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Corrupto: ser ou não ser, eis a questão

Flávio Romero. Publicado em 6 de outubro de 2018 às 18:55

Um dos temas que tem assumido posição central nas eleições 2018 é o combate à corrupção. Neste cenário, partidos de direita e de esquerda se acusam, reciprocamente, no que se refere a identificar quem tem mais contas a pagar à sociedade no que se refere aos atos ilícitos cometidos no exercício do poder ou no afã de nele se manter.

Alheios aos dados, eleitores que se opõem ao Partido dos Trabalhadores – PT seguem numa onda crescente de criminalização seletiva, associando a corrupção como ação criminosa exclusiva da citada agremiação partidária. Logo, partem do pressuposto de que retirando o PT do poder e o mantendo distante, a corrupção seria banida do país.

Apesar dessa onda antipetista, os dados referentes às acusações criminais contra parlamentares federais, em análise no STF, deixam à mostra que a associação de políticos com práticas criminosas é um fenômeno que vai além dos partidos políticos e das respectivas ideologias.

Conforme dados da Revista Congresso em Foco, dos cinco partidos com maior número de congressistas sob suspeita, dois são de direita – o PP, com 35 parlamentares, e o PR com 19, um é de esquerda – o PT, com 32 parlamentares e dois são de centro: o MDB, também com 32 parlamentares envolvidos e o PSDB, com 26. Portanto, com base nesse levantamento o PP ocupa o primeiro lugar; MDB e PT, o segundo (empatados) e o PSDB, em seguida, na quarta posição. Na quinta posição está o PR, mais distante dos demais. Logo, pelos dados apresentados, está longe de se afirmar que corrupção no Brasil é coisa de partido de esquerda ou, ainda, exclusividade do PT.

As investigações apontam que políticos de 14 legendas diferentes, de todos os campos ideológicos, do PT ao PSDB, foram investigados e denunciados pela maior operação de combate à corrupção – a Lava-jato. Além de políticos, as investigações envolveram mais de 30 grandes empresários, dentre os quais os donos das dez maiores empreiteiras do país. No escopo das investigações, há um expressivo número de lobistas, doleiros e operadores envolvidos na movimentação ilegal de dinheiro desviado da Petrobras e de outras áreas da administração pública.

Estas considerações introdutórias tentam chamar atenção sobre dois aspectos que considero preponderante: a criminalização seletiva que coloca o PT como único partido que merece realce, primeiro no que se refere propriamente à corrupção e, em seguida, em relação à tendência de votos no processo eleitoral de 2018.

Não obstante, é importante ressaltar que um dos candidatos tem se colocado como o incorruptível e defensor da moralidade e da ética no país. Todavia, sem me debruçar sobre os casos de corrupção que vieram à tona no processo eleitoral, há algo que chama especial atenção: eleitores desse candidato fazem dobradinha com candidatos a governador, a senador, a deputado federal e a deputado estadual, integrantes de partidos que estão “atolados até o pescoço” em denúncias ou investigações de corrupção etc.

Ou seja, soltam “cobras e lagartas” em relação aos políticos envolvido em corrupção, notadamente do PT, mas fazem “vistas grossas” aos corruptos de estimação, integrantes do PSDB, do PP, do MDB e do PR.

Alguns utilizam esse discurso de combate à corrupção como “cortina de fumaça”. Na realidade, optam por uma candidatura ultraconservadora, misógina, LGBTFóbica, preconceituosa e racista, por uma simples razão: afinidade política e ideológica. Neste sentido, vale a pena lembrar a frase magistral do dramaturgo alemão Bertolt Brecht que dizia: “a cadela do fascismo está sempre no cio”. Assim, por trás dessa “cortina de fumaça”, há um/a eleitor/a que alimenta essa fera, com ração intencionalmente dosada.

Na Paraíba, por exemplo, o Guia Eleitoral televisivo deixa à mostra a “cara de pau” de candidatos/as que falam, abertamente, de combate à corrupção ou que são “fichas limpas”, mas que o partido a que são vinculados, inclusive familiares ou os/as próprios/as são mais sujos do que “poleiro de pato”.

Deixando o mundo fantasioso no Guia Eleitoral e indo à realidade, penso que – enquanto a questão da corrupção for analisada à luz do partidarismo ou das paixões eleitoreiras – o país não enfrentará com clareza as questões subjacentes que se relacionam à corrupção. Enquanto a questão da corrupção dos partidos e dos políticos for o foco central, se deixará de debater a corrupção cotidiana que corrói as entranhas da sociedade numa perspectiva ética e de cidadania plena.

Causa-me espécie a defesa intransigente do candidato incorruptível e representante da moral e dos bons costumes, feita por pessoas da classe média alta, a exemplo de médicos, de empresários, de comerciantes, de juízes, de promotores, entre outros.

Na quase totalidade, o discurso em defesa do candidato do PSL se reveste de um mesmo argumento: o combate à corrupção que, fundamentalmente, reflete um ódio seletivo ao PT.

A corrupção vai muito além dos partidos e dos políticos. A corrupção vai muito além das Eleições de 2018. A corrupção carece de reflexões sobre valores éticos e morais que muitos se negam a fazer, por uma só razão: falam de combate à corrupção, mas se permitem atitudes corruptas no cotidiano:

É um médico que vende atestado ou burla o controle do PSF para cumprir horário incompatível em dois municípios;

É o empresário que suborna fiscais com o claro objetivo de não pagar os tributos devidos, integralmente;

É o comerciante que trabalha com “notas frias”;

É o Juiz que “vende sentenças” ou que decide conforme interesse político;

Enfim, é o cidadão comum que grita contra a corrupção em tempos de eleições, optando por criminalizar um partido e/ou por mitificar um candidato, quando, cotidianamente, atua com atitudes e ações corruptas. Neste caso, aplica-se a máxima popular: Quem disso usa, disso cuida.

O combate à corrupção só será efetivo com a mudança de valores e por atitudes éticas, tanto do cidadão comum quanto dos políticos e demais pessoas que ocupam posição de destaque na tessitura social. Somente uma Educação para a Cidadania Plena será capaz de trabalhar na base do problema: a formação moral, ética, cultural e educacional da nossa gente.

Não há outra saída – somente a Educação será capaz de transformar o país, Somente!

E não será excluindo Filosofia e Sociologia da estrutura curricular do Ensino Médio ou colocando um militar como gestor de cada uma das escolas da Educação Básica do país que se mudará essa realidade.

Educação para a Cidadania Plena é a única saída. A única, mesmo!

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