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Coluna de Vanderley de Brito: A flor de um cortejo

Vanderley de Brito. Publicado em 10 de setembro de 2020 às 20:41

Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. Pode parecer piegas iniciar um texto recitando esta máxima shakespereana, mas, bem antes do dramaturgo inglês, uma série de textos antigos, como os hieróglifos egípcios de Amon-Rá, a Cabala, os Vedas e até a Bíblia, já propagavam a ideia da existência de um mundo paralelo em consonância com o nosso mundo físico.

Entretanto, apesar das inúmeras “coincidências” notáveis que nos ocorre no dia-a-dia, ainda estamos longe de formar uma ideia nítida e precisa sobre as influências cósmicas que nos rodeiam.

As origens deste intenso movimento memorialista atual do Instituto Histórico de Campina Grande remonta uma manhã nublada, 27 de março de 1971, quando uma mocinha, filha de imigrantes austríacos, na flor dos dezesseis anos, pele alva, cabelos louros, sardas no rosto e intensos olhos azuis, ajudava a mãe na limpeza do túmulo de seu pai, sepulto ali, no cemitério do Monte Santo. Era uma atividade rotineira mensal delas desde 1966, quando Willy Steinmuller falecera, deixando a viúva e oito filhos pequenos. 

Concluída a tarefa, mãe e filha voltavam para casa, mas ao chegarem à margem da alameda principal do campo santo avistaram um grande cortejo fúnebre que tomava todo o largo da via sepulcral. Em sinal de respeito, elas estacionaram no meio-fio para ver o caminhar do funeral e, pelos que carregavam as alças do ataúde, logo perceberam que se tratava do cerimonial de enterro de Elpídio de Almeida, homem ilustre e muito querido em Campina Grande, médico, historiador e ex-prefeito da cidade. Elas assistiam o desfecho de uma morte ocorrida no dia anterior que todos os noticiários locais informaram consternados. 

Com olhos e gestos tímidos, a mocinha ensaiou pesares. Não conhecia o morto, o tinha visto vivo apenas uma vez, de longe, mas sabia que era um grande vulto da cidade. Ela também conhecia a dor de perder um ente querido, por isso sentiu-se solidária com aqueles familiares de olhos sofridos. 

No passar do cortejo, por “acidente”, uma margarida branca, caiu do enxoval fúnebre aos seus pés, ela baixou para apanhar e, inerte com a flor na mão, acompanhou com os olhos o séquito até o seu destino, no final da alameda. Mal imaginava a mocinha que aquela flor desgarrada do cerimonial lhe fora a entrega de um designo, um encargo de quem estava de ida para quem estava de vinda do cemitério.

A vida tem lá seus mistérios, pois a mocinha que estava de vinda agora é Ida, Ida Steinmüller, uma mulher que há mais de uma década, inconscientemente e apaixonadamente, carrega à flor da pele o compromisso assumido pelo historiador Elpídio de Almeida em 1948, quando criou o Instituto Histórico de Campina Grande para a conservação da memória histórica de nossa cidade. 

Nas idas e vindas do destino, vieram os improváveis. A mocinha tornou-se contraparente de Elpídio, tomou-se de paixão pela causa e herdou seu legado. Naquele dia 27 de março de 1971, Ida poderia estar em qualquer outro lugar da cidade, mas estava no Cemitério do Monte Santo.

A flor do enxoval poderia ter caído em qualquer outro ponto da extensa alameda, mas caiu aos seus pés. Coincidência? Creio que não. Ela recebeu uma honrosa missão, que lhe foi sucedida em flor.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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