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Cruzes e estradas sertanejas

Jurani Clementino. Publicado em 4 de junho de 2019 às 11:06

As estradas sertanejas são geralmente marcadas por cruzes de madeira. Elas guardam tristes memórias e fortes histórias. Vestígios de um passado marcado pela dor e pelo sofrimento. Perto das cruzes sempre encontramos um amontoado de pedras, estátuas quebradas dos mais variados santos, velas apagadas, flores murchas ou secas e fitas coloridas, mas desbotadas com a ação do tempo e a luz calcinante do sol. Todo mês de novembro um parente tratava de limpar o local, pintar de branco a madeira dos crucifixos, retocar com tinta preta as iniciais do nome do falecido – bem como as datas de nascimento e morte, capinar o mato que invadia o ambiente e acender novas velas em homenagem ao parente sepultado ou morto ali. Nesse dia, o sertão ficava salpicado de luzes amarelas. Para um transeunte desavisado, nunca se sabia se aquela cruz enfeitada e aquelas datas retocadas simbolizavam uma morte morrida, ou uma morte matada. Mas não havia quem passasse por uma cruz à beira da estrada que não repetisse o sinal da cruz por pelo menos três vezes.

Até os anos de mil novecentos e oitenta/noventa do século passado, as crianças viravam querubins em cemitérios improvisados sertão adentro. Morrer era uma banalidade cotidiana o que tornava os enterros em situações menos burocráticas. O governo não tinha controle sobre natalidade e, muito menos, sobre a mortalidade, principalmente de crianças recém-nascidas. E para enterrar as crianças mortas ao nascer, bastavam algumas providencias como uma caixa de papelão, uma flores frescas colhidas no quintal, lençóis limpos chamados de mortalhas, uma rezadeira experiente para encomendar o corpo e pronto, os meninos eram devolvidos a Deus com a mesma pureza e rapidez com que os pais haviam recebido aqui na terra. Recém-nascidos que mal chegavam e já partiam.

Motivos para as mortes prematuras não faltavam. Doença de fome e de gente pobre tinha com fartura. Privilégio naquela época era sobreviver. Por isso, iam si plantando cruzes pelas estradas. Semeando meninos naquela terra árida. Enterrando as esperanças, os sonhos e as alegrias. Hoje já não se enterra mais ninguém à beira da estrada. Tem que levar para a cidade, atestar o motivo da morte, sepultar em cemitério público ou particular. Atualmente as cruzes à beira das estradas sertanejas demarcam os locais onde alguém morreu, quase sempre, por acidente. É um indicativo de que alguma pessoa perdeu a vida ali, mas não que ali esteja sepultado. Pouco se ouve falar em cemitério improvisado ou clandestino. Também há um esforço institucional em acabar com os casos de morte de crianças prematuras. As gestantes são acompanhadas durante toda a gravidez e orientadas a ter cuidado com a alimentação. Isso não necessariamente significa dizer que a fome foi erradicada em nosso país. Há muita gente passando necessidade nos grotões e nas periferias do Brasil.

As cruzes à beira das estradas também causavam medo a muita gente que trafegava por ali. São incontáveis as lendas de que nestes locais apareciam almas. Não necessariamente as almas dos anjos ali sepultados. Mas inventava-se de tudo. Era só alguém morrer que surgiam histórias de que o defunto estava aparecendo lá na cruz da estrada. Tudo muito folclórico.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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