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Campina Grande - PB

Crítica sem G.P.S – Estudos e memórias – o novo livro de Elizabeth Marinheiro

13/05/2017 às 8:50

Fonte: Da Redação

Por José Mário da Silva (*)

Elizabeth Marinheiro, diria Charles Sanders Pierce, pai da ciência semiótica, é índice, ícone e símbolo de valores perenes e imperecíveis grandezas. É índice de realizações que emulam contra o tempo e fundam a sua própria eternidade. É símbolo da cultura literária autêntica. E, por fim, ícone de uma singular competência em todas as áreas em que tem atuado, notadamente, na docência e na prática de um ensaísmo crítico verdadeiramente brilhante, nuclearizado, de um lado, por um amplo repertório teórico; e, por outro, por uma rara capacidade de conferir, às obras lidas, o seu particular e peculiar sotaque crítico.

Ensaística aberta e desaprisionada por qualquer arcabouço teórico mobilizado, a de Elizabeth Marinheiro sempre se pautou, na esteira dos postulados preconizados por Eduardo Portella, por uma hermenêutica recriativa, poética em seu cerne, e plural em seus descentrados direcionamentos epistemológicos.

A valiosa coleção de livros que Elizabeth Marinheiro já escreveu e publicou, sendo alguns dos quais premiados nacionalmente, atesta esse ajuizamento crítico e essa inquestionável competência no trato com a fenomenologia literária. Nessa direção marcada por permanentes processos de atualização teórica, Elizabeth Marinheiro, de algum tempo a esta parte, vem acolhendo, em seus pronunciamentos críticos, pressupostos da chamada crítica cultural, a que, para além dos intrínsecos componentes da literariedade, coração indesviável da crítica estética, tem-se apropriado do texto em sua feição mais eminentemente cultural, como fraturada expressão de vozes prodigamente silenciadas no curso da história.

Em “Gêneros de Discurso e Rentabilidade Culturalista”, um dos ensaios presentes no novo livro de Elizabeth Marinheiro: Crítica sem G.P.S – Estudos e Memórias, a autora afirma que “Quando o artífice divino foi substituído pelo artesão, as teorias literárias mergulharam nas incertezas dos conceitos e definições. Travou-se uma guerra civil entre a autocompletude da literatura e a sua própria permeabilidade aos sintomas culturais paralelos. A desconfiança diante das ideias de profundidade e transcendência acelerou a produção de narrativas especiais, que consolidaram as contaminações e inviabilizaram a demonstração de fronteiras entre o domínio rigorosamente estético e outros domínios”.

Reside aqui, talvez, O Vaivém dos Discursos ou de Nobres e Plebeus, emblemático título de um dos livros anteriores da professora Elizabeth Marinheiro, no qual, mais ostensivamente, a ilustre professora campinense incorpora ao seu paideuma crítico, os novos paradigmas teóricos emanados da hermenêutica culturalista ou quem sabe resida aqui a ontologia íntima de uma crítica que, assumidamente, se pretende desprovida de G.P.S. G.P.S, que é um sinalizador preciso, sinônimo antecipado de localização segura e inabalável de qualquer geografia.

Sem lugar fixo e “mantendo simpatias pelo solto, contingente e inacabado”, a crítica postulada pela mestra campinense em seu novo livro ziguezagueia pelos mais variados textos, acolhendo tanto autores que já desfrutam de cadeira cativa na República das Letras nacionais quanto os que ainda estão dando os primeiros passos na fascinante seara do ato/processo da criação literária.

Independente no pensar e no dizer, Elizabeth Marinheiro não teme rebater expoências da crítica nacional, quando se percebe convencida de que certas leituras não fazem justiça à potencialidade estética dos textos sobre os quais se voltaram. É o que verificamos na fecunda releitura que Elizabeth promove da ficção de Rachel de Queiroz e, de igual modo, da que emergiu da saborosa pena de José Lins do Rêgo, por ela considerado um verdadeiro desafio teórico. Desafio esse que ela enfrentou na solene tribuna da Academia da Academia Brasileira de Letras, na qual foi consagradoramente aplaudida.

Apoiada em Lêdo Ivo, Rachel de Queiroz e Josué Montello, além de outros aportes teóricos convocados para a sua argumentação, Elizabeth Marinheiro pontua o caráter universal da obra do notável ficcionista paraibano, ao mesmo tempo em que rechaça os epítetos reduplicadores lançados pela crítica acerca da obra do criador de Fogo Morto, à luz dos quais, José Lins do Rêgo é mais memória que invenção; que ele é o eterno criador do cognominado ciclo da cana de açúcar; que a sua linguagem padece de certo desmazelo estilístico. E por aí segue a ladainha insistente, e pouco competente, daquela que Virgínius da Gama e Melo chamava, com muita propriedade, de crítica do papel carbono, repetidora do mesmo e reduplicadora do já dito.

