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Coluna de Vanderley de Brito: Os dissabores do cadáver de Pedro Américo

Vanderley de Brito. Publicado em 2 de setembro de 2019 às 10:02

Tão absorto estava no seu relato que já nem prestava atenção a mim. Era muita informação para processar de uma vez, sua voz foi se distanciando e passei a contemplar suas luxuosas estantes em madeira, repletas de livros, depois desviei meus olhos para uma estatueta de Dom Quixote sobre uma escrivaninha, havia muitas outras em formas e materiais diferentes, pois ele colecionava tudo que dissesse respeito a este personagem. Tirei os óculos para limpar as lentes, ele continuava falando empolgado como uma criança, suas mãos encenavam variações cenográficas e eu, retomando o fio da conversa, apenas acenava a cabeça consoante.

Tudo isso se passava no escritório de Thélio Farias, um advogado bem sucedido de nossa cidade que, escritor de recente safra, acabara de ser eleito para a Academia de Letras de Campina Grande. Desde o processo de temporalização que o nascimento inaugura, passando por fatos anedóticos e curiosidades inéditas, ele me contava a vida do pintor paraibano Pedro Américo, um resumo empolgado de tudo que colhera, com muita pesquisa e minúcia, para um livro biográfico que vinha escrevendo sobre esse talentoso areiense. Não era o release de uma biografia simples e pura que naquela ocasião eu ouvia, a sua transcende o nível episódico, é apaixonada, dissipa dúvidas, exorciza inverdades e tem um envolvente ar pitoresco. O sabor da história depende de quem tempera.

Bem, mas não é disso que quero falar. Na verdade, enquanto interlocutor, o que mais me aguçou o interesse nessa biografia foi a problemática que envolveu o enterro desse gênio paraibano, falecido em Florença no dia 07 de outubro de 1905. Segundo Thélio, em seus últimos anos de vida, em virtude da doença, o pintor estava em dificuldades financeiras, mas antes de morrer manifestou seu último desejo, que seria repousar na terra onde estavam suas raízes. Todavia, a família não tinha condições de concretizar o pedido, mas, por sorte, encontrava-se em Roma o Barão do Rio Branco, que era o Chanceler do Brasil, ele foi alertado sobre a situação e determinou que o Itamaraty assumiria todos os custos do serviço funerário (esquife de chumbo) e traslado de seu corpo para o Brasil.  Transportado em vapor, o caixão chegou ao Rio de Janeiro, onde foi velado no Mosteiro de São Bento, com a presença do então presidente da república, Rodrigues Alves, que decretou luto oficial. Quatro dias depois, o corpo segue em vapor para a capital da Paraíba, onde foi recebido por uma comissão do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e familiares do pintor, que levaram ao governador, o também areiense Monsenhor Walfredo Leal, a carta de que o corpo deveria ser levado para ganhar sepultura em Areia, mas o governador disse que não tinha orçamento para esse traslado e sepultaram-no ali mesmo em João Pessoa, com muitas homenagens, é verdade.

No cemitério da Boa Sentença, o corpo de nosso gênio ficou se revirando esse descaso no túmulo até 1943, quando a Comissão do Centenário de Pedro Américo, presidida por Horácio de Almeida, levou o caso ao governador Rui Carneiro que, de pronto, mandou erguer um mausoléu em Areia e cuidar do traslado, afinal.

Entretanto o destino ainda reservava dissabores ao cadáver de Pedro Américo, pois, segundo me disse Thélio, “mesmo depois de tantos anos o corpo estava perfeito por causa do caixão de chumbo, mas quando estava sendo velado na igreja Matriz de Areia, um enxerido da cidade resolve abrir o caixão…” Soltando uma risadinha, como a saborear a cena, Thélio emendou: “diz que foi um cheiro insuportável… e foi por isso que o corpo se decompôs, senão até hoje estaria perfeito”. E seus olhos franzindo-se num último sorriso.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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