Coluna de Roberto Cavalcanti: Hora marcada

Roberto Cavalcanti. Publicado em 27 de maio de 2019 às 17:15

Ao chegar na Paraíba, busquei como migrante fixar pontos de referência. Em nossa Capital, há 50 anos, algo me chamou especial atenção. Adepto desde criança a cumprir horários, estava dentro de mim a permanente necessidade de consultar algum relógio.

João Pessoa tinha, em seu centro comercial, concentradas todas as atividades, sendo a Lagoa parâmetro a orientar os destinos.

Ao me dirigir a nossa ‘Wall Street’ – na época, as principais instituições bancárias, a exemplo do Banco do Estado da Paraíba, Banco do Brasil e BNB, estavam concentradas no Centro da cidade -, passava obrigatoriamente pela frente do Lyceu Paraibano, e com um rabo de olho conferia a hora.

Era instintivo, mesmo tendo algum relógio próprio sempre no braço esquerdo. Ainda não existia celular ou qualquer outro recurso tecnológico para marcar a passagem do tempo, mestre da vida, como dizia a poetisa Cora Coralina.

Fantasiei o relógio do Lyceu como nosso ‘Big Ben’ de Londres. Cada um com suas simbologias e dimensões, porém com o mesmo propósito. Recorro ao meu estimado historiador José Octávio de Arruda Mello, que registrou: “Tanto quanto a sirene da fábrica Matarazzo, na ilha do Bispo, o relógio do Lyceu roteirizava a vida da cidade” (O Lyceu Paraibano no túnel do tempo – 1951/1957).

Quase centenário, aquele relógio não só impressionou o jovem Roberto, mas faz parte da história da nossa cidade. Quantos namoros tiveram suas horas marcadas por ele? Quantos negócios fechados e acordos políticos desfeitos?

O equipamento, de procedência alemã, acionado mecanicamente e eletricamente, nunca falhava. Na pacata João Pessoa de então, os sons dos seus toques serviam como maestros a reger o dia a dia da cidade.
Eu me apeguei a ele. Sua confiabilidade me encantava. O transitar pela avenida Getúlio Vargas, visualizando-o, passou a ser parte de minha existência paraibana.

Eis que nos últimos tempos essa tradição foi desfeita. Talvez tenha sido contaminado pela insubordinação desses novos tempos. Os horários já não são observados como antes.

A hora marcada deixou de ser sinônimo de compromisso assumido. E isso apesar de termos recursos digitais que marcam a passagem do tempo de forma precisa, e que estão disponíveis em quase todos os equipamentos que usamos: telefone, carro e até nos fogões. Como consequência, abandonamos o relógio do Lyceu.

Corta o meu coração saudosista ver aquela referência abandonada, paralisada. É o retrato, a imagem nua e crua do Brasil de hoje. Não valorizamos o tempo, não reagimos diante de omissões que evidenciam descompromisso com a preservação de nossa história.

Para tudo na vida, temos que dar um primeiro passo. Vamos partir de coisas simples, porém emblemáticas. Vamos respeitar o tempo. É tempo de consertar o relógio do Lyceu Paraibano.

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Empresário e diretor da CNI.

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