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Coluna de Padre Assis: Ser samaritanos

Padre José Assis Pereira. Publicado em 13 de julho de 2019 às 11:24

Neste Domingo a Liturgia nos propõe a chamada “parábola do bom samaritano”, tirada do Evangelho de São Lucas. (cf. Lc 10,25-37) Jesus utiliza esta narração tão simples e estimuladora, no diálogo com um doutor da lei que lhe pergunta: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” (v. 25) O Senhor remete-o simplesmente para a Escritura, que ele conhece, e deixa que o próprio escriba dê a resposta: Amar a Deus e amar o próximo.

O escriba então pergunta: “E quem é o meu próximo?” (v. 29) A esta pergunta tão concreta Jesus responde com a parábola do homem que caiu nas mãos de bandidos; foi assaltado, espancado e abandonado quase morto na estrada que atravessa o deserto da Judeia, descendo de Jerusalém para Jericó. Esta era uma história absolutamente real, visto que ao longo daquele caminho aconteciam regularmente assaltos como este.

Por aquela estrada passaram um sacerdote e um levita, isto é, duas pessoas que se ocupam do culto no Templo de Jerusalém e são conhecedores da Lei, que a serviam por profissão. Eles vêem aquele infeliz, mas não pararam, passaram adiante (vv. 30- 31), talvez seguissem por outro lado mais por temor do que por indiferença. São expertos no sagrado, porque oferecem culto no templo, mas sem duvida se mostram a distância ante a dor e olham para o outro lado, sem ajudar.

Coisa diferente ocorre com o “samaritano”, desprezado pelos judeus por não ser observante da verdadeira religião, portanto alguém que não pertence à comunidade de Israel e não precisava, consequentemente olhar para aquele homem quase morto como seu “próximo”; no entanto, é ele que ao ver o sofredor abandonado “sentiu compaixão. Aproximou-se dele e fez curativo nas feridas… e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele e ainda pagou a estadia para ele.” (vv. 33-34) Em síntese, o repudiado e considerado impuro, que é aparentemente o que não presta culto a Deus, é aquele que se detém e acolhe o sofredor do caminho, ocupou-se dele, portanto é o exemplo concreto do amor ao próximo.

Naquela altura, Jesus dirige-se ao doutor da lei e pergunta-lhe: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? Ele respondeu: Aquele que usou de misericórdia para com ele.” (vv. 36-37) “Deste modo, Jesus inverteu completamente a perspectiva inicial do doutor da lei, e também a nossa: não devo catalogar os outros para decidir quem é o meu próximo e quem não é. Depende de mim, ser ou não ser próximo, a decisão é minha, depende de mim,

ser ou não ser próximo da pessoa com a qual me encontro e que tem necessidade de ajuda, mesmo que seja desconhecida, ou talvez até hostil.” (Papa Francisco)

Orígenes (184 – 253 d. C.), teólogo, filósofo e um dos padres gregos, numa das mais antigas interpretações sobre essa parábola afirma que “o samaritano é o Cristo e a hospedaria é a Igreja”. Sim, Jesus é o bom samaritano. “Por que Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz.” (cf. Cl 1, 15-20)

O Bom samaritano, o próprio Jesus nos convida a imitá-lo: “Vai e faze a mesma coisa.” (v. 37) Ele pôs de lado a sua tranquilidade e os seus planos. Veio do céu a terra para nos socorrer, depois de termos sido assaltados por ladrões, pelo demônio e seus seguidores, deixando-nos em risco de morte eterna.

Ele submeteu-se aos nossos riscos e limitações para nos socorrer. Assumiu a nossa condição humana, exceto no pecado. Não só correu risco, mas estregou-se à morte por nós.

O Bom samaritano levou o homem quase morto para um lugar seguro, onde não podia ser novamente assaltado e preocupou-se com a sua recuperação, cuidou dele até se recuperar e poder ir para casa são e salvo que significa regressar à casa do Pai no Céu, de onde o pecado nos afastou. Quem não vê nesta pensão uma figura da Igreja, “um hospital de campanha” como nos diz o Papa Francisco, onde encontramos todo o “tratamento” de que precisamos? Nossa Igreja deve ser um sinal patente de encontro, acolhida, cuidado e ajuda, humanizando e oferecendo misericórdia.

Vai, e faze a mesma coisa, que bela lição! É óbvia a atualidade dessa parábola. Jesus repete-a a cada um de nós, tornando-nos próximo do irmão e da irmã que vemos em dificuldade, abandonado à margem do caminho da vida: Vai, e faze a mesma coisa. Faço-me próximo, ou simplesmente passo pelo outro lado? Temos de sentir-nos diretamente interpelados por esta lição do Mestre. Não podemos passar ao lado ante esse “homem quase morto” que encontramos hoje, marginalizado ou excluído em nosso caminho, em nossas ruas, em nossa sociedade.

O Senhor poderá dizer-nos: e tu, recordas aquela vez ao longo do caminho de Jerusalém para Jericó? Aquele homem meio morto era eu. Recordas? Aquele menino faminto era eu. Recordas?… aqueles avós sozinhos, abandonados nas casas de repouso era eu. Era eu aquele doente no hospital, que ninguém vai visitar.” (Papa Francisco) Fica bem claro nesta parábola que, para Jesus, perguntar quem é meu próximo é um falso problema.

O problema está aqui, ao meu lado, mas preciso de olhos para vê-lo. O verdadeiro problema está em eu me fazer próximo de todos, derrubando muros e barreiras dentro de mim e em torno de mim. Essas barreiras podem ser sociais, econômicas, culturais, sexuais, raciais, religiosas; mas podem também derivar dos meus preconceitos, do meu orgulho, de minha autossuficiência e do sentimento desequilibrado da antipatia. Nenhuma razão será suficiente para excluir alguém de ser meu próximo.

Se não me faço próximo de quem está ao meu lado, Deus não pode fazer-se próximo de mim, porque há um entrelaçamento entre o meu amor a Deus e o meu amor ao próximo, entre o amor que Deus tem por mim e o amor que tenho para com o próximo.

Eu sou o próximo de qualquer pessoa que encontro abandonado no caminho, excluído e ferido. Esta pessoa concreta apela à minha consciência cristã para que reconheça no rosto desfigurado e no corpo ferido e dolorido a imagem do irmão, do outro eu que pede uma ajuda efetiva.

Diz uma canção: “Cuidar dos outros, cuidar de si. Cuidar de quem precisa, de quem não pode mais cuidar de si. Eis a nossa vocação. Alguém cuidou de nós e agora é nossa vez de ser samaritanos.”

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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