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De Cuba, com raiva e carinho

Josemir Camilo. Publicado em 20 de janeiro de 2017.

Por Josemir Camilo

Resolvi ler o livro de da blogueira anticastrista, Yoani Sánchez, “De Cuba, com Carinho”, para ver o que ela aponta como erros do socialismo, porque queria ouvir/ler uma opinião de dentro, depois de assistir vários documentário sobre a Ilha, inclusive o maravilhoso documentário (positivo) sobre um dos ícones da música cubana: Compay Segundo. O livro é apoiado pelo posfácio do jornalista da Folha, Demétrio Magnoli, que tenta contextualizar as angústias da autora, aquela mesma que veio ao Brasil. O livro é apenas seu blog, com material produzido até 2009. Ou seja, a visita ao Brasil, nada a ver, mesmo porque o livro é de 2013. Dei, até, uma olhadinha em seu blog para ver se está mais assanhada, para o carinho, ou para o ódio, após a morte do seu Pai Fidel.

Seu livro/blog repete o que já se ouviu, viu e leu da parte dela. Ela pede abertura, liberdade, principalmente a de sair do país, e voltar, porque até se pode sair, mas há um prazo para voltar, se não, perde a cidadania. Meu interesse, como amante da História de Cuba, que já escrevi bem militante por aquela causa, mas agora, historiador cético, quero saber em que se transformou o país, após o fim da URSS, por que era ela quem o mantinha, praticamente. E, mais do que isto, ouvir/ler a nova geração, porque pelos documentários, parece que estamos diante de um fenômeno mundial e, porque não dizer, consumista: parabólicas, celulares, laptop, bonés e tênis de grifes e tantos outros, mas principalmente, o consumo musical massificado: hip-hop, reggae, rock. Toda uma cultura aportou à Ilha, mesmo com censuras e cesuras. Yoani fala das centenas e (quem sabe) milhares de ‘gatos’, feitos em parabólicas escondidas, pagando-se metade do salário (de 200 a 300 pesos cubanos comuns, a autora dá os dois) para (vi)ver o mundo. E, sobretudo internet.

Esta liberdade é a mais ansiada pela blogueira, já que apenas 2% da população tem acesso a internet (o Haiti, diz o colunista posfaciador, tem 11%), e que virou uma guerrilheira webirada, entrando em recintos para turistas, imitando falas estrangeiras, para ter direito a computadores e, de lá, mandar seus torpedos, denunciando o grande Pai, que não lhe deixa sair da Ilha Colégio Casa Quartel. Parece, à primeira vista, um grito solitário, individual, mas, a autora fala do êxodo de Mariel, em 1980, quando 125 mil cubanos (a ‘escória’) deixaram o país para viver nos Estados Unidos.

Muitos documentários exibidos na TV Brasil, mostram certa crise de abastecimento, vontade de atualizações, mas, principalmente, de salários condignos. O grande número de pessoas formadas na universidade parece um bom indicador para o sistema, mas os seus salário: Ó! Um destes documentários mostrava que um engenheiro largou a profissão para virar taxista e ganhar mais de 1.000 dólares, por mês, com turistas, já que não conseguia viver com o salário entre 26 e 41 pesos conversíveis (cerca de 28 a 41 dólares) que lhe pagava o governo. A provável réplica do sistema é que ele estudou de graça. Só a partir de 1994, com a crise dos balseiros, é que o governo autorizou o trabalho por conta própria. E isto, segundo outra fonte, já criou cerca de 500 mil empregos.

Muitos desistem de passar cinco anos na faculdade “por não ter uma família capaz de custear roupa, alimentação e transporte durante o período de estudo”. Daí que o governo liberou a pessoa a ter dois empregos (a partir de 2009), mesmo assim, diz a blogueira, isto não vai fazer a família do trabalhador desistir do mercado negro, dos desvios de recurso e de emigrar.

É o que muitos (todos?) pressentem, o colapso da economia socialista centralista, depois do apoio soviético. Naquela época, diz a jornalista, até a militância encontrava razão de ser, pois sempre tinha destaques e ganhos, nas atitudes do governo. Aí fala dos televisores comunistas chineses sorteados entre aqueles, de preferência, que defendiam a revolução.

A economia, segundo ela, vem amargando três fracassos: a reforma salarial, a distribuição de terras, e a não diminuição cambial, já que Cuba tem duas moedas. Sobre a terra, ela diz que o governo minimizou “a importância da tão necessária distribuição de terra”. Mais adiante, ela chama de ‘fracassada reforma agrária’, em que se adquire o lote apenas por 10 anos.

As novas gerações, que não viveram o frenesi da vitória das armas contra Batista, buscam individual e familiarmente sua sobrevivência pessoal/familiar, burlando as leis, cometendo delitos, entrando na calada da noite em armazéns estatais, roubando mochila de turista; lojista, do governo, fraudando faturas para se dar bem; vigia que viola o selo do contêiner; o garçom (estatizado) que aumenta, escondido, os preços para turistas, ou introduz, de seu quintal, algum gênero para vender; o comerciante que altera a lista dos consumidores (controlados pelo Estado) para sobrar mercadoria para si; o taxista que não liga o taxímetro; o recepcionista do hotel que reserva quarto  sem registrar; o torneiro que fabrica peça por fora do seu ‘plano de produção’ (este do Estado); o policial da aduana que deixa passar muamba; o policial que não aplica multa, ou exige uma caixinha dos taxistas, e outras mutretas mais. (Cont.).

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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