Cuidado com a ganância

Padre José Assis Pereira. Publicado em 5 de agosto de 2019 às 9:06

Neste domingo a Liturgia nos ajuda a perceber que a nossa vida está em Deus e Ele é a nossa riqueza. Jesus nos faz uma espécie de advertência através da “parábola do rico insensato” (cf. Lc 12,13-21) para saber avaliar o valor real das nossas escolhas na vida e como seus discípulos, saber lidar com os bens materiais, cujo uso facilmente acaba nos fazendo cair na ambição e na ganância.

Era costume naquele tempo se recorrer à arbitragem de um rabino para decidir as questões de herança, como esta a que se refere o evangelho. Mas Jesus se nega terminantemente a prestar ajuda ao homem que lhe pede: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo.” (v. 13) Era tudo o que este homem pretendia de Jesus. Não estava interessado nos seus ensinamentos, nem no poder de fazer milagres, mas apenas na herança.

Quando tantos se aproximavam de Jesus para pedir a saúde ou o perdão dos pecados, este homem está hipnotizado pelos bens materiais. Jesus quer ajudá-lo a ser mais ambicioso, a olhar para o alto, para o céu. Ele não queria ajudá-lo a alimentar a sua cobiça que o dominaria. A atitude de Jesus revela a natureza da sua missão e torna-se paradigmática: a missão de Jesus é uma missão salvadora, que não tem como objetivo a resolução técnica dos diversos problemas das pessoas; limita-se a apontar claramente princípios superiores de ordem moral que, ao serem assumidos responsavelmente, conduzem com eficácia ao bem integral do ser humano, à felicidade.

Este individuo recorreu a Jesus como juiz de partilhas; Jesus apresenta-se como Mestre da Verdade que salva, libertando-o de cair nas malhas da ambição, do egoísmo e do pecado; assim Ele aponta critérios para o bom senso: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens.” (v.15)

É o momento para nos questionarmos: o que pedimos em oração ao Senhor? Quais são os bens que pedimos quando rezamos ou fazemos promessas? A recuperação da saúde para nós ou para os nossos familiares ou amigos… emprego, sucesso num negócio… só bens! Lembramo-nos alguma vez de pedir a nossa conversão, a ajuda para combater um defeito ou alcançar uma virtude?

A “ganância” ou a “avareza” é a gula dos bens, um apetite voraz e desenfreado que nunca se sacia. Deseja sempre mais, nunca se satisfaz como dizem: “a medida do ter nunca basta!” O equilíbrio na posse e uso dos bens é muito difícil, porque herdamos o pecado original com todas as inclinações desordenadas. A liberdade em relação aos bens é igualmente difícil. Poderíamos fazer uma lista de critérios:

O desapego, apostar na nossa liberdade, não estar preso ao desejo de ter coisas, nem ao medo de não tê-las ou perdê-las. Jesus sinaliza um caminho e aconselha uma mudança de valores que oriente nossa vida para outra meta mais plena. Mais livre. A liberdade pessoal que conduz ao seguimento de Cristo. Mas para chegar a essa meta o caminho é árduo, duro, “ascético” por assim dizer, pois se trata de uma luta muito pessoal e às vezes uma tarefa para toda a vida, nunca terminada. Libertemos o nosso coração de todas as ambições que desagradam ao Senhor e seremos mais livres e mais felizes. O menos será mais.

Levar uma vida digna. Há um nível social que é preciso manter na família: no cuidado e dignidade pessoal, com o mínimo de conforto indispensável à vida digna. Ultrapassar este limite leva ao luxo e à ostentação desnecessária. O esbanjamento. Este modo de agir é também um modo desordenado de utilizar os bens que o Senhor colocou ao nosso dispor.

Não se privar do necessário, por apego ao dinheiro. Esta atitude é diferente da que toma a pessoa prudente, guardando algumas economias para situações inesperadas ou emergenciais.

Não guardar ou acumular coisas inúteis. Às vezes guardamos coisas que não usamos há muito tempo, nem planejamos usar. Talvez pudessem servir para ajudar uma pessoa carente.

E, sobretudo, talvez o critério mais importante: Evitar uma vida insensata. Na parábola contada por Jesus Ele nos alerta contra o perigo precisamente o mesmo, em que se deixou apanhar o homem rico da parábola: “O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita… Já sei o que vou fazer!… Descansa, come, bebe, aproveita!” (vv. 17-19)

Este homem é louco, pois construiu sua riqueza sobre o trabalho e o sofrimento de outros, sem nada partilhar. Este homem não pensou em agradecer a Deus a colheita abundante, nem redistribuir sua produção com seus empregados ou com os necessitados, mas apenas pensou egoisticamente em si mesmo, planejou guardar, juntar, acumular só para si e descansar, ter uma vida cômoda, investiu apenas no seu conforto e no seu prazer, não pensou no outro.

“Deus lhe disse: Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” (v. 20) Jesus classifica de insensata a atitude do homem retratado na parábola e pede que sejamos sensatos nas decisões que tomamos, deixando-nos guiar pela verdadeira sabedoria. A insensatez é a falta de senso comum, de sabedoria elementar nas coisas que são preciso fazer. Este homem estava desorientado na vida. Não sabia de onde vinha nem para onde caminhava.

Temos de pedir ao Senhor a verdadeira sensatez: saber para que o Senhor nos dar os bens, as coisas e orientar o uso delas para essa finalidade. Tudo nos é dado para a glória de Deus e salvação eterna das pessoas. Temos de nos fixar numa orientação que o Apóstolo Paulo nos dá: “Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto… aspirai às coisas celestes e não as coisas terrestres.” (cf. Cl 3,1-5.9-11) O processo para transcender este afã possessivo que acaba na cobiça, que é uma idolatria e que a todos nos ataca ferozmente o encontramos nessa palavra de Paulo.

Ele não disse “odiai os bens materiais”, mas assinala como prioritário o “alcançar” e o “aspirar” aos bens superiores. Propõe-nos uma tarefa de busca autêntica da liberdade interior, necessária para centrar-se no mais importante, o seguimento de Cristo. Assim, as coisas materiais  passam a converter-se em um simples meio para a autêntica liberdade humana, mas nunca em um fim em si mesmos.

Esta carta de Paulo aos colossenses diria hoje que é um modelo de direção espiritual, porque para conseguir essa liberdade interior o Apóstolo não deixa de se referir a uma verdadeira “luta” para por limites ao “ego” humano, aos desejos mais primários da pessoa, por exemplo, o “não roubar” ou “não desejar os bens alheios”, repassando assim o Decálogo. Visto como uma norma necessária para poder abrir-se a uma comunicação com os outros, recordando-nos a todos o sentido do verdadeiro ascetismo cristão, cuja finalidade última é abrir-se à alteridade, é falar, é levar aos outros para a experiência de encontrar-se com Cristo.

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