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Cristino Pimentel e Palmeira Guimarães, escritoras?

Josemir Camilo. Publicado em 2 de novembro de 2017.

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Peregrinador de livrarias, farejo novidades, leio, vejo a mancha tipográfica, cheiro o livro. Pego uma parte qualquer, leio ao acaso. Às vezes, leio as primeiras páginas e as últimas, para seguir o raciocínio de escritores tarimbados, ou críticos da literatura, no que diz respeito a romances. Digo, romances ingênuos, para leitores iguais, no intuito de matar a charada: romances lineares não me interessam. Nem filmes. Mas voltemos ao que provocou o título.

Leio, à página 33, do Dicionário de Escritoras Paraibanas (cujo autor faço questão de não divulgar) que uma delas se chama(va) Cristina Pimentel, cujas obras são: “Dois Poetas” e “Abrindo o Livro do Passado”. Quase peço a Academia de Letras que convoque assembleia para mudar o sexo (sexo, não, rapaz! Gênero!) do imortal Cristino Pimentel. Ainda ouvi alguns confrades. Eis o diálogo: “BG: Nos dois casos, são erros. (Nesse caso, veja se tem Águia Mendes. É homem, mas geralmente pensam que é uma mulher). Eu pergunto: Erros clamorosos ou glamorosos? E acrescento: para infelicidade do autor, a editora cometeu uma falha, falta uma página, saiu em branco. Ao que o interlocutor, RF, comenta: “Incrível quanto uma revisão é necessária!” E BG conclui: “Às vezes, conversar com escritores mais experientes faz escapar de algumas vergonhas”. E eu arremato: E o pior fica, também, para quem prefaciou a obra. Digo, quanto às trocas de gênero.

No diálogo eletrônico, acima, citam-se ‘dois casos’. Eis o outro: escritora Palmeira Guimarães (p. 111). Não posso garantir, deliberadamente, que é erro, pois minha ignorância me leva a desconhecer uma escritora com este nome artístico. Caso se trate do nosso poeta, Palmeira Guimarães, então foi outro erro. Porque se foi o autor (letrista) de O Último Pau de Arara, trata-se do campinense, José Palmeira Guimarães, a quem o vi, uma única vez, numa mesa macrobiótica, aqui, em Campina, no início dos anos 80 (se eram a mesma pessoa). As informações sobre a letra da música foram tiradas do blog de sua filha, que conta “Parte da letra foi censurada durante a ditadura, mas a poesia completa encontra-se no livro Deixe o Coração Voar, de Palmeira. A poesia foi musicada e depois gravada por vários intérpretes, como Fagner, Zé Ramalho e Gilberto Gil, por exemplo, mas muitos ainda pensam que a letra é do rei do Baião Luiz Gonzaga (…)”. Biliu, que também gravou a música, me confirmou que parte do poema de Palmeirinha fora censurada. Portanto….

O apressado Dicionário tem, também, um problema metodológico, como o de citar dezenas de nomes, sem nenhum dado comprovante de sua atuação como escritora; além da ocultação de dados, tanto de autoras regionais, como Vicentina Vital do Rego, quanto da Academia de Letras de Campina Grande. Há vários verbetes mudos (contei uns 30 destes, até a letra ‘F’ e parei). Falta completar os verbetes das acadêmicas Leônia Leão, (Josefa) Dorziat Quirino e Rosália Ribeiro, porque só há os nomes. Outras, como Miriam Asfora e Analice Caldas, por exemplo, não possuem dados; Tamar Celino tem dois registros (um, como Maria do Socorro Tamar Araújo Celino), e a poetisa famosa dos anos 30, em Campina, Iracema Marinho está como Marinheiro (algum ato falho a ver com Elizabeth Marinheiro?).

Este artigo tem, como preocupação, a intenção de (re)frear a ansiedade dos jovens em publicar, mesmo tendo que pagar altas somas e, até, no exterior. Um desses, fez publicar um romance, em que narra que uma afrodescendente (isto por volta de 1890) tinha um ‘sotaque dialético’.

Afora, gralhas. E não pensemos que só as pequenas editoras e até grandes, paraibanas, são as (ir)responsáveis por falhas gráficas. Uma, do eixo centro-sul, transportou uma narrativa de Zé Lins para um século adiante, transformando (mil oitocentos e) ‘quarenta oito’, em 1948. Tratava-se de um Chacon, combatente da Praieira.

Só uma revisão (e mais de uma!) rigorosa pode evitar a desinformação. (Quem sabe se este artigo não precisaria de uma revisão?).

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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