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De separação, esmalte vermelho e borboletas

Angélica Lúcio. Publicado em 17 de julho de 2016 às 13:22

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* Por Angélica Lúcio

De longe, avistei a amiga que não encontrava há tempos. “Nossa, como ela está bem”, pensei. Bonita, cabelos arrumados, pernas à mostra num pretinho fluido com leves transparências e um esmalte “básico”. Vermelho, of course.

De perto, a transformação se mostrou ainda maior. Depois dos beijinhos, abraços e cumprimentos de praxe, ela disparou: “Olha, vou dizendo logo, eu e Fulano estamos separados”. Cri-cri-cri. Após alguns segundos de silêncio, eu tive de verbalizar: “Você está bem? Porque estou achando que você está ótima!”.

Na mesma hora, lembrei que havia encontrado o Fulano há umas duas semanas. Tinha mandado beijinhos para a amiga e ele não havia comentado nada. Nadica de nada da separação que tinha se dado na época do Carnaval (e olha que já estávamos além da canjica e da fogueira de São João. Homens gostam de esconder sentimentos, né?).

Enquanto minha amiga resumia alguns detalhes da situação, eu lembrava, mas não contava para ela, o quanto havia chorado no dia do casamento deles. Naquele momento, com a igreja tão bonita e ao lado de amigos queridos, eu acreditei que, sim, há casamentos que duram para sempre e… Corta! De volta para a vida real!

Minha amiga teve seu quinhão de choro e revolta com toda aquela história de separação. Aos poucos, a ficha caiu. Os sinais voltaram à sua mente e ela teve certeza: de marido e mulher, tinham virado apenas amigos. Percebeu também que havia se transformado em um menino! No guarda-roupa, calças e camisas praticamente haviam ganhado um novo nome: uniforme. Sabe aqueles vestidos lindos que ela tem? Pois bem. Estavam lá, em algum lugar do passado… Manicure, então, nem sabia mais o que era.

Quando o marido saiu de cena, primeiro veio o choro. E o choro não era bom. Depois (bem depois, porque as lágrimas têm uma capacidade incrível de se multiplicar), veio um novo olhar para a realidade. Minha amiga lembrou que ainda amava muito o marido, mas gostava mais dela mesma.

Tomou uma decisão: arrumou o guarda-roupa, jogando fora antigos sentimentos e abrindo espaço para uma nova vida. Ressuscitou vestidos que há tempos não viam a lua ou o sol. Cuidou dos cabelos, com os cachos voltando a despertar sorrisos. E passou a reconhecer esmaltes pelo nome: “Desejo”, “40 graus”, “Deixa beijar”.

Minha amiga gosta muito de ir à igreja. Eu diria que é igrejeira mesmo. Em nova versão, porém, agora também vai ao cinema, a restaurantes, ao shopping e a lançamentos de livros. Vai aonde a vida está!

As aparências enganam, eu sei, e eu posso estar equivocada. Mas ela redescobriu a felicidade. Era infeliz com o marido? Imagino que não. Mas às vezes é preciso se afastar da cena para descobrir se estamos transformando uma bobagenzinha em um grande problema. Ou se estamos acomodados, mal acostumados com as frases feitas de cada dia e, assim, colocando em risco as borboletas voadoras que povoam nosso estômago.

Borboletas me lembram paixão e sexo, mas também são sinônimo de vida nova. É bicho lindo, mas poucos se dão conta do quanto a lagarta sofre até chegar ali. Sofre pra caralho. Nasce, come folhas feito uma louca, troca de pele, fica de cabeça pra baixo num galho, tece seu próprio casulo, desintegra partes dos próprios tecidos… E pena mais um bocado para fazer antena, pernas, olhos e aquelas asas lindas.

Minha amiga também passou por tudo isso: tomou um susto enorme ao ser comunicada pelo marido sobre a separação. Comeu de mais, ficou em jejum, agrediu quem quis ajudar, quis matar, quis morrer (não é assim com todos nós?), ficou feia, virou chata, se isolou… até ressurgir borboleta. Que usa salto alto, transparência, vestidos… e calcinha sexy em qualquer dia da semana! E eu espero, muito mesmo, que suas novas asas a levem para os todos os lugares. Para ser feliz.

*Jornalista

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Angélica Lúcio

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