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Coluna de Roberto Cavalcanti: Canga

Roberto Cavalcanti. Publicado em 14 de janeiro de 2019 às 16:11

Foto: Acervo pessoal

Foto: Acervo pessoal

Por Roberto Cavalcanti

Realmente, uma das coisas mais enriquecedoras na vida é uma boa leitura. Estou no momento lendo e relendo uma fantástica contribuição dada ao mundo pelo escritor/historiador recifense Frederico Pernambucano de Mello – “Apagando o lampião. Vida e morte do Rei do Cangaço”, Global Editora, 2018.

Para mim, o fascínio por uma obra tem premissas como componentes básicos: o tema, o estilo literário, o conteúdo e até o momento de vida que eu, como leitor, estou vivendo. Talvez, o meu próprio humor.

Sou suspeito para falar sobre o autor, que é meu contemporâneo de vida, trata-me como primo-irmão.

Cada página da obra, fruto de décadas de transpiração, talento e obstinação, é impecável e relata de forma imperdível a vida e a morte de Virgulino Ferreira da Silva e, principalmente, o entorno sócio-econômico de uma época.

Logo ao abrir as primeiras páginas me deparo com o seguinte texto: “A edição de 28 de junho de 1938 da Gazeta de Alagoas, jornal de proa que Maceió possuía à época e ainda possui, dava notícias de cantoria de viola ocorrida em casa de Theo Brandão, liderança intelectual de cidade que se destacava neste plano entre as capitais brasileiras havia muitas décadas”.

Adiante menciona que “até a meia-noite ouviram-se os aplausos de vários estudiosos do tema, entre eles, Manuel Diégues Júnior”.

Tanto “Theo” como “Diégues” eram amigos-irmãos do meu pai e eu tive o privilégio de chamá-los de tios. Infância privilegiada culturalmente a minha!

Salto da “Introdução” para o capítulo “80 Anos Depois”. Registro uma frase que, por si só, já premia o livro, quando se referindo à figura emblemática de Delmiro Gouveia (1863-1917) define o episódio do seu assassinato como “Exemplo notório em matéria de assalto ao futuro cometido pelo passado”.

Ao passar pela análise das expressões “cangaço” e “cangaceiros”, que se derivam da palavra “canga”, peça de madeira com que se sustentava o boi pelo pescoço, fazendo-o puxar carro ou peso diverso, me senti como empresário o próprio boi.

Já àquela época era uma tentativa de quebrar o jugo da “canga” das oligarquias e do estado. Paro por aqui as citações sobre o livro, que indico fortemente, e sobre o qual, além de recomendar a imperdível leitura, tratarei em outro espaço futuro sobre o mesmo.

Registro que fora do tema específico “cangaço”, ao abordar as consequências da morte de Delmiro Gouveia, o autor me fez enxergar com clareza cristalina como poderia ser o Nordeste de hoje se o “delmirismo” empresarial tivesse campeado pelo Nordeste afora, no seu aspecto econômico.

Delmiro, com sua inimaginável criatividade, arrojo e visão, transformou parte dos sertões alagoano/baiano na primeira e segunda décadas do século passado.

Morto Delmiro, perde o Nordeste até hoje os benefícios da modernidade empresarial privada como mola propulsora do seu desenvolvimento, geração de emprego e renda.

Aos curiosos, lembro que com as tecnologias digitais é também imperdível assistirem o filme sobre a vida de Delmiro Gouveia.

Ficou o Nordeste dependente da indústria da seca, do favorecimento (esmola) político até os dias atuais. A classe empresarial nordestina deixou de liderar o processo de desenvolvimento econômico regional.

A cada dia, a “canga” estatizante impõe sua política dominadora através da centralização do poder econômico, fazendo com que o Nordeste seja totalmente dependente do Estado.

Questionado por empresários amigos aqui da Paraíba sobre os fracos resultados das vendas no comércio nos últimos 30 dias e qual seria a minha análise, dei como resposta o seguinte: Não poderia ser diferente, somos um Estado totalmente dependente da máquina pública. Quer seja federal, estadual ou municipal. A atividade econômica está totalmente atrelada a elas.

Temos que dar ainda “graças” por atuarmos no desestruturado Nordeste em um Estado que ainda mantém seu equilíbrio fiscal dentro de parâmetros de exceção.

Final de ano paralisam-se as máquinas administrativas. Férias por todos os lados, em todos os poderes, executivo, legislativo e judiciário, órgãos da administração direta ou indireta ficam semiparalisados, prestadores de serviços e toda uma engrenagem econômica totalmente dependente do poder público em compasso de espera.

O que queríamos?
O nosso Estado não tem pujança econômica baseada nas atividades privadas.
Todos de férias! Vamos às praias, vamos aos drinks, vamos aos shows. Para quê comprar agora? Viva o verão! Curtamos as ressacas eleitorais e a economia que exploda.

Complementei dando um fio de esperança, afirmando otimistamente. Tudo vai passar. 2019 vai ser um ótimo ano.

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Empresário e diretor da CNI.

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