhar inglês

Josemir Camilo. Publicado em 16 de outubro de 2018 às 7:58

Ao passar o centenário da morte (2017) do mais controvertido empresário nordestino, Delmiro Gouveia, surge uma nova biografia: Delmiro Gouveia: biografia de um pioneiro (Editora Ideia. João Pessoa, 2018). Uma super biografia, talvez não no sentido de ter descoberto algo novo, outro perfil, mas uma excelente conversa com uma dezena de autores que já escreveram sobre o pioneiro da industrialização no interior. O livro é mais um empreendimento do inglês, William Edmundson, hoje, radicado na Paraíba, que, entre tantas aventuras de desvendar passados poucos usuais, como já nos legou, como A História da Caça às Baleias, e um excelente trabalho sobre a Gretueste, agora, nos presenteia com este estudo visceral sobre Delmiro Gouveia, mostrando todas as suas facetas.

Trata-se de uma história linear, com excessiva contextualização, como tradicionalmente os biógrafos fazem, o que, no seu caso, poderia vir como nota de rodapé, para não cortar o anseio do leitor, pois a narrativa, que vinha fluida, parece retornar aos padrões acadêmicos, com tantas fontes arroladas, embora válidas como conhecimento histórico. Embora linear, o livro não termina com o capítulo sobre o assassinato de Delmiro, cuja trama parece uma novela, com tantos personagens, o que parece ter sido a realidade do crime, tantos foram suspeitos, tal o número de desafetos que o industrial e Rei das Peles conseguira juntar em sua arrogância por um empreendedorismo avassalador. O leque de acusados vai de coronéis políticos alagoanos, a funcionário de coletoria que falsificava guias a favor do industrial e que caíra em desgraças, a supostas vinganças por conta de envolvimento com mulheres de menor, e até suspeitas de crime encomendado pela rival escocesa, de que nunca se conseguiu provar nada, nem mesmo dos acusados que foram para a cadeia, talvez bodes expiatórios; contradição, em termos, para quem sempre exportou couro de bode, humor à parte.

Delmiro nasceu no Ceará, firmou-se em Pernambuco, no mundo dos negócios, onde o improviso tanto podia ser a cartada da sorte, como a da falência, mas sempre capitaneando sócios e sempre buscando o capital comercial estrangeiro, fosse inglês ou americano, judeu ou francês e até técnicos alemães ou italianos. O ipuense, que foi jogado ao mundo da sorte, no Recife, antes de completar 15 anos, cresceu entre vicissitudes, ora com curtos períodos de sucessos, ora amargando quedas e falências, arranjando créditos para as falências, que, em seguida, virariam sucesso. Mas, antes de tudo uma figura de comportamento polêmico, a ponto de, em um tempo, está no alto da sociedade pernambucana e em outro, sendo perseguido pela polícia, principalmente por suas acusações de rapto e estrupo de menor, bem como por suas adversidades políticas. Além de temperamental (bipolar?), chegou a bater com sua bengala no vice-presidente da República, seu rival pernambucano, Rosa e Silva, bem como atacou com um punhal um funcionário que não queria se subjugar às suas ordens. Raptou, ainda, a filha (‘ilegítima’) de menor, do governador de Pernambuco, Sigismundo Gonçalves. Peitava, como se dizia no sertão, qualquer coronel latifundiário e, talvez, por isto, foi assassinado, em 1917, em sua propriedade, na cidade da Pedra, em Alagoas.

Esta síntese foi possível porque Edmundson conseguiu discutir com todos os biógrafos de Delmiro. Em alguns momentos evita tomar partido de um biógrafo, jogando a opinião e a pesquisa de outro, para que o leitor tire sua conclusão. No entanto, o autor não esconde sua admiração pelo ‘pioneiro’ da industrialização, chegando a se trair, ligeiramente, ao entrar na narrativa, como se houvesse conhecido pessoalmente o industrial e comerciante. Sua conclusão é uma epígrafe ao polêmico empresário, citando um jornal, que sempre o defendeu, de forma bem positiva.

Ao mostrar um ser humano complexo (Delmiro seria um divã perfeito para analistas), de maneira quase seca, expõe o Delmiro pioneiro, como o autoritário, o agressor, o ditador da Pedra, que proibia namoros em sua vila operária, chegando ao cúmulo de reproduzir o ‘tronco’ da escravidão, amarrando seus relapsos funcionários em uma árvore, por horas e os demitindo em seguida. Um dos seus trabalhadores provisórios ficaria famoso, posteriormente, Virgulino, Lampião; trabalhara para Delmiro como almocreve.

O Delmiro, que brigava com sócios brasileiros e estrangeiros, chegando a levar um tiro no joelho, em uma dessas desavenças, enfrentava coronéis violentos, em bate bocas armados com capangas de ambos os lados. Esta imagem pode contrastar com a de homem viajado pelos Estados Unidos (onde vira uma vila operária o a utilização da cachoeira de Niágara para geração de eletricidade), Inglaterra e França. Um homem elegante, fino, que ditou modas no Recife e em nome desta mesma performance, fiscalizava diariamente seus operário da Pedra, principalmente sobre higiene e limpeza.

Seus embates com o ‘trust’ escocês de linhas de costura, seu arquirrival que terminou por comprar a fábrica, na sequência de sua morte, demonstra bem a petulância de Delmiro, ao refutar vender sua fábrica e propor comprar a firma escocesa. Esta, após sua morte, comprou e destruiu o maquinismo jogando no rio São Francisco. De onde, no regime militar, surgiu na esquerda, a ideia de um Delmiro nacionalista, sacrificado pelo capital estrangeiro. Lembro bem deste discurso e de publicações.

O livro é rico em detalhes, apaixonante, quase como um romance, com um encadeamento que vai além da saga do cearense, uma saga nordestina, que conseguiu mexer com dois outros Estados (Pernambuco e Alagoas), além de botar firma em Fortaleza, só para enfrentar grupos estrangeiros que lhes fossem adversos. Até subjugou um ou outro, como fez com Rossbach ou com um Krause, tornando-os sócios ou credores na praça.

O autor tem-se tornado um grande historiador empiricista, como rege a cartilha inglesa (que a conhecemos de perto), revelando sua face de profundo conhecedor das fontes históricas e empresariais, tanto de seu país, como as brasileiras, como já demonstrou em seu livro, Gretoeste. Seu livro não tem como epílogo o assassinato do industrial e ‘coronel’ (título, dizem, prometido com apoio de Rosa e Silva, mas nunca entregue), como se portava, mas, como num misto de historiador e jornalista, busca atualizar a história da fábrica da Pedra, até os dias de hoje, quando fechou há dois anos atrás, após seu centenário.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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