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Coluna de Roberto Cavalcanti: Filtro d´água

Roberto Cavalcanti. Publicado em 11 de janeiro de 2020 às 10:30

Permanentemente, em minhas fantasias, faço uma comparação entre as empresas, familiares ou não, e uma caixa d’água. Visualizo sempre as imagens dos dois canos, o de admissão e o de saída, responsáveis por manterem o nível naquele reservatório.

Qualquer desequilíbrio provocará o transbordamento ou, o que é pior, o seu esgotamento. Já escrevi sobre esse tema e tenho em minha vigilante memória o resgate de muitas narrativas sobre casos reais dessas metáforas.

Certa vez, perguntei a um amigo de Brasília o que teria causado a debacle de um poderoso grupo empresarial. Meu interlocutor foi claro e rápido no diagnóstico: “Dinheiro não admite desaforo!” Fundada por um obstinado empreendedor de origem portuguesa, não possuindo formação administrativa, não previu o que ocorreria após sua inapelável sucessão.

A segunda geração, herdeira e sucessora natural, mesmo tendo convivido com o fundador ao longo de suas vidas, ter participado do dia a dia das empresas do grupo, formação profissional dentro do foco negocial, não se preparara para dar a terceira geração um projeto de sucessão familiar tecnicamente e juridicamente compatível com suas realidades.

O aumento quantitativo de seus membros e a falta de disciplina financeira provocaram aquilo que sempre imaginei na minha fantasia da caixa d’água. Estaria lá constatado o desequilíbrio entre as duas torneiras, a de entrada e a de saída.

“Pura lógica!”, disse o meu amigo da consequência inapelável daquele desequilíbrio. Afirmou ainda que não foi apenas isso. Ciúmes entre membros da família teriam agravado a lógica das gestões. Agregados trouxeram de fora a discórdia inexistente entre os sócios unidos pelo sangue, inoculando um componente devastador.

Disputas na ocupação de espaços de gestão, culto ao sedentarismo em contraponto ao perfil daquele português obstinado pelo trabalho, competição de quem tem a melhor casa, o maior padrão de vida, o maior volume de países visitados, e o que é pior, a maior mesada fruto do simples vínculo familiar matrimonial. Disse ainda que, ao longo da formação daquele grupo, quase centenário, não houve a competência e visão para preparar-se contra a obsolecência dos seus negócios.

Terceiros integrantes daquele grupo assistiram a essa não preocupação e, individualmente, migraram na ocupação daqueles espaços, tornando-se sólidos empresários, não abandonando, porém, a força e o prestígio de pertencerem àquele, supostamente, inabalável império.

No contraponto daquela história, recentemente, ao presenciar a inauguração de uma grande loja na Paraíba pertencente a tradicional grupo empresarial pernambucano, tive o privilégio de ouvir por parte de um membro da quarta geração familiar como ali tão bem funciona gestão e sucessão: “Um projeto absolutamente profissionalizado e milimetricamente seguido por toda a família. Nada de improvisações, amadorismo ou influências alienígenas.”

Como sempre, após todo esse “arrodeio” que faz parte da minha forma de contar estórias, eis que vou ao título “Filtro D’Água”.

Senti na pele e na prática aquilo que só convivia na imaginação. Em pleno veraneio, com as delícias mentais que o mesmo proporciona, sou alertado em casa que faltou água para beber. O filtro não funcionava. Homem de mil e um instrumentos, dirijo-me ao dito cujo e percebo a realidade. Como nos filtros de barro da minha época de jovem, o mesmo tinha que ser abastecido d’água, não havendo nele meu sonhado cano de admissão. Logicamente, todos da família, de forma cômoda, lá se abasteciam com seus copos d’água em moderníssimo filtro e ninguém lembrava da necessidade elementar de abastecê-lo. Era tal qual aquela tradicional empresa, a locupletação dos resultados.

Não está sendo fácil a catequese doméstica de que o ato de beber água gera automaticamente a necessidade de reabastecimento imediato sob pena de faltar água em seguida. Nada mais lógico, nada mais evidente por sua clareza. Estou com sucesso vencendo e conquistando junto aos meus esse hábito tão singelo.

Eis que no último domingo sou despertado pela família em polvorosa. Não havia água. Mas como? Se todos deveriam estar conscientes daquela reposição! Havia, no entanto, faltado água geral no prédio. A bomba d’água quebrara. Em seguida, graças ao acionamento da bomba reserva, tudo estava resolvido.

Eu e minhas caixas e filtros d’água. Da fantasia à realidade, o exemplo micro se aplica no macro. Reabasteça!

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Empresário e diretor da CNI.

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