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Coluna José Mário: Poemas menos, amores demais

José Mário. Publicado em 21 de março de 2019 às 17:23

Ronaldo José da Cunha Lima ou simplesmente Ronaldo Cunha Lima ou mais simplesmente ainda, Ronaldo, o poeta, é código onomástico que nos impõe respeito e evoca signos cuja grandeza transpôs as lindes espaciais mais demarcadas da geografia paraibana e ganhou estatuto de consagração nacional nos territórios do direito, da política e da literatura.

Divergências à parte, legítimas e normatizadoras da vida democrática, tecida e destecida pelos fios do dissenso e do conflito, o fato concreto é que o itinerário de Ronaldo Cunha Lima foi cercado de brilho em todas as suas dimensões constitutivas: a jurídica, a política e a estética, essa última, notadamente, ligada à permanente convivência com a poesia, gênero transfigurativo do real, com o qual ele caminhou ao longo de toda a sua existência terrena, numa indesmentível demonstração de ser a poesia, em seu ser/fazer, não uma atividade de exceção, mas, sim, uma práxis ancorada no porto de uma efetiva e irresistível vocação.

Vocação essa a que o criador de Poemas de sala e quarto soube responder com infrangível devotamento, traduzido por uma série de livros nuclearizados pela palavra luminosa e libertária da poesia. A travessia poética de Ronaldo Cunha Lima exibe, em seu continuado fluxo histórico, uma admirável transição qualitativa, que rumou de uma espécie de poesia ditada pelo jogo mais pragmático das circunstâncias até as searas mais construtivistas de um verso vigoroso, lapidado, prenhe de literariedade, consorciador dos estratos melopeico, fanopeico e logopeico, tal como preconizado por Ezra Pound em seu clássico livro ABC da Literatura.

Poemas Amenos, Amores Demais, em sua própria estruturação interna, é um emblemático exemplo dessa conceitual realidade. Principia o livro na ambiguidade lúdica que preside os elementos constantes no título. Amenos vs. demais ora sinaliza, refiro-me ao par dicotômico presente no título, para uma dimensão meramente quantitativa, ora para a leveza de amores que o poeta foi vivenciando, realística ou imaginariamente, em sua passional existência, hegemonizada pela fundante experiência amorosa.

A primeira parte do livro: Abecedário Imaginário reúne uma série de mini-poemas dedicados, ou melhor, inspirados em um vasto código onomástico feminino, a partir do qual o poeta, ludicamente, brinca com a realidade amorosa. Aqui o amor é sinônimo de encontro/desencontro; encanto/desencanto; alegria/tristeza; permanência/provisoriedade; certeza/incerteza, dentre outros tantos pares opositivos e inconciliáveis que imanentizam a inconceituável experiência amorosa, obsessivamente tematizada pelos poetas ao longo dos tempos.

Na segunda parte do livro intitulada O Amor Eclético, Ronaldo Cunha Lima canta o amor em todas as suas vastas possibilidades de manifestação. Aqui, mais que o outro com quem se interage no estabelecimento das teias e tramas do amor, o ser amado é o próprio amor, que se personifica e autonomiza, sendo encarado como fonte primeva e indesviável de plenificação humana.

Na terceira parte do livro intitulada Os tercetos, conquanto o amor ainda se configure como sema isotópico dominante, outros temários infiltram-se pelas frestas de uma territorialidade lírica timbrada pela égide da subjetividade posta em cena.

A ânsia por liberdade (Grito); o cultivo do silêncio (Fecundação do Silêncio); a consciência, não raro dolorida, da irrefreável passagem do tempo; a dicção metalinguística, que entrevê no ato/processo da criação literária uma fonte de libertação interior (Terapia); o sotaque erótico (A Blusa); o viés confessional (Meu Diário). E por aí segue o percurso multifacetado de um eu-lírico que faz do amor ponto de partida e de chegada de todos os seus horizontes existenciais.

Na quarta e quinta partes do livro, As trovas e poemas e poemetos, respectivamente, alternam uma dicção minimalista com outra mais espraiada, ambas focadas no leitmotiv do amor, senha privilegiada e irrasurável da identidade lírica do criador de As flores na janela sem ninguém. O ponto alto do livro radica em sua sexta e última parte, esculpida por sonetos primorosos, nos quais Ronaldo Cunha Lima revela uma exuberante perícia na técnica composicional do soneto, fôrma poética irritantemente combatida pelos iconoclastas modernistas de 1922, mas que, alheia à estridente campanha que contra ela foi movida, nunca deixou de estar presente na criação poética de grandes artistas do verso, do ontem, do agora e de sempre.

Hegemonicamente decassilábicos, com alternância entre sáficos e heroicos, os versos entabulados por Ronaldo Cunha Lima revelam-nos um exímio artesão da linguagem. Conforme o acertado juízo crítico expendido pelo notável ensaísta campinense Ricardo Soares, “Ronaldo Cunha Lima arruma palavras e arruma as palavras”, na medida em que estabelece com cada uma delas um conúbio admiravelmente harmonizado, no qual a seleção vocabular ancora-se no porto da exatidão formal própria de uma emoção que raciocina e de um pensamento que se emociona.

Infenso às asfixias periodológicas, os sonetos construídos por Ronaldo Cunha Lima consorciam o formalismo parnasiano com a perspectiva neorromântica, desembocando, aqui/acolá, em territorialidades semânticas tingidas pela mundividência simbolista, tudo bem urdido e correlacionado, temperado por uma subjetividade que olha a realidade de maneira ostensivamente ensimesmada.

Vinculado, assumidamente, à retórica romântica, aquela que segundo o crítico Anazildo Vasconcelos evidencia-se num processo de recriação da realidade fundamentado numa dinâmica do sujeito, Ronaldo Cunha Lima, ao revisitar o predominante temário do amor, modula tons e atitudes, na ratificação de uma poética visceralmente lírica e existencial.

“Grilhões” e “O Amanhã” rememoram a atmosfera simbolista, na medida em que põem em cena eus aprisionados e, ao mesmo tempo, anelantes por uma espécie de cósmica libertação interior. “Fortaleza Interior” lembra-nos clivados sonetos de Bocage, transidos entre a ordem racional neoclássica e a desordem antirracional engendrada pelos românticos..

“Dualidade” sugere, a partir do título, a corrosiva cisão interior de que padece o eu-lírico poemático, e que é, no final das contas, apanágio indissociável de todos os seres humanos, sem exceção e sem distinção, abrigo das mais inconciliáveis paixões.

Vale ainda se registrar, no âmbito da poética ronaldiana, os poemas que tomam como fonte de inspiração os motivos e as motivações que emergem do decantado código familiar. A irreversível passagem do tempo constitui-se noutro importante temário abordado pelo criador de Velas Enfunadas e Versos Gramaticais.

Tecendo e destecendo os fios da vida, com tudo quanto ela exibe de sublimidade e sordidez, Ronaldo Cunha Lima, entre Poemas Amenos e Amores Demais, plantou-se no tempo e colheu frutos de eternidade.

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