Longe dessa crítica que se debruça precipitadamente sobre o escorregadio dorso da obra literária, Elizabeth Marinheiro, sabedora de que “no jogo da verdade a crítica é criação”, magistral apotegma do mestre Eduardo Portella, cultiva uma metodologia crítica que, distanciada do judicativismo dogmático, se pretende interpretação recriadora do texto, conduzida nas aladas e libertárias asas do discurso poético, antiburocrático e anticonvencional por excelência.

Como elemento comprobatório dessa assertiva, podemos arrolar, dentre outras, a leitura consagrada à poética metafísica de Ivan Junqueira, notadamente a que se cartografa em O outro lado, penúltimo livro de poemas do criador de Essa Música, coroamento de uma lírica que, na esteira dos postulados teóricos de Ezra Pound presentes em seu clássico livro ABC da literatura, insere-se na clave semântica da logopeia, poesia fincada no pensamento, na ingente investigação das grandes e prementes questões da existência, tais como: a morte, Deus, a irrefreável passagem do tempo, enfim, a condição humana em todos os seus sortilégios.

Lendo Moreira Campos, grande ficcionista cearense, Elizabeth Marinheiro demonstra, com invulgar tirocínio crítico, que a literatura do aludido escritor “não deslancha para o localismo pitoresco do programa nacionalista que transforma o texto em documento ou fotografia”. Valendo-se do conceito de “contrariedade móvel” postulado por Lukács em seus Ensaios sobre literatura, e de outros balizamentos teóricos colhidos em Lúcia Miguel Pereira e Carlos Reis, dentre outros, Elizabeth Marinheiro percorre as cenas e cenários do sertão ficcionalizado por Moreira Campos, dentro do qual, universalizadamente, cabe todo o (des)limite do mundo.

“Eduardos de Eduardo” cartografa o perfil do homem-emblema Eduardo Mattos Portella, emblema múltiplo e quase incontornável em seus numerosos fazeres: o Político de ação internacional. O Educador singular e inarredavelmente vinculado ao que sempre chamou de a pedagogia da qualidade, a única capaz de realmente cumprir o seu papel civilizatório de emancipar o homem e promover o desenvolvimento do solo histórico em que ele está inserido. O Professor Emérito, mestre da sala de aula, instigador da discordância, provocadora, e penalizador da concordância, preguiçosa, dizeres tão lúcidos quanto poéticos do grande ensaísta. O realizador utópico, fundador das Edições Tempo Brasileiro, que, há mais de cinquenta anos, vem fazendo do Brasil e do mundo, intransferíveis temas de um pensar livre, democrático, generoso, plural e sumamente qualificado. O crítico literário e ensaísta original e densamente poético, para quem “no jogo da verdade a crítica é criação”. Não a previsível metalinguagem das cartilhas convencionais, mas o autor de um transmodelo crítico íntimo do entre-texto, o hermeneuta aberto e solidário, pródigo no exercício da difícil arte da convivência com o outro; e, de igual modo, o esteta capaz de ouvir a voz do silêncio, que “não é a ausência de linguagem, mas o máximo de concentração da fala”.

Sem nenhum ranço de nostalgia estacionária, Elizabeth Marinheiro é uma cultivadora contumaz dos signos da memória, tanto que é autora do Projeto Memória de Campina Grande, que já rendeu inúmeros frutos em suas atiladas pesquisas. Memória transtemporal, que acolhe o ontem, o hoje e o amanhã; e recepciona o vivido como a seiva que alimenta todas as vivências humanas.

Nesse território, revisitamos a cinquentenária FACMA encantando o Rio de Janeiro, nas asas da música, da poesia e do teatro. Revisitamos a estada de Elizabeth de Marinheiro em Madri, onde realizou cursos de pós-doutoramento e escreveu o seu nome na geografia que findou se constituindo na segunda pátria de João Cabral de Melo Neto. Revisitamos as paisagens de uma Campina Grande que já não existe mais; e, cheios de saudade, perguntamo-nos: “Cadê a Rua das Boninas, cadê seu Cristino, a Fruteira, a Petrópolis e a Flórida?” Revisitamos os quintanares do notável Mário Quintana: o eterno menino de Alegrete, o poeta imenso que ensinou o Brasil “a delícia de sentir as coisas mais simples”, bandeirianamente.

Em suma: Crítica sem G.P.S – Estudos e Memórias ratifica o indeclinável compromisso de Elizabeth Marinheiro com a literatura, sua segunda alma, diria Machado de Assis. Seu infrangível pacto de convivência com a palavra em estado de estesia. Sua impressionante capacidade de ser contemporânea do seu tempo e do nosso tempo. Seu permanentemente renovado caso de amor com a literatura, morada da utopia e pátria da liberdade.

(*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

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