Quantcast

Fechar

logo

Fechar

Cultura do insulto

Ailton Elisiário. Publicado em 27 de maio de 2019 às 12:06

O Papa Francisco está novamente sendo alvo de acusações de heresia, levantadas por católicos ultratradicionalistas que divulgaram uma carta em que o acusam pela prática de desvios da doutrina. É mais uma fase da guerra travada na Igreja entre conservadores e reformistas, cujo objetivo é forçar a saída do pontífice do cargo. Portanto, mais que teológico, o documento é eminentemente político.

O documento, porém, não conduz assinaturas de cardeais nem de bispos, mas de sacerdotes, teólogos e acadêmicos, não estando sob a apreciação da Congregação da Doutrina da Fé. As acusações podem ser alinhadas como uma suavização de posição pelo Papa em relação a questões que, na ótica desses acusadores, vão contra os mandamentos da Igreja, no tocante a temas da família, da sexualidade e do diálogo inter-religioso.

Isto é um movimento que representa a insatisfação do clero conservador à abertura trazida pelo Concílio Vaticano II e, mais presentemente, à reação de mudança estrutural que o Papa Francisco vem introduzindo na Igreja. Embora o Papa seja a cabeça visível da Igreja, que ocupa o trono petrino iluminado pelo Espírito Santo, outras cabeças querem conduzi-la dentro de uma visão integrista consubstanciada nas disposições do Concílio de Trento.

Heresia é vocábulo da era medieval, termo pelo qual a Igreja fomentou a Inquisição e que causou inúmeras condenações, todas elas injustas vistas aos olhos de hoje. A Igreja condenou a modernidade, em flagrante confronto com as novas ideias sociais que trouxeram o progresso tecnológico e científico, derrubando o imobilismo clerical. E ainda em pleno Século XXI, ainda se acham mentes inquisitoriais que se apegam a um doentio saudosismo, sem aceitarem que a Igreja desde o Papa João XXIII caminha numa estrada de mão única, a estrada do amor.

Não é a Exortação Apostólica “Amoris Laetitia” ou “Alegria do Amor”, nem o “Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum” firmado pelo Papa e pelo Grande Imã da Mesquita Al-Azhar do Cairo, que dão origem a crise na Igreja Católica. São os integristas declarados e ocultos que denominam de antipapas heréticos e apóstatas a João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco; que cognominam de Seita Vaticano II o Concílio Vaticano II; que chamam de falsa religião católica a sedimentada no Concílio Vaticano II.

Para esses integristas todos os papas a partir de João XXIII são heréticos, inclusive os que foram canonizados, ou seja, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Esses santos papas são paradigmas aos olhos dos fiéis, são modelos de vida de fé. Diante deste fato, pode se dar credibilidade a esses integristas? O mal está nesse integrismo, – palavra no seio católico que significa fundamentalismo – que como qualquer outro é sempre exacerbado em suas posições.

Se a Igreja não desejasse que a misericórdia de Deus inundasse o coração do seu povo, se ela não quisesse fomentar a paz entre os povos e as religiões, ela deixaria em total abandono as famílias das quais fala a Exortação Alegria do Amor, ela não incentivaria o ecumenismo e não se abriria ao diálogo inter-religioso. A palavra papal tem, porém, repercutido muito mais alto que o daqueles que fomentam o proselitismo religioso, o grande mal que fomenta a guerra entre as religiões.

De resto, os ataques soam como insultos, aos quais o Papa responde com o silêncio. Disse um auxiliar do pontífice que este comentou que nos tempos atuais os insultos se tornaram normais e afirmou: “Um político insulta o outro, um vizinho insulta o outro, também nas famílias um insulta o outro. Não sei dizer se há uma cultura do insulto, mas o insulto é uma arma na mão”.

Na verdade, não há só desrespeito e infidelidade ao papa, há realmente insultos, até porque, o Papa não pode ser julgado, porque julgar o Papa é julgar a própria Santa Sé. Isto deriva do princípio “prima sedes a nemine judicatur” (A Sé primeira não é julgada por ninguém), que encerra o conceito da imunidade do pontífice romano do julgamento episcopal.

Segundo o documento “Dictatus Papae”, oriundo do Papa São Gregório VII (1073 – 1085), acha-se no número 18 que “a decisão dele (do Papa) não pode ser questionada por ninguém” e no número 19 que “somente ele (o Papa) não pode ser julgado por ninguém”. Tal disposição passou para o direito canônico, estando no Código de Direito Canônico de 1983, no número 1404, que estipula que nenhum Papa pode ser submetido a qualquer tipo de julgamento. Isto é porque ele está além do julgamento.

Diante disto, já que os acusadores se baseiam em documentos da Igreja Pré-Conciliar, que se lembrem do documento “Dictatus Papae”, que tratando da autoridade papal devem observar. Aliado a este, também o Código de Direito Canônico em vigor, que incorporou esse princípio. Se desprezam tal legislação eclesiástica, as acusações realmente não passam de insultos.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Ailton Elisiário
Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube