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Crônica de Nova Iorque

Jurani Clementino. Publicado em 12 de outubro de 2018 às 8:25

Exatamente essa semana, mas precisamente no ultimo dia 10 de outubro, a cidade de Várzea Alegre – CE, minha terra natal, completou 148 anos de emancipação política. Coincidentemente, no dia seguinte, 11 de outubro, Campina Grande – PB, minha segunda casa, também fez aniversário: 154 anos. Nas últimas duas décadas, vivi dividido entre essas duas cidades nordestinas. Aos poucos, o tempo aproximou esses dois pontos distantes do mapa. Na primeira tive a sorte de nascer, crescer e sonhar; na segunda tive a oportunidade de estudar, trabalhar, tocar a vida. Guardo um carinho enorme pelas duas. Quando estou na Paraíba, sinto saudades do Ceará. E quando estou no Ceará, meu coração sente falta da Paraíba. Sou um cidadão brasileiro dividido entre dois estados da federação. Alimentando uma presença na ausência e uma ausência na presença1.

Agradeço as duas por tudo que foram capazes de me oferecer, ou me negar. Mas quis o destino, que exatamente esta semana de outubro de 2018 eu não estivesse nem no Ceará, nem na Paraíba, nem em Várzea Alegre, nem em Campina Grande. Na verdade, o destino me trouxe para fora do Brasil. E por força dessa beleza que é arte de viver, vim parar na mais importante é imponente cidade do mundo. Hoje escrevo essas linhas diretamente do bairro de Manhattan, cidade de Nova Iorque nos Estados Unidos. Quem diria! Vim conferir de perto o que muitos já haviam me dito: a Big Apple é uma grande e bonita metrópole. Em uma semana por aqui já visitei museus, ruas, avenidas, parques, prédios e monumentos históricos… Estive na Estátua da Liberdade, andei pela imensidão do Central Parque, parei em frente ao Edifício Dakota, local onde viveu e foi assassinado o Ex-Beatle John Lennon, subi no Top Of The Rock e, lá cima, avistei o Empire State Building, me emocionei com o Memorial às vítimas dos atentados de 11 de setembro e me surpreendi com as luzes e comercio da Quinta Avenida… Tudo aqui é muito imponente.

Mas, confesso que nada se compara a felicidade que é voltar ao Brasil, aterrissar em São Paulo e pegar um voo doméstico direto para Campina Grande. Passar por casa, tomar um banho rápido e seguir pela BR-230 em direção ao Ceará. Ultrapassada a divisa dos dois estados, já no município de Lavras da Mangabeira, avistar uma placa indicando que Várzea Alegre está a poucos quilômetros. Sair da BR pela direita e pegar uma estrada de terra na altura do sítio Jatobá. Atravessar o leito seco do Riacho do Machado, passar pelo sítio Carnaúbas e, seguido por uma nuvem de poeira, subir a ladeira das Lagoas dos Nunes. Lá de cima do “Serrote da Grota Funda” avistar o Sítio Queixada e suas casinhas plantadas nos sopés de serra. Chegar à casa de meu pai e ser recebido com um abraço familiar. Depois, sentado no alpendre ventilado, saborear um delicioso baião de dois com toicinho torrado. Não vou negar que gosto dessa nossa simplicidade. Desse nosso jeito arrastado de andar e de falar. De nossa maneira desajeitada de ser e de viver.

Se eu tivesse nascido aqui, nos Estados Unidos, talvez fosse tudo normal. Mas me acostumei mesmo foi com o “estranho”. Com o “pouco” repartido entre muitos. Com o que muitos chamam de “feio”, mas que é de uma beleza sem fim. Por isso, por esse sentimento que carrego comigo, resolvi homenagear, as duas cidades nas quais passei a maior parte de minha vida escrevendo essa crônica direto de New York. Parabéns a agrestina Campina Grande e a sertaneja Várzea Alegre.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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