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De Cuba… (II)

Josemir Camilo. Publicado em 26 de janeiro de 2017.

Por Josemir Camilo

País Surreal?

Continuando a leitura do livro da blogueira cubana, a autora, em sua ironia contra o sistema socialista, fala da desistência cada vez maior de militantes do Partido, entregando a carteira, mas com um boa justificativa. Conta, então, um fato surreal, na desistência de um militante. Disse para o coletivo que não era digno de ser do Partido porque se utilizou do mercado negro. E os demais disseram que faziam também. Pego de calças curtas, retrucou que não ficaria num partido em que os membros praticavam mercado negro.

Outra ironia é sobre o lanche de guardas e vigilantes estatais, um sanduiche e um refrigerante. Diz ela que isto é o motivo pelo qual milhares de cubanos continuam nestes empregos. Não pelo alimento, mas para vender o lanche.

Uma Cuba surreal é pintada pela jovem mãe rebelde. Não muito diferente do Brasil, em termos de ‘dar um jeitinho’, num sistema tão rígido, como aconteceu com aqueles que transformavam seu veículo (aqueles que, por fidelidade ao regime, tinham, no período soviético, comprado um ‘lada’) em alternativo/clandestino. O governo os obrigou a ser taxi coletivo, com impostos. Num documentário de Luiz Nachbin, “Sem Fronteiras”, da TV Futura, ele mostra que não pode dirigir pela Ilha sozinho com a esposa, pois teria de praticar o ‘transporte solidário’, dando carona a quem quer que o parasse nas estradas.

Comprar um carro depende da meritocracia: trabalhador com milhares de horas de trabalho voluntário, ou ter sido soldado em Angola, ou na Eritréia. Os velhos carros, possuídos antes de 59, podem ser vendidos, mas não os demais obtidos por ‘qualidades profissionais ou ideológicas’. A propriedade era parcial, intransferível e confiscável’. Mas para se comprar tem de ter uma carta de autorização do Estado e isto, diz, leva anos de burocracia

A jornada de trabalho é de 10 pesos cubanos e não em CUC, que vale um dólar. O salário fica em torno de 400 pesos cubanos

A autora aponta suas aspirações (e dos cubanos, diz): acabar com a censura, o controle estatal sobre a informação, e a seleção ideológica para ocupar certos empregos, bem como o doutrinamento da educação e o castigo para quem pensa diferente. Só faltou dizer o estado de delação permanente, que o diz alhures, em outro assunto.

Quanto a educação, ela mostra uma crise que perpassa a formação universitária. Os pré-vestibulandos da área de exatas e similares, são obrigados a fazer o chamado ‘curso no campo’, que a própria autora fez, trabalhando um expediente na agricultura e outro estudando, mas, diz, vivendo em precaríssimas condições. Pois bem, ela ilustra este fracasso pedagógico, contando o caso de um conhecido que era muito fraco no colégio e escolheu ser professor. Explicou ele que não queria fazer o curso no campo, por isso só lhe competia ir para a área pedagógica e também por que é uma licenciatura em menos de três anos.

Critica a falta de trabalho: “Havana, às dez da manhã de um dia de semana, é a melhor amostra de quantas pessoas não têm trabalho para ganhar a vida”. Isto, também, me pareceu claro em alguns documentários televisivos.

Se for generalizado o que a autora conta de uma escola do filho de uma amiga, a coisa anda feia. Ela conta que, lá, na escola, se fazem vaquinhas para um ventilador e para material de limpeza e para pagar uma pessoa para fazer a limpeza, pois os baixos salários não atraem ninguém. Esta escola não tem copiadora, impressora e o material rodado depende de um ou outro pai que o faça em seu emprego estatal.

O trem, também, lá, está sucateado. Diz, Brasil!

Por fim, a autora indignada com uma propaganda de turismo de seu querido país sugere novo roteiro: primeiro receberiam os turistas uma caderneta de racionamento; hospedagem, quartinhos em casas de subúrbio e do Centro Havana, ou em um albergue abarrotado de gente dos furacões; não poderiam usa o CUC e sim o salário de um mês de um trabalhador, 300 pesos comuns; portanto nem alugariam carros, nem pagariam taxis e sim transporte público; receberiam apenas um pão, duzentas gramas de peixe; viajariam para outras cidades na empresa estatal, para o que ficariam de um a três dias na fila por um bilhete; estariam, também, proibidos de subir a um iate ou usar prancha de surf (a não ser que já quisessem sair do país).

Fala dos (Mais) médicos, que recebem 50 pesos CUC (50 dólares) mensais que ficam numa poupança em Cuba e podem trazer eletrodomésticos que revenderiam, mostrariam as roupas bonitas que compraram numa liquidação; talvez trouxessem um laptop para a filha, ou um play station. Seu dinheiro só usaria na volta, depois de dois anos, isto se não desertasse e perdesse a cidadania

E complementa que a Revolução está morta desde quando aceitou a sovietização e sua pá de cal foi o fuzilamento do general Ochoa, herói de guerra em Angola, sentenciado por Fidel, como traficante (ou medo de um golpe?, se pergunta). Nos anos 90, Cuba não tinha agricultura de subsistência, tudo vinha de fora, da banana à mandioca, da manga ao café, da batata doce ao sal, até que, por pressão, voltaram a aparecer em 1994. Ainda importa 80% (segundo uma reportagem da RedeTevê).

Bom, mas vamos as tiradas da rebelde que nasceu na década de 70, quando ainda havia uma bonança soviética, adquirida desde 1962, quando Castro colocou a Revolução de Che, no colo do Partido Comunista. A partir daí, dois. Um saiu e foi fazer a guerra de focos. O outro apertou o cinto e marchou com os soviéticos.

A Yoani se pergunta: até quando a prosperidade deixará de ser vista como contrarrevolucionária, uma fraqueza pequeno-burguesa? E ela se responde, criticando: “só para que não existisse mais ricos, ao preço de que houvesse tantos pobres”.

Daí que a morte pública de um político tenha início quando as pessoas deixam de colocar-lhe apelidos”

As revoluções não duram meio século, advirto aos que me perguntam, diz. Renitente, acusada de trabalhar para a CIA, a autora se determina: “(,,,) prefiro me consumir sob o sol da minha autonomia a me cobrir com uma prerrogativa”. Refere-se a não ser engajada em qualquer ‘guarda-chuva estatal’, de privilégios, mas também de controle ideológico. E complementa seu raciocino: “Acontece que não existo, porque nenhuma entidade estatal me tem no seu inventário, porque não pago as cotas de um sindicato, nem apareço nas listas de algum refeitório operário (…) Na prática sou um fantasma cívico”.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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