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Cordel e poesias

Jurani Clementino. Publicado em 25 de julho de 2018 às 9:40

Fui convidado para participar, no próximo mês de agosto, de um debate sobre a Literatura de Cordel no Departamento de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC Paulista, em Santo André, São Paulo. Trata-se de uma defesa de mestrado cujo tema é: Cordelistas – trajetórias e transformações do cordel.  Mas eu acho que quem deveria ser convidado para participar dessa discussão não era eu, era meu pai, Seu Aldo, um poeta popular de mão cheia. Digo isso porque esses dias remexendo aqui uns papéis antigos, procurando, sem sucesso, uma poesia que escrevi em 1999 para Patativa do Assaré, encontrei uns versos escritos por seu Aldo no final dos anos de 1990 e inicio dos anos dois mil. Versos esses que denotam o cuidado técnico e o rigor metodológico dele na construção de suas poesias.

Num destes versos ele faz referencia a um desafio proposto por um amigo no Mercantil de Dedé de Gilson, nas Lagoas, e reforça essa ideia de que é poeta sim:

Moro no pé da ladeira

Meu sítio é lá no Queixada

Sou do cabo da enxada

Da foice e da roçadeira

A minha vida é grosseira

E até que acho boa

Não faço uma rima à toa

Nem de noite, nem de dia

Que no mar da poesia

Sei navegar sem canoa.

Em outra poesia ele narra, de maneira engraçada, uma situação em que, ainda menino, atendendo a uma ordem do pai, foi pegar uma burra na roça e não encontrou o animal.

Quando eu cheguei em casa

Não podia nem falar

Meu pai ainda me disse

Pra parar de gaguejar,

“Ô cabra bom de uma surra

Me diga cadê a burra

Que eu mandei você pegar”.

Sua relação afetiva com o sertão e seus mistérios e encantos também ficam evidenciados nos versos de “meu pedacim do sertão” escrita em 1998.

Um galo cantando alto

As quatro da madrugada

Berra uma cabra enganchada

Numa cerca do asfalto

Um bode dar oito saltos

Na boca de um cacimbão

Uma corda e um galão

“Prumode” agua eu puxar

Mas sou feliz por morar

Num pedacim do sertão.

Portanto, esse convite para ir a essa banca, não deveria ser feito a mim. Meu pai é muito maior que eu. No entanto, entendo que eles queiram a minha presença nessa nesse momento solene por entender essas manifestações artísticas enquanto um ato político. O que eles (os poetas repentistas, cordelistas, violeiros…) querem dizer, ao construírem seus versos em São Paulo, é: “Olha, nós estamos aqui. Nós fazemos isso. O fato de não estarmos lá no nordeste não diminui nossa arte, nem nosso talento”.

Esse trabalho de dissertação também estabelece relação com a minha tese de doutorado sobre a Festa dos Varzealegrenses em São Paulo. Assim como os cordéis, a festa é uma estratégia de afirmação naquele espaço, muito mais do que um simples evento saudosista. Trata-se de uma experiência política. É lá, no espaço da festa que o varzealegrense se afirma como migrante, como “o de fora”, o que não pertence ao lugar, embora deseje ser reconhecido pelo seu valor e pela sua importância. Quando fazemos poesia o que nós queremos é gritar algo para o mundo. Desejamos emitir um grito de protesto. E no fundo no fundo queremos ser ouvidos.

Campina Grande – 24 de julho de 2018

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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