Fechar

logo

Fechar

Crônicas & Poesias

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 12 de junho de 2019 às 13:01

O título escolhido para esta crônica é o mesmo do único livro publicado por Jurandir Alfredo da Silva, em fevereiro de 1981. Na dedicatória ele escreveu: “Agradeço aos meus irmãos e aos meus amigos que me incentivaram para a conclusão deste trabalho. E aos que não puderam fazê-lo”. Era o coração generoso do poeta que aproveitou a oportunidade para dedicar a obra, também, a Sebastião Alfredo, seu pai adotivo.

Negro, pobre, criado por uma lavadeira de roupas, sua mãe, e um trabalhador braçal, seu pai adotivo, Jurandir desde a infância na Rua do Cachimbo Apagado (Atual Rua Firmino Leite), em Campina Grande – PB, teve que enfrentar as adversidades decorrentes de sua origem social e com elas conviveu até os últimos dias de sua vida.

Na adolescência, ele estudou no SENAI, no Bairro da Prata, em Campina Grande, onde concluiu um curso profissionalizante. Ao concluir o curso, ele conseguiu um emprego em uma metalúrgica onde passou a trabalhar de dia e a estudar à noite no Colégio Estadual de Bodocongó, onde concluiu o curso ginasial.

Concluído o curso científico, não me recordo onde, ele se submeteu ao exame vestibular e foi aprovado para um curso superior na Universidade Regional do Nordeste (URNe), atual Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Entretanto, trabalhando na metalúrgica até três expedientes por dia, em algumas oportunidades, durante a semana, e como garçom nos sábados e domingos na sede social do Campinense Clube, ele não teve condições de prosseguir com os estudos universitários.

Fisicamente cansado pelo excesso de trabalho e psicologicamente abatido diante das dificuldades financeiras e os desencontros afetivos no âmbito do relacionamento conjugal, ele decidiu deixar Campina Grande para trabalhar como metalúrgico em Santo Amaro – SP, cidade onde morou com a esposa e filhos.

Porém, antes de partir, demostrando o nível elevado de nossa amizade fraternal, ele confiou à minha guarda os originais dos textos de sua autoria que fizeram do livro “Crônicas & Poesias”, composto por quarenta textos, nos quais prevalecem as poesias sobre os textos prosaicos. Esse livro não foi lançado por editora, ele foi impresso em uma gráfica de Campina Grande, numa tiragem reduzida, custeada pelo próprio autor.

Relendo as crônicas e os poemas que compõem o livro, pude perceber no subtexto toda carga emotiva refletida em sentimentos e sofrimentos presentes no âmago do poeta e escritor, sem que nós que privamos de sua amizade pudéssemos perceber todo o drama interno por trás de seu sorriso.

Nas crônicas, o autor nos permite vislumbrar as paisagens denotativas e conotativas de seus dramas quotidianos. Já nos textos poéticos, essa visão objetiva e realista se mistura com a fluidez das metáforas na abordagem de temas particulares e universais.

Para exemplificar, seguem alguns versos da lavra de Jurandir Alfredo: “Ah! Meu pai/ Como é duro a gente viver/ Como é duro a gente mentir/ Eu queria, pai, que o senhor não tivesse/ A ideia de me produzir”, versos do poema intitulado “Pai”, provavelmente direcionados ao seu pai biológico.

Do poema “Meditações de um filho”, destaco a última estrofe: “Ah! Minha mãe querida/ Como é ruim minha vida/ Mas nada posso fazer/ Eu vou erguer o meu rosto/Para ninguém vê o desgosto/ Que tanto me faz sofrer”. Nesse poema os versos são dirigidos à sua mãe, assim como nos versos do poema “Canção para mamãe”.

Consciente de sua negritude, no poema “Sou Negro”, ele abriu a primeira estrofe com quatro versos: “Se você me quiser/ Tem que ter muito amor/ Amar tudo em mim/ E também a minha cor”.  Para além do campo pessoal, a sensibilidade do poeta transcende para os dramas sociais dos menores abandonados como no poema inédito: “Negros, da cor do asfalto”.

Apreciador da música popular, Jurandir fez economia, juntou um pouco de dinheiro e conseguiu comprar um toca-discos de segunda-mão. Era nesse toca-discos que costumávamos ouvir LPs de vinil de Tim Maia, Tony Tornado, Jorge Ben, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mutantes, Gal Costa, Maria Betânia, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Taiguara, Johnny Alf, Raul Seixas, Milton Nascimento, Bob Dylan, The Beatles, The Rolling Stones, Santana, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Paul McCartney, George Harrison, Jimmy Cliff, The Marmelade, Creedence Clearwater Revival, Joe Cocker e John Lennon. Foi para John Lennon que ele compôs o poema “Um homem chamado Lennon.

Dotado de grande sensibilidade, os textos em prosa e versos produzidos por Jurandir Alfredo e publicados no livro “Crônicas & Poesias” anteviam um escritor que poderia ter produzido muito mais no campo literário se não fossem as condições adversas em que ele vivia e viveu até a sua morte prematura em São Paulo, antes do Natal de 1990.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Benedito Antonio Luciano
Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube