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Consolai o Meu Povo

Padre José Assis Pereira. Publicado em 9 de dezembro de 2017 às 12:28

Por Padre José Assis

Neste segundo Domingo do Advento, o Profeta-poeta da esperança Isaías (cf. Is 40, 1-5.9-11) no chamado “Livro da Consolação”, nos pede:  “Consolai o meu povo, consolai-o… Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que sua servidão acabou e a expiação de suas culpas foi cumprida…” (vv. 1-2)

Este há de ser hoje, me parece, o tom de nossa pregação. Uma palavra ardente, restauradora, compassiva, dirigida “ao coração”, aconselha-nos Isaías. Os motivos desta consolação são, aclara ele mesmo, que Deus nos perdoou e pagou a nossa culpa. Este tom, que proponho para nossa pregação, é muito oportuno para este Advento 2017.

Atualmente, são muitos os rostos desconsolados. Para constatá-los só é preciso caminhar com olhos bem abertos em meio à multidão que nos rodeia. Os desconsolados têm nomes, os desconsolos têm causas e densidades diferentes: suportar dia a dia o dissabor de uma vida sem sentido; não poder garantir o mais elementar para viver sobriamente; conviver com um corpo ou uma mente enfermos sem remédio; sofrer com o aparente silêncio ou indiferença de Deus…

O Advento não é um tempo ficar lamentando-se, sem consolo. O Evangelho de São Marcos (cf. Mc 1,1-8) retoma o Profeta Isaías e reforça o significado do mensageiro da boa nova, do preparador de caminhos, da voz no deserto, tendo como modelo privilegiado e paradigma a figura de João o Batista: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto.” (vv. 2-3)

Os profetas Isaías e João Batista nos chamam a trabalhar, a empreender uma obra de reconstrução: “Grita uma voz: Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas, endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas” (Is 40,3-4)… Toda uma obra de engenharia para a manifestação da glória do Senhor.

Não resta nenhuma duvida de que o mundo necessita ser reconstruído para que apareçam “novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça” (cf. 2Pd 3,8-14). Para que do caos informe surja um belo cosmos. O mundo está demasiado rachado, a fenda que se abriu entre ricos e pobres se ampliou enormemente, os excluídos seguem permanecendo à margem, a criação grita com dores de parto por estar submetida ao desperdício e ao desequilíbrio. E a comunidade humana está maltratada pela rivalidade, o egoísmo, a tirania e a corrupção moral e ética do poder. Temos de colaborar com o Criador na reconstrução do mundo.

No entanto, os problemas de cada dia nos mantém calados, apáticos. Calamos quando percebemos a dor ou a situação dramática de muitos irmãos. Calamos ao ver-nos rodeados e ameaçados pelo sofrimento. Como se o fazer ruído abrisse ainda mais a ferida e nos tornasse especialmente vulneráveis. Israel viveu no silêncio muitos anos de injustiça, da mesma forma que segue aguentando hoje as pessoas e os povos. Como se não passasse nada e a amargura se fosse enraizando mais… Por isso o profeta da consolação diz: “Sobe a um alto monte, tu que trazes a boa nova a Sião; levanta com força a tua voz, tu, que trazes a boa nova a Jerusalém, ergue a voz, não temas…” (Is 40,9)

Subir a um alto monte não é ausentar-se covardemente do mundo ou afastarem-se como peregrinos que caminham sozinhos seus destinos; subir a um alto monte é tratar de ver melhor, com maior precisão e perspectiva; é encontrar a torre de vigia de onde a mensagem pode ser melhor escutada e “gritar”, “em alta voz”, “gritar no deserto” é o timbre da voz profética, da voz do Advento.

Grita! É a ordem de Deus a seus profetas de sempre: “ergue a voz, não temas”. A Palavra de Deus, pronunciada por seus mensageiros, é toda uma provocação à dor e a quem a produz. Gritar é, para muitos, o primeiro passo para abandonar a angustia, o salto para o novo que começa. O grito desenha caminhos novos, empurra para dentro, contagia entusiasmo com os outros, cria comunidade quando é compartilhado e afinado no mesmo tom…

Neste Advento nosso Deus nos segue provocando com esse convite. Mas não vale a pena qualquer grito. Horroriza-nos o grito que impõe, que ordena e anula; o grito que desumaniza nas vozes dos poderosos, opressores e fortes, dos senhores da guerra ou da violência mais próxima. Levantar a voz, com outros e por outros, é dar à vida uma nova oportunidade, é desafiar o presente, inventar e construir um novo caminho no meio daquilo que nos paralisa.

Trata-se de gritar: “consolai!” Frente a esses muros cinzentos que nos habitam interiormente, de rotinas e feridas que não curam, de amarguras que armazenamos, de passos proibidos ou ameaças que assustam. Frente uma situação social de injustiça arraigada por séculos, de barcos que afundam em silêncio e vozes que são sempre caladas… “Consolai”, e fazei-o em nome de um Deus Amor que tem resposta a tanta amargura, saída de todo o mal que rodeia e afoga a vida humana.

Trata-se de gritar que há caminhos. Que se podem estrear caminhos melhores, novos, ainda não transitados. E que a fé os faz possíveis e reais. Caminhos em nossos becos sem saída, donde parece impossível dar um passo. Caminhos de paz e reconciliação, de fraternidade e humanidade. E não são fantasias, ou sonhos, ou utopias: é promessa de Deus que já o fez antes e o quer repetir. Porque tem em suas mãos “um novo céu e uma nova terra em que habita a justiça”, se deixarmos…

Trata-se de gritar que o Evangelho de Jesus segue sendo boa notícia, “evangelho” puro, para este mundo, para todas as pessoas. A experiência de fé não é algo caduco e esgotado, mas sim uma experiência por viver e estrear, que tem força para fazer feliz o ser humano de todos os tempos. Sempre há um “João Batista” que nos convida a virar a página, a sair de práticas sem vida, do deserto do cumprimento formal ou do vazio, e a deixar-nos levar por Aquele que traz Espírito, força… Aquele que grita no nosso interior e nos convida a escrever com Ele um evangelho vivo.

Preparemos o Natal para os desconsolados. Isso só o sabem fazer quem crê no nascimento da Palavra Feita carne, porque o Natal sem o nascimento de Jesus seria uma contradição que agravaria mais ainda o desalento dos desconsolados.

O único Natal que consola é o verdadeiro. Esse que os profetas indicam gritando “eis o vosso Deus” e mostram o Menino recém-nascido em Belém que hoje pode ser o coração que perdoa, o lugar onde a violência dá lugar à paz, ou onde os afastados se abraçam. É Deus que a todos nos abraça em seu Filho. Restam poucos dias para preparar este Natal que em verdade consola.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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