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Coluna de Roberto Cavalcanti: Tempo de consertar

Roberto Cavalcanti. Publicado em 25 de fevereiro de 2019 às 15:20

Foto: Acervo pessoal

Foto: Acervo pessoal

Começo pelo final, o “desapego”. Tenho feito reflexões sobre um sentimento que percebo crescente nestes novos tempos: o descompromisso com a manutenção de hábitos e coisas.

Quando eu me refiro a coisas, generalizo. Estão incluídas não apenas as coisas materiais, mas também as imateriais – sentimentos e emoções relacionadas à família, amigos, companheiros de trabalho.

Hoje, no campo material tudo é descartável ou torna-se obsoleto em um piscar de olhos. Fico pensando: até onde chegaremos? Como seremos comportamentalmente daqui a algumas gerações?

Assisto uma involução de hábitos de forma crescente e acelerada. Tudo é concebido para durar um efêmero momento. Ao comprar um celular, por exemplo, em uma loja do próprio fabricante, já é informado ao sair que aquele modelo estará sendo sucedido pelo novo “X”.

Somos induzidos, atualmente, por uma convincente máquina publicitária, a não ter apego nem apreço às coisas. Acredito que essa tendência comportamental do descartável mexe com as pessoas e atinge até os relacionamentos.

Em passado não tão distante, trocar de casa era prova de ascensão social. Hoje é uma compulsão da moda. O trocar de parceiro já se inicia com o modismo de “ficar”. Antes tínhamos os longos namoros, inocentes ou não.

Como atuo no ramo de revenda de veículos, não deveria estar comentando isso, neste local, por razões lógicas, porém, devo registrar que meu pai preservou, em uso, um automóvel modelo “Bel Air” por mais de 15 anos. Eu mesmo mantive uma “SUV” por 11 anos. E nós dois, felizes da vida. Atualmente não se conserta, troca-se apenas pela mudança da cor de uma grade frontal.

Hoje já existe uma percepção do desinteresse pela propriedade individual de automóveis no futuro, que atribuo, entre outras coisas, ao surgimento de aplicativos tipo “Uber” e suas facilidades.

Fiquei matutando sobre a origem de tudo isso. Cheguei à conclusão de que tudo parte desde a mais tenra infância. Sou do tempo em que se consertavam os brinquedos. Você ganhava um, e muitas vezes não teria a opção de outros. Quando apresentava defeitos, tinha de consertá-lo. Era o seu brinquedo, muitas vezes o único.

Espantei-me, outro dia, com um brinquedo do meu neto Arthur. Não era dele. À medida que evoluía no seu crescimento, a supermãe se dirigia a loja especializada e trocava por um outro que ficará à disposição dele por algum tempo. E o que é melhor: querendo, poderá entrar em aplicativo, escolher o novo brinquedo, e receber para troca em casa.

Tudo muito lógico, muito adequado. Porém, e a posse? No meu tempo, cuidava do meu brinquedo, não convivia com um brinquedo passageiro. Será que tudo isso não nos levará ao desapreço a tudo e a todos?

Será que no futuro os relacionamentos serão tipo “Uber”? Está sentindo falta de uma companhia – feminina ou masculina –, contrata pelo tempo desejado. Disporá, como nos veículos, o modelo desejado do dia ou o que se adeque ao bolso de cada um: um UberX (econômico), UberSelect (mais confortável) ou UberBlack (luxuoso).

Não sou padrão para avaliar esse futuro. Sou da geração da constância. Sou do tempo de consertar os meus brinquedos. Por isso cultuo e aprimoro meus relacionamentos. Se brigo em casa, conserto; se luto no trabalho, pondero; se tenho conflito na vida, reflito. Não me adapto ao descarte!

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Empresário e diretor da CNI.

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