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Contar para Viver

Josemir Camilo. Publicado em 7 de setembro de 2016 às 9:43

Foto: Paraibaonline

* Por Josemir Camilo

Amiga, acabei ontem o livro Gabriel Garcia Márquez “Viver para contar”. Eu não o encontrava em Livrarias e um amigo, admirador do escritor, me emprestou seu exemplar. Se era o eu esperava? Confesso que sim e até mais. Quase que eu dizia um título de Neruda, “Confesso que Vivi”. É uma auto biografia que você lê como romance, o de Gabo. O cabra é bom. Até a própria biografia já conduziu como a um romance, com um fecho simples e bom, deixando o leitor esperando mais. E, aí, me lembrei que você esteve na Colômbia, não foi? Se é ambientado lá? Lá chove muito, não é?

Pelo menos pelo desencanto do escritor, até então, jornalista iniciante, a cidade de Bogotá era fria e chuvosa a maior parte do tempo. Ele a detesta, me parece. Prefere sua terra, Aracataca, e o litoral caribenho, Barranquilla e Cartagena. Mas ele rodou muito seu país. Pela leitura, o leitor fica sabendo que ele não começou como romancista e sim como jornalista, daqueles tempos em que jornalismo se aprendia no jornal. Mas foi sua vasta cultura de vivências e sua ‘larga’ família de 15 irmãos (sendo 11 dos seus pais e quatro meios-irmãos) que lhe foram formatando o escritor futuro. Além das andanças da família, cujo pai assentava sua farmácia, de tempos em tempos, em cidades variadas, a tropa ia com o patriarca e ele sempre fazendo mais um.

 O livro começa com a visita de sua mãe ao jornalista para irem, ambos, vender a velha casa de Aracataca (aqui, um parêntese: às vezes erro o nome da cidade, porque na Goiana da minha infância havia um lugar, ainda está lá, chamado ‘a ladeira de Arataca’, de onde também tomei conhecimento de algumas peculiaridades). Na viagem que faz com a mãe, a faz também na memória que é o desenrolar de sua biografia.

Engraçado, é que nunca se formou; abandonou Direito, pela vida boêmia, da qual “Memória de Minhas Putas Tristes”, pode ser o relato de uma agitada juventude, cuja companhia era apenas de duas camisas e a mesma calça, durante toda sua trajetória de ‘foca’, e jornalista acabado. Gostei do livro do Gabo e não sei como ele conseguiu viver tanto, 87 anos, fumante inveterado e com uma vida de muitas ‘putas’ pela vida, até parar em sua Mercedes, já quase trintão. O bicho era muito doido, equiparando-se, aqui, linguagem e vida. Tocador de tiple, um violão típico da Colômbia, amante da música popular e dos tocadores de sanfona, Gabo vivia sempre em festa, e sempre liso. Escrevia, nos jornais, o que vivia, ou o que intuía da vida do momento. E foi assim que começou a escrever seus contos (influenciado por leitura que fizera de Kafka – ver seu livro “Olhos de Cão Azul”) e a produzir suas crônicas, às vezes, em dois jornais, simultaneamente, fazendo editoriais e até se metendo à crítico de futebol e de cinema (nesta última, aqui, me vi um pouco). Sempre com baixo salário.

Aproveito, amiga Érika, para lhe contar da grande semelhança entre este livro de Garcia Márquez e “Istambul”, de Orhan Pamuk, de como os dois fizeram memória e biografia, história de seus países e nos brindaram com a arte de escrever romances. Estilos diferentes, realidades também, mesmo porque são dois universos pessoais bem discrepantes, um o boêmio desbragado, o outro, quase como um dândi, flâneur, mas, ambos com certo namoro com uma esquerda. No todo, um panorama do século XX nas pinceladas de cada autor, e principalmente de Pamuk, que era pintor.

Quando se lê este livro de Gabo, ou Gabito, intimidades lá deles, no trabalho, fica-se com a sensação de que a Colômbia é um Estado de história violenta. O autor cita cifras de 300 mil mortos. Ele mesmo foi testemunha de massacres no centro de Bogotá; também fez cobertura de um combate entre exército e guerrilha. E a gente fica pensando como outras repúblicas, riram de um Brasil Império. Nossa única guerra interna foi republicana, Canudos, mas sem esquecer às repressões ao povo negro aquilombado e repressões outras, como Contestado, Caldeirão. “Nuestra hermana” chorou, desde a Independência republicana (1811-19), centenas de milhares de mortos em guerras, entre, eternamente, liberais e conservadores. Golpes, predomínio de partido no poder através da violência armada, expulsão de camponeses de suas terras, assassinato de líderes liberais e a mais longa guerrilha da América, tudo isto o jornalista vai anotando e o escritor expõe com facilidade para mostrar porque ele escolhera viver fora da Colômbia. Até seu avô, que veio de uma guerra de Mil Dias, e viveu numa época em que honra se reparava no duelo, matou um adversário. A Colômbia, portanto, que ele ama é a do Caribe, da costa, das festas, da bebida, da gente simples, dos trabalhadores e não da aristocrática, fria, chuvosa e conservadora capital bogotana. Um país complexo, andino, duplo litorâneo (Pacífico e Caribenho) e amazônico.

Em suas experiências de repórter, foi fazer cobertura de um departamento que iria ser dividido e seus habitantes protestaram. Pelo nome, Chocó, me lembro do filme de Jhonny Hendrix Hinestroza, sobre uma comunidade negra e mineira, recentemente exibido no Brasil. Era dessas aventuras que tirava o espírito do romance, principalmente dirigido e digerido, longe da realidade, fosse em Paris, México City ou Cuba.

O escritor nos passa uma lição simples, já que estou te contando isto pra ver se dar pra escrever um artigo, não sobre as ‘putas tristes’, ou sobre o náufrago, mas, talvez, uma resenha. Identifiquei me, um pouco com ele, com esse negócio de escrever crônicas semanais. Notei como ele andava à procura de um tema e como este surgia. Era como fazia para minha coluna “Povo”, no suplemento do Jornal da Paraíba. Creio, amiga, que daria um livro. E até para outras propostas é que fui ler Gabo, porque é um tipo de memória e autobiografia, mas com ficção. Mais não posso dizer, pois como ele se deu conta, resolveu parar de falar em seus romances que andava escrevendo, porque terminava não saindo. Creio que, às vezes, amiga, também funciona ao contrário, o escrevinhador começa a contar para um(a) leitor(a) e vai botando no papel tudo o que diz. Sim, é interessante essa forma de escrever como uma conversa, ou usar a conversa para lembrar-se de escrever.  Não há caminho. Embora.

Outra lição que a gente aprende de sua prática jornalística é o livro “Relato do Náufrago”, que, praticamente, não é só dele. Foi uma entrevista com um oficial da marinha e a coisa foi parar na justiça. A gente de História até pensa em História Oral, em que o narrador também é autor. Mas, no caso do jornalista que escreveu todo o depoimento do oficial da marinha e publicou, posteriormente, ao jornal, como uma novela sua, mesmo dando todos os direitos autorais da primeira edição ao ‘náufrago’, a coisa foi parar na justiça. Gabo ganhou a causa (o que nos parece estranho), mas deu a renda para uma entidade filantrópica.

O escritor também nos põe a par do mundo fantástico (‘La Sierpe’) de que tomara conhecimento, à época, sobre o que propôs, ao jornal, uma reportagem, nunca realizada, pois, na certa lhe deu subsídios para o seu realismo fantástico, quando escreveu Cem Anos de Solidão, já morando no México. Mas nem sempre de sucesso viveu o homem Gabo. Seu primeiro romance, “La Hojarasca” (A Revoada. O Enterro do Diabo) foi rejeitado por um grande editor argentino. Quase ao mesmo tempo, um conto seu foi premiado na Colômbia e uma versão castelhana (de Madri, mesmo) de outro texto foi tão alterada na linguagem, que ele suspendeu a edição, jogou na fogueira e fez outra, em linguagem caribenha, publicando, no México. Diatribes de um grande ogro e de uma língua que se rende, ou se revolta, à Real Academia Espanhola.

Infelizmente o livro para em sua saída da Colômbia para Paris. Não tem a parte de Cuba nem a do México. É bom frisar que este livro completa “Cheiro de Goiaba”, a primorosa entrevista dada ao compadre Plínio Apuleyo de Mendoza. Ironicamente, a autoria do livro é atribuída ao entrevistado e não ao entrevistador. Contrário de “Relato de um Náufrago”.

Se “Viver para Contar” deixa uma lacuna, é porque, talvez ele estivesse pensando num 2º volume. Confesso que fiquei com saudade. Contava para viver.

*Professor

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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