Fechar

logo

Fechar

Benedito Antonio Luciano: Crônica de uma (pseudo)morte anunciada

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 12 de março de 2020 às 21:29

Desde o início de nossas vidas somos cobrados. Primeiro, para aprender a falar. Nessa etapa, tentam nos fazer aprender logo a dizer as primeiras palavras.

Depois, vem o aprender a andar sem o auxílio de alguém, a comer e beber com as próprias mãos, a usar o sanitário de forma adequada, a brincar com outras crianças e a lidar com as regras elementares do convívio social.

Na pré-escola, o desenvolvimento infantil é acompanhado pelos professores. Nessa fase praticamente não há cobrança direta, afinal trata-se de um período de adaptação da criança a um novo ambiente.

Há, na verdade, abordagens pedagógicas que abominam cobranças e que defendem que o aprendizado deve ocorrer como num passe de mágica. Há, também, pais e avós que se tornam reféns das cobranças dos filhos e netos.

Crianças educadas dessa forma, geralmente se transformam em adultos egocêntricos, egoístas e arrogantes, para os quais só existem direitos, nada de deveres: os direitos são para si e os deveres são para os outros.

Passada a etapa infantil, as cobranças começam a se tornar mais incisivas na adolescência. Expostos ao mundo midiático, baseado em valores consumistas, alguns adolescentes começam a cobrar a satisfação de anseios materiais sem se preocupar, na maioria das vezes, se a família tem ou não condições de atender tais demandas.

Casos existem em que certos pais se submetem à tirania dos filhos e se abstêm de exercer a autoridade, temendo, de forma equivocada, perder o amor dos filhos. Ora, ter autoridade, não significa ser autoritário. Por isso, pais que não sabem dizer “não” aos filhos são cobrados, mas não sabem cobrar.

Neste contexto, é bom lembrar que para além do ambiente familiar a sociedade não é tão permissiva com relação a quem foi educado assim. No mundo real, as cobranças e a competitividade sempre estão presentes.

E no ambiente competitivo, tem mais chances de êxito quem aprendeu a conviver com a roda da vida, com o sucesso e com o fracasso e, sobretudo, com as cobranças.

Foi pensando sobre essas e outras cobranças que me ocorreu refletir sobre elas. Vasculhando a memória, me lembrei das cobranças as quais fui submetido e as que fiz a mim mesmo nas mais variadas etapas da vida.

Por exemplo, lembrei que durante a formação escolar me acostumei a ser avaliado e a ser cobrado, da pré-escola ao grau mais elevado da carreira acadêmica. Assim, ao longo do tempo, escutei muitas cobranças, tais como: “quando é que vais concluir o curso de graduação? ”; “quando vais defender a dissertação? ”; e “quando vais concluir o doutorado? ”.

Obtidos os graus acadêmicos, ultrapassado o tempo e a idade mínima para requerer aposentadoria, resolvi continuar trabalhando. Então, algumas pessoas passaram a me perguntar: “ainda estás na universidade? ”, “ainda estás dando aulas? ”.

Pronto! Agora só me restava ouvir a última cobrança: “Ainda estás vivo? ”. E ela veio quando o engenheiro Herivelto Bronzeado, contemporâneo do curso de graduação, que atualmente mora em Brasília – DF, telefonou para Lucimar, secretária do Departamento de Engenharia/UFCG, para saber se procedia a notícia de minha morte, que ele soubera por intermédio de outro colega.

Ao ser informado por Lucimar que a notícia era improcedente, ele telefonou para mim e rimos da situação inusitada. Então, como ainda estou vivo, aproveitei o mote para escrever esta crônica.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Benedito Antonio Luciano
Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube