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Campina Grande - PB

Como tratar (mal) o diabético

14/11/2017 às 12:52

Fonte: Da Redação

Por Alberto Ramos (*)

PRÓLOGO

A Associação Médica de Campina Grande (carinhosamente chamada por mim de SMCG) tem um veículo de comunicação (ora jornal ora revista) que apesar de sempre ter tido dificuldades (principalmente financeiras) até o presente mantinha intacta sua dignidade.

Mesmo durante os anos de chumbo, a liberdade de expressão dos articulistas foi assegurada. Com o advento da redemocratização ficou mais fácil expor ideias e nunca nos abstivemos de opinar sobre os rumos que a saúde (principalmente da cidade e do estado) tomava.

Não nos omitimos mesmo que eventualmente desagradássemos alguns poderosos. Sempre achei e acho que a saúde estava acima de tudo.

Durante estas décadas tenho escrito dezenas de artigos. Alguns elogiando, outros criticando ou sugerindo mudanças. Nunca fui censurado.

Há cerca de dois meses fui procurado pelo atual presidente da SMCG solicitando um artigo para o número que seria publicado em comemoração ao dia do médico (18/10).

Apesar de assoberbado de trabalho acedi e escrevi um artigo sobre o atendimento ao paciente com diabetes no município de Campina Grande.

O artigo foi aceito e eu esperei a revista ser publicada.

Para minha surpresa, na revista não constava meu artigo!

Como não consegui falar com o presidente censor, procurei saber o motivo da exclusão. No entanto os funcionários apenas me informaram que tinham recebido ordens.

Fiquei a me perguntar o motivo e inicialmente não atinei em nada. Apesar de não ser uma joia da literatura brasileira, o artigo não estava de todo mal.

Depois de muito matutar cheguei a duas hipóteses diagnósticas:

  1. Paranoia – ouvi dizer que o indigitado censor é uma daquelas figuras que sonham com comunistas comendo criancinhas, que procura comunistas em baixo da cama antes de dormir, que admira Bolsonaro e os picaretas do MBL e que, como eles, acha que FHC e o Papa Francisco são perigosos agentes do comunismo internacional. Como, para reforçar meus argumentos em coloquei alguns dados em que, por conta das características do seu sistema de saúde, Cuba é superior ao Brasil e aos EUA, ele teria surtado e detonado minha matéria.
  2. Sabujice – o citado censor é conhecido pela sua imensa submissão aos poderosos. Daquele tipo que pisa nos subordinados e lambe as botas dos superiores hierárquicos. Como eu estava criticando uma entidade para ele poderosa (a Secretaria de Saúde de Campina Grande) o indigitado teria vetado a matéria. Além disso, segundo eu soube, a citada secretaria teria contribuído com a SMCG (parece que com 30 dinheiros). Por conta disto, o censor teria achado que todos os artigos teriam que ser laudatórios.

Não sei o diagnóstico é correto, mas Si non è vero è ben trovato. Ambos são possíveis. Talvez os dois.

Em tempo, o nome do censor é Evaldo (não sei de que).

Dito isto, vamos ao artigo:

COMO TRATAR (MAL) O DIABÉTICO

Desde a década de 90 que temos evidências robustas que estabeleceram o conceito para o tratamento do diabetes.

Dois estudos foram paradigmáticos. O DCCT (Diabetes Control and Complications Trial)1 e o UKPDS (United Kingdon Prospective Diabetes Study)2 mostraram que o controle estrito do diabetes previne complicações. Neles, foi demonstrado que cada 1% de diminuição da HbA1c, reduziu de forma significativa todas as complicações decorrentes do diabetes como por exemplo cegueira, necessidade de diálise, infarto agudo do miocárdio (esse no longo prazo).

Em tempo. HbA1c refere-se a um tipo de hemoglobina que nos fornece a informação sobre a qualidade do controle do diabetes nos últimos 3 meses. Em adolescentes e adultos jovens deve ser no máximo 7%, na grávida 6,5% e no idoso de 7,5 a 8%.

Se esses objetivos não forem alcançados as complicações são significativamente mais frequentes.

E as complicações do diabetes são cruéis.

Aparecem silenciosamente e impactam fortemente a qualidade de vida das pessoas até matá-las.

Prevenir as mortes e o sofrimento é obrigação de nós profissionais da saúde e também dos gestores.

Alguns podem pensar: “Isso é muito bonito e tocante. No entanto nós que pagamos  impostos achamos que não se pode gastar tanto dinheiro com os diabéticos.”

Aí é que mora o engano. Indesculpável até para um leigo.

Denota impiedade.

Para um gestor é duplamente imperdoável pois denota também incompetência.

Cada real “economizado” no tratamento da pessoa com diabetes acarreta um custo 52% mais alto com o tratamento das complicações. Um estudo multicêntrico brasileiro do qual participamos, publicado no periódico Value Health, mostrou que o tratamento de um diabético no Brasil custa em média R$ 6.576,96 quando não tem complicações e R$ 9.980,88 quando as complicações existem3.

Ou seja, esses gestores que pensam estar economizando ao causar tanta dor e sofrimento, na verdade estão gastando (muito mal) o dinheiro do contribuinte.

E essa mentalidade retrógrada, errada e desumana é o que temos visto na maioria das cidades que nos cercam e especificamente em Campina Grande. Isso acontece desde que o secretario de saúde da cidade foi André Luiz em 1999.

Desde que ele deixou o cargo, todos os secretários, por omissão ou por intenção têm sido extremamente incompetentes no tratamento dos pacientes com doenças crônicas.

No caso específico do diabetes falham ao não treinar as equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBS), falham em deixar estas equipes incompletas, em não disponibilizar exames e medicamentos, em não otimizar o fluxo com os serviços de maior complexidade, em não disponibilizar tratamento de maior complexidade para os que já têm complicações, etc.

Sobre este último item sugiro a leitura de um artigo meu intitulado Pedaço de mim, publicado no site Paraíbaonline (www.paraibaonline.com.br)4.

Criminosamente, as pessoas com acometimento arterial de membros inferiores, que são extremamente predispostos a sofrerem amputações, estão sendo deixados à míngua pelos Secretários de Saúde de Campina Grande e de outras cidades do nosso entorno, sofrendo amputações evitáveis.

É um descaso criminoso com a dor alheia.

E enquanto isso, compram e alugam hospitais de empresários ou grupos da área da saúde incompetentes, revertendo a lógica básica da saúde pública que é investir mais na rede básica para gastar menos com a rede terciária.

Até o reino mineral sabe que dinheiro aplicado na prevenção e nos cuidados básicos não é gasto, é investimento.

No entanto, conversando um dia destes com uma assessora da secretaria ela me disse que “não acreditava nisso”.

Fiquei pasmo!

É essa a qualidade dos nossos técnicos?

Como diria minha avó, estamos arrumados.

Como parece que tem muita gente que não acredita, resolvi demonstrar esta assertiva com um exemplo.

Usando dois indicativos importantes da qualidade do serviço de saúde, mortalidade infantil e expectativa de vida, fica claro a importância do investimento na rede básica para a melhoria destes índices.

Um país extremamente pobre, pode ostentar índices melhores do que a nação mais rica do mundo. Vide quadros 1 e 2.

19902016
Brasil6116
Canadá85
Cuba136
EUA117

Quadro 1 – mortalidade antes dos 5 anos/1.000 nascidos vivos5.

Brasil75
Canadá82
Cuba80
EUA79

 Quadro 2 – Expectativa de vida ao nascer5.

O Brasil, nestes 26 anos melhorou demais. A queda da mortalidade infantil foi impressionante e corresponde quase que exatamente à criação do Programa de Saúde da Família além da melhoria de vida que aconteceu neste período.

Lembro que em 1990 estávamos recém-saídos da ditadura e que a criação do SUS na Constituição de 1988 ainda era embrionária.

Campina Grande tinha mais leitos hospitalares por habitantes que a Suíça e praticamente nenhuma rede básica. Em alguns bairros mais pobres (por exemplo o Mutirão) a mortalidade infantil era comparável aos países mais pobres da África.

Apesar de tal provas, parece que os nossos gestores ainda não aprenderam.

Urge mudanças!

BIBLIOGRAFIA

  1. The Diabetes Control and Complications Trial Research Group. The effect of intensive treatment of diabetes on the development and progression of long-term complications in insulin-dependent diabetes mellitus. N Engl J Med. 1993; 329:977-86.
  2. Gray et al. Cost effectiveness of a intensive blood glucose control policy in patients with type 2 diabetes. Economic analysis alongside randomized controlled trial (UKPDS 41). BMJ. 2000; 320: 1373-1378.
  3. Bahia LR, Dib AS, Foss MC, Ramos AJS, Sartorelli D et al. The Costs of Type 2 Diabetes Mellitus Outpatient Care in the Brazilian Public Health System. Value in Health. 2011; 14:S137-S140.
  4. Ramos AJS. Pedaço de mim. Disponível em paraibaonline.com.br
  5. The State of World’s Children 2016. Disponível em https://www.unicef.org/sowc2016/.

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