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Coluna de Roberto Cavalcanti: Encontro eventual

Roberto Cavalcanti. Publicado em 12 de abril de 2019 às 18:17

Parti para Recife com uma agenda congestionada: oito compromissos de muita importância, em um só dia. Tinha acumulado, com a minha ausência, um estoque decorrente das ocupações paraibanas.

Comemorei minha chegada em terras recifenses dentro do prazo por mim preestabelecido. Acabava de comentar esse fato com meu eterno motorista, Adão, quando… Para que falei? Após o viaduto da BR-101, sobre a Avenida Caxangá, o inesperado me aguardava: um gigantesco engarrafamento.

Não tinha o que fazer. Era aguardar que o trânsito fluísse a conta-gotas. Mas, a mente humana é fantástica. De repente, voltei à minha juventude como em um passe de mágica. Lembrei-me que dominava a região, o campus da Universidade Federal de Pernambuco.

Comandei uma imediata decisão: “Adão, tome a faixa da direita. Saia da BR e, pela paralela, vamos alcançar o girador da Universidade”.

Já estava, mentalmente, de capacete na cabeça e luvas, pronto para percorrer o Circuito da Cidade Universitária, meu velho companheiro de provas.

Como lá competi inúmeras vezes, estava memorizado, detalhe por detalhe. Disse para Adão: “Você vai ficar atento nessa reta descendente, passar por um pontilhão e, logo após, dobrar à direita”. Aquela era a curva número 1 do circuito. Maravilhosa!

Imediatamente, após a curva, sabia que passaríamos pela frente da Faculdade de Ciências Econômicas, e à esquerda teríamos uma nova curva, a número 2. Meu objetivo era sair da BR-101, só voltando ao final do campus, na rua que o separava do Colégio Militar, ganhando muitos quilômetros sem engarrafamentos.

Não resisti ao encanto de, passando em frente à minha faculdade, exatos 50 anos após a formatura, não reverenciá-la. Pedi para parar. Tentei acessá-la pela porta da fachada leste, que era da minha época. Estava bloqueada. Uma alma caridosa me fez gestos de que era pelo sul. Tudo mudado.

Buscava a placa alusiva à minha turma. Sabia que ela estava lá, em local de destaque, por ter sido a primeira de Economia formada naquele campus universitário.

Solicitei nova ajuda e uma funcionária se dispôs a me levar ao passado. Lá estava, gloriosa no seu conteúdo, porém envelhecida com seu meio século de existência. Pedi para me fotografasse ao seu lado, e também apontando o meu nome. Muita emoção.

Como de praxe, na placa homenageamos figuras importantes no período – a formatura ocorreu em 27 de dezembro de 1969 – e que hoje fazem parte da história do Brasil. O reitor era o professor Murilo Humberto de Barros Guimarães (nosso vizinho de rua), e o diretor do curso, o professor Nelson da Costa Carvalho (colega de universidade de meu pai).

O paraninfo foi Jorge Amorim Baptista da Silva, dono do Banorte, maior banco regional à época, que habilmente me fez tratá-lo de “meu padrinho” por toda a sua vida. A “Homenagem Especial” foi conferida ao general Euler Bentes Monteiro e a de “Honra ao Mérito”, ao coronel César Cals, que depois seria ministro das Minas e Energia.

Escolhemos José Paulo Alimonda, da Alimonda Irmãos S/A, para homenagear a indústria, e do segmento financeiro, Nivaldo Rique, banqueiro paraibano, referência nacional à época.

Do corpo docente, agraciamos os professores Clóvis de Vasconcelos Cavalcanti e Roberto Cavalcanti de Albuquerque, do Grupo de Assessoria e Planejamento (GAP), onde fui estagiário e muito aprendi.

Destacamos outros professores, todos do mais alto nível, como Telmo Maciel (irmão de Marco Maciel), José Ariosvaldo Pereira (foi do BNB), José Gláucio Veiga (grande advogado em Pernambuco), Giuseppe Américo Reale, Manoel Correia de Oliveira Andrade, e outros de uma época fantástica da universidade brasileira.

Li os nomes dos meus pouco mais de 100 ex-colegas, alguns dos quais para mim trabalharam, que, com seus talentos, me enriqueceram, constatando que vários já partiram para a morada celestial. Quantos de nós, todos inapelavelmente pós-setentinha, estamos vivos hoje? A vida nos desgarrou.

Volto à BR-101, ao trecho preestabelecido e constato, ao final do engarrafamento, que se tratava de um absurdo estreitamento da pista, motivado por uma obra que não tinha mais de 50 metros e que gerava uma total paralisação de um anel viário de suma importância para a logística do nosso Nordeste. E o que é pior: obra semiparalisada.

Viva ao País em que vivi, naquele exato local, em 1969. Como foi possível destruírem tanto ao longo desse meu tempo?

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Roberto Cavalcanti

Empresário e diretor da CNI.

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