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Josemir Camilo: O rebelde de paletó

Josemir Camilo. Publicado em 22 de agosto de 2021 às 19:05

Não se enquadrava, não tinha jeito, Zé Carneiro não se enquadrava. É o que vivia dizendo o velho sitiante e proprietário de terrenos na cidade, seu pai. Até o ginásio, tudo ia bem; o rapaz era o xodó da família. Meninas direitinhas andavam atrás dele para namorar e algumas conseguiam.

Parece que o erro foi mandá-lo estudar o curso científico na capital. O primeiro susto veio nas férias de São João, o filho todo com barba rala por fazer e o cabelo comprido. Muita bronca.

E parece que virou rotina. Todas as férias eram de briga em casa, no interior. “Se enquadre, rapaz!”, era o que o velho vivia dizendo. Como já não podia lhe dar uma boa surra, dava esta ordem militar, que aprendera quando vestia a farda da polícia. O filho voltava cada vez mais rebelde, mas um rebelde mais de aparência do que de gestos, se não fosse a barba comunista e o cabelo de maconheiro, como o pai deixava soltar em suas críticas.

Deixou de ir passar fim de ano no interior, começou a tocar violão e namorada era “às tuias”, como se dizia lá para o interior. Foi fazer engenharia e conheceu o movimento estudantil mais quente, embora não tenha se engajado. Eram as mulheres que faziam o movimento que lhe atraíam e terminavam por fazer dele um panfletário, um leitor de Che Guevara e até de Marx.

Seu maior problema ao criticar a burguesia era pensar no pai que tinha várias casas alugadas, sítio e alguma criação. Não sabia se criticava o velho ou o defendesse como ‘camponês’, o que soava bem na esquerda festiva.

Na sua formatura, o pai fez questão de engolir sapo, deixando que ele voltasse a visitar a família. Também o velho já dava sinais da doença, que nem ele mesmo percebia. Mas exigia uma condição: que o filho se formasse de beca e baile.

Exatamente o que o filho tinha pensado em não fazer. E o velho, para mostrar que estava falando sério, abriu um crédito para ele comprar um terno numa loja da capital. Foi a meiga namorada que o fez considerar o pai. Foi, comprou, mas escolheu um espalhafatoso paletó de fundo creme, com listas amarelas e azuis, digna de um executivo americano aloprado, ou de baiano tropicalista.

O pai só aguentou ver a formatura porque a bata cobria o apapagaiado paletó. Depois disto, o pai piorou da saúde e o filho começou a visitar o interior mais vezes. Até que um dia, deu-se o contrário, seria o filho que teria de receber o pai, na capital, que o caso era grave. Trouxe a família e alojou no quitinete, onde morava com a atual namorada.

Mas não durou muito, o velho piorou e morreu. Ele se arrependeu muito do que fez contra o velho, vendo que o movimento estudantil tinha se acabado e que alguns daqueles amigos já ocupavam cargos executivos do mesmo governo que eles tinham criticado. Mas, o mais constrangedor foi quando sua mãe tendo de vestir o cadáver do velho e não tendo roupa digna, se valeu exatamente do paletó do filho, alegando que debaixo das flores ninguém ia notar a papagaiada.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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