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Damião dos Bonecos

Jurani Clementino. Publicado em 22 de setembro de 2018 às 10:41

É muito provável que os varzealegrenses da minha idade e até um pouco mais jovens do que eu, lembrem, com clareza, dos bonecos de fantoche de um cidadão moreno, de cabeleira farta, que circulava pelas escolas, sítios e cidades apresentando as aventuras de Joãozinho, Cassimiro Coco e sua trupe. Pela companhia inseparável daquelas marionetes ficou conhecido popularmente como “Damião dos Bonecos”. Era um artista nato. Imitava várias vozes para dar vida a sua coleção de fantoches. Tinha um texto teatral para cada um deles, por ora engraçado e às vezes carregado de duplo sentido. Animava os eventos públicos e particulares, mostrando principalmente o mundo conturbado de Joãozinho e Cassimiro Coco, seus principais bonecos.

Acompanhei poucas de suas apresentações. Lembro que a última vez que o vi, foi na casa de seu Néco Costa, no sitio baixio Verde. E nós, moleques, ficávamos enlouquecidos com aqueles bonecos ganhando vida, conversando entre si, quer seja namorando, discutindo e até soltando piada com o publico ouvinte. Eles, os tais bonecos de Damião, também interagiam com o público. Nunca esqueci a escarrada que Cassimiro Coco dava nos espectadores e fazia a criançada correr dali. A gente era tão inocente que não percebíamos que os bonecos não falavam. Que era o próprio Damião que improvisava as diferentes vozes. Mas era de uma maneira rápida e discreta que pouco mexia a boca e por isso a gente ficava tão concentrado naquelas marionetes que não percebia o blefe do artista. Pra facilitar a compreensão do público sobre o que diziam os bonecos, Damião costumava repetir as falas daqueles fantoches. E assim, por anos a fio, deu vida as aventuras de Cassimiro e as presepadas e desaforos de Joaozinho. Damiao imitava voz de homem, mulher, criança e nos dava a sensação de que existia muita gente por traz daquela empanada.

Ah! o palco era simples e geralmente improvisado num canto de parede. Bastava uma corda e um lençol colorido para o cenário ficar pronto. Tudo muito rustico. Mas era uma coisa fantástica que mexia com a imaginação da molecada. O artista, durante suas apresentações, estava sempre acompanhado por uma caixa de som, já que o espetáculo era intercalado por músicas. Tinha suspense, os forrós, as músicas românticas e havia ainda os barulhos provocados por batidas em latas que davam mais veracidade as brigas dos bonecos. Ao comando dele o som era inserido na apresentação. Tudo marcado como num espetáculo de teatro. Era um recurso comum dos palcos e da dramaturgia que ajudava o artista na transmissão das emoções para o público. Então, tínhamos medo quando os bonecos travavam uma briga de faca e nos emocionávamos com os encontros e desencontros amorosos do moralista conservador Cassimiro Coco. Fiquei sabendo que esse ano o prefeito de Várzea Alegre sancionou uma lei aprovada pela Câmara de vereadores, denominando uma rua que fica no bairro Zezinho Costa, com o nome “TRAVESSA DAMIÃO DOS BONECOS”, a meu ver, nada mais justo.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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