Fechar

logo

Fechar

Crítica e autoengano

Jobson de Paiva Sales. Publicado em 13 de fevereiro de 2019 às 9:47

Repousa diante de você a oportunidade sonhada e para a qual preparou-se com afinco. Ao apresentar formalmente seu intento recebe uma desconcertante negativa com dizeres: “a promoção desse sujeito/a representa mais riscos que o normal!”, “ele/a não está preparado/a”. Qual sua reação?

Àqueles a quem incumbe o difícil fardo de apontar-nos incapacidade circunstancial nosso sistema límbico reservará memórias tão negativas quanto indeléveis, marcantes porque registradas na mesma região cerebral atrelada à memória de longo prazo. Nunca esquecemos experiências de rechaça (seja do amante indolente, da professora intransigente, do chefe impertinente ou do pai ausente). Serão para sempre no nosso imaginário algozes de uma realidade maniqueísta onde invariavelmente somos mocinhos.

Mas a narrativa sucumbe ao escrutínio atento da realidade. Os algozes podem estar certos? Mais que isso: podemos nós, sermos os verdugos. A natureza proveu-nos com mecanismos mentais arraigados de autopreservação. Os matizes das circunstâncias fáticas têm costumeiramente suas nuances distorcidas pelo cérebro auto enganador, tudo com o intuito de nos tornarmos suportáveis aos próprios olhos. Tomemos a hipérbole contrastante para ilustrar o argumento: o carrasco nazista Reinhard Heydrich foi visto em concerto da Filarmônica de Berlim, sob condução do efusivo Wilhelm Furtwangler, em fremente pranto. Encenava-se uma das obras do Ciclo do Anel de Richard Wagner. A ópera exalta as sagas nórdicas e feitos dos personagens mitológicos germânicos, éticos, centrados, justos e bondosos. As lágrimas de Heydrich advinham das execuções sumárias de inocentes que perpetrava como representante do Reich na Boêmia ou de reconhecer-se ele próprio intendente da justiça, altivez e filantropia wagneriana? O recrudescimento da carnificina enquanto viveu e o seu engendro da solução final parecem sugerir o segundo caminho.

A assimetria entre nossas reais capacidades e aquelas requeridas pelo reconhecimento que acreditamos merecer se fomentada pelo ego indômito distorcerá a realidade em desfavor da verdade. Diante da crítica justa podemos nos encapsular em negação e cólera. Como fugir à armadilha? Bem, como você respondeu a primeira pergunta do texto?

Jack Welch, foi o real personagem daquela situação e respondeu a ela com humildade. Resignou-se momentaneamente e em sua resiliência buscou crescimento e aprimoramento para oito anos e 3 tentativas frustradas depois tornar-se em 1980 CEO da General Eletric – GE, empresa fundada por Thomas Edison, e que teve em seus anos vestibulares gênios como Nikola Tesla. Welch assumiu uma empresa com 450 mil empregados, avaliada em 14 bilhões de dólares, para 20 anos depois entrega-la com 300 mil funcionários valendo 490 bilhões de dólares, àquela altura a empresa mais valiosa do globo. Hoje vergam sua estante títulos e honorificências que fazem dele um raro espécime: unanimidade acadêmica e empírica, para muitos o maior gerente e administrador do século XX.

Vergastadas sob perspectiva histórica reputações, como a de Welch, parecem de fácil gênese: aos brilhantes a vida foi uma sucessão de contumazes sucessos, idolatria; os medíocres sempre o foram e assim permanecerão. Oblitera-se o fosso que separa estes dois continentes: o esforço e labor árduo da humildade no reconhecimento dos próprios limites somada à ação em suplantá-los.

Cada crítico do quotidiano oferta a preciosa oportunidade de revermos atos e comportamentos, um RH gracioso da existência. Talvez não existisse “Jack Welch” sem o exame rigoroso dos críticos que lhe enriqueceram a vida. Tão pouco haveria “Jack Welch” sem sua precaução em docilizar seu ego, abrandar ímpetos ancestrais e bastante humanos de repulsa a censores e com isso trilhar a perspectiva de constante aprendizado.

Não, reputações não nascem, são arduamente construídas.

Adendo:

Já aposentado, em passagem pelo Brasil, Welch concedeu notável seminário em São Paulo, lições da condução de 3 ciclos de profunda remodelação em 20 anos como CEO da GE. Simplesmente brilhante!

Chama atenção o momento que se inicia em 1h11min23seg quando poderoso e confiante retrai-se e cruza os braços em linguagem corporal pusilânime de autoproteção, quiçá fuga. Simplesmente humano! Ali era questionado sobre sua alcunha de “Neutron Jack” em alusão a bomba de nêutrons famigerada à época e que “assim como ele aniquilava a vida mas deixava os prédios de pé”, dadas as 150 mil demissões que conduziu ao longo de 20 anos.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jobson de Paiva Sales
Jobson de Paiva Sales

Mestre em Gestão de Sistemas de Seguridade Social, Madri, Espanha. Gerente Executivo do INSS em Campina Grande. Articulista. Consultor e Palestrante.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube