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Coluna de Roberto Cavalcanti: Tradições

Roberto Cavalcanti. Publicado em 6 de junho de 2019 às 19:31

Por Roberto Cavalcanti

Sou louco por São João. A cada ano, busco um melhor. E, estando de passagem por Portugal, de quem herdamos o gosto pela festa que é da tradição religiosa da Europa, quis conhecer sua dimensão e particularidades.

Disseram-me que em Lisboa o santo mais comemorado do mês de junho não seria São João nem São Pedro, mas Santo Antônio, e que o prato tradicional era sardinha e não o meu amado milho assado, pelo qual sou capaz de andar quilômetros.

Fui aconselhado a ir à cidade do Porto, que realizaria o melhor São João da Europa. Que surpresa! Vi uma festa fantástica, diferente da nossa. Lá eles mantiveram a tradição dos balões. Para tanto, o tráfico aéreo é suspenso e o Corpo de Bombeiros fica de plantão. Assim, o céu fica completamente tomado de balões.

Fiquei com saudade. No Brasil é corretamente proibido – nossa infraestrutura urbana não permite, e a multiplicidade de festas exigiria um contingente inimaginável de bombeiros -, mas não significa que não sinta saudade.

Olhando a quantidade de balões, lembrei da canção de Luiz Gonzaga, que reproduz cenário da minha juventude: “Olha pro céu, meu amor/ Vê como ele está lindo/ Olha pra aquele balão multicor/ Como no céu vai sumindo”.

O nosso não tem mais balões nem as fogueiras nas portas das casas, mas ainda tem, como cantou o filho do “Seu Januário”, “Xote e baião no salão”, quadrilhas nos terreiros, fogos de artifícios, casamento matuto e a comilança inclui milho assado, pamonha, canjica, bode, carneiro, guiné, galinha guisada, bolo de fubá, pé de moleque e quentão, entre outras gostosuras.

Nossa festa ainda é especial, mas nossas tradições sofrem em razão da globalização, que influencia desde o vestuário a comportamento, passando pela linguagem. O genial Ariano Suassuna, feroz defensor da nossa cultura, dizia que não trocava nosso “oxente” pelo “ok” de ninguém.

A globalização, usando a força da comunicação, especialmente a TV – pelos filmes que exibe, shows e a própria cobertura do cotidiano no mundo -, impacta as tradições regionais e tem provocado acentuada mudança de hábitos, que vai de roupas a bebidas consumidas.

No Nordeste não se tinha o hábito de consumir vinhos, hoje tão apreciados. É impressionante como nivelou as classes sociais. Calça jeans e blusa de malha virou “farda”, da classe mais privilegiada à menos. Surgiram lojas especializadas em atender esse público. Esse é um lado bom, mas tem outro: deixamos de valorizar nossa cultura.

As quadrilhas estão ameaçadas. Famílias têm dificuldade em vestir filhas e filhos com as estampas, babados e acessórios que fazem parte da indumentária regional. Precisam ser patrocinadas. O que antes era comum nos “terreiros” de ruas, agora está praticamente limitado às grandes festas e pode desaparecer.

O que tem resistido muito bem é a música, mesmo com a invasão das eletrônicas. Nesse quesito, a Paraíba é extremamente rica. Monteiro é celeiro, a nossa capital da música. Mas ainda temos talentos extraordinários no cordel e no repente, que encantam o Brasil.

Para mim, nada supera um forró pé de serra. Sobrevive na nossa genética o apego à música regional. Pode contratar as melhores bandas e garantir animação de uma festa, mas quando se toca o forró, todos se levantam para dançar.

Nossa tradição também inclui muita sabedoria. Quem nunca ouviu a expressão o “cancão vai piar”? Esse pássaro, aparentemente frágil, era criado solto por muitas famílias, por ser corajoso e útil. Dentro de casa, curaria asma, e fora, é certo, enfrenta cascavel.

Vocês vão ver o cancão piar em defesa da nossa cultura, do nosso jeito de ser, do que nos faz únicos.

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Empresário e diretor da CNI.

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