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Crer na graça de Deus

Pe. Luciano Guedes da Silva. Publicado em 3 de maio de 2018 às 16:28

Foto: acervo pessoal

(*) Pe. Luciano Guedes do Nascimento Silva

Ensina-nos o Catecismo da Igreja Católica que a nossa salvação vem da graça de Deus: “A graça é o favor, o socorro gratuito que Deus nos dá, a fim de respondermos ao seu chamamento para nos tornarmos os filhos de Deus, filhos adotivos, participantes da natureza divina e da vida eterna”.  (n.1996). Ao afirmar esta verdade fundamental, o cristão compreende que sua salvação depende inteiramente da iniciativa gratuita de Deus, que infundindo o Espírito de Cristo em nossa alma cura os nossos pecados e nos abre para o encontro com Ele.

Na recente Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco recordou-nos que este é um ensinamento frequentemente esquecido. Destaca o Santo Padre que a Igreja repetidamente ensinou que não somos justificados, ou seja, salvos, pelas nossas obras ou pelos esforços, mas pela graça do Senhor. Chama-nos atenção para o risco de entender a vida cristã como uma autocomplacência egocêntrica, desprovida de verdadeiro amor.

A exaltação desmedida da vontade humana e da própria capacidade pode revelar certo fascínio e obsessão pelas estruturas humanas. Dito de outra forma, seria uma tendência a acreditar mais na habilidade do homem do que no poder de Deus. Ainda ressalta o Papa que esta distorção fez com que movimentos e comunidades tantas vezes começassem com uma vida intensa no Espírito e depois acabassem fossilizados ou até corruptos. Fossilizados, porque se fecharam sobre si mesmos como se a salvação representasse uma autoconquista.  Corruptos, porque o intuito de tornarem-se proprietários do dom recebido gerou a tentação de negar as suas debilidades, sendo rígidos e impiedosos com os limites dos outros.

É necessário lembrar que a virtude do cristão é saber-se estar nas mãos de Deus, cada dia aperfeiçoado por sua generosidade. Lembremos da parábola do fariseu  e do publicano que juntos foram rezar no Templo. Conta-nos o evangelho que o primeiro deu graças a Deus exaltando os seus próprios méritos: “Eu não sou como este cobrador de impostos, nem como os ladrões, adúlteros e desonestos, faço jejum duas vezes por semana e pago o dízimo de toda a minha renda!” (Lc 18, 12)

A parábola continua descrevendo a atitude do cobrador que sequer levantava os olhos, mas batia no peito e suplicava a misericórdia divina. As muitas palavras do fariseu não são uma oração dirigida a Deus e sim um autolouvor, enquanto a humilhação do segundo manifestava o reconhecimento que somente Deus é puramente justo e fonte de toda santidade. Sabemos que no desfecho desta história, Jesus ensinou-nos que o último voltou para casa justificado, o primeiro não. Vemos um crente cumpridor de suas obrigações religiosas, mas com pouco amor e um penitente convencido de sua miséria, mas confiante na bondade de Deus.

A comunidade dos cristãos deve ser compreendida como uma escola de santidade, na qual todos os batizados revigoram-se semanalmente na força da Palavra e da Eucaristia, na forma de mesas as quais Deus carinhosamente nos preparou como alimento.  Porém, ao reconhecer que o atributo da santidade pertence exclusivamente ao Senhor, nós que formamos seu corpo, a possuímos por participação e dádiva.  Esta percepção é importante no sentido de livrar-nos da soberba, julgamento e exclusão. O coração de cada pessoa é um mistério que somente Deus pode perscrutar, sondar e redimir.

Numa sociedade tão marcada pelo “fazer” humano, na perspectiva da fé cristã, precisamos deixar aberturas em nossos esquemas mentais para a graça de Deus agir. O testemunho de nossa fé é contundente quando somos capazes de inspirar as pessoas não simplesmente por nossas práticas discursivas, mas, sobretudo pela simplicidade, acolhimento e misericórdia. A fé do cristão ilumina o mundo, quando Jesus Cristo é a medida para vermos os acontecimentos e as situações.  Sem a graça de Deus, nada podemos fazer de bom e santo. Mas, porque Ele nos amou até o fim, somos bem-aventurados, felizes, capazes de conhecê-lo e de realizarmos Sua vontade.

(*) Vigário Geral e Pároco da Catedral Diocesana de Campina Grande

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Pe. Luciano Guedes da Silva

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