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Coluna de Padre Assis: Ser cristão é se deixar pescar e ser pescador

Padre José Assis Pereira. Publicado em 9 de fevereiro de 2019 às 10:30

Neste Domingo o evangelho de São Lucas descreve o começo da pregação de Jesus e o chamado dos primeiros discípulos. (cf. Lc 5,1-11) Às margens do lago de Genesaré ou mar da Galiléia, tiveram lugar momentos que ficaram no imaginário da vida cristã.

O mar da Galiléia é o lugar não só geográfico, mas teológico, que Jesus escolheu para começar sua pregação. Houve uma mudança de cenário, o Mestre já não ensina só nas sinagogas, mas na terra dos pequenos, dos simples de Israel, dos que não contam para os poderes. Está no meio das pessoas, não em lugares “sagrados”, mas sim em seu âmbito de trabalho diário.

Podemos imaginar a praia cheia de gente em uma manhã fresca, as águas claras recebendo a luz do sol que se levanta. Da barca de Simão Jesus ensina às pessoas e até há certa falta de atenção a Jesus por parte dos pescadores que estão em sua lida quotidiana, ocupados limpando os úmidos barcos ou concertando as redes, depois de uma noite de trabalho duro sem nada pescar.

Jesus está à beira do mar onde trabalha essa gente simples que o acolhe e quer escutá-lo. Aí está a primeira comunidade. São muitos os que falam ao povo, mas nenhum com a autoridade de Jesus. Suas palavras chegam ao coração dos seus ouvintes. Porque Ele lhes fala, a partir de sua realidade, estando entre eles, como um a mais, mas com uma palavra cheia de autoridade, que neste caso não é sinônimo de força, arrogância, autoritarismo ou imposição, mas sim de coerência de vida. E essa coerência vem porque lhe escutaram na sinagoga anunciando sua missão libertadora entre os pobres da parte de Deus e depois, lhe viram curar enfermos, aliviar a vida da gente simples e anunciar a chegada do Reino de Deus. Por isso, por suas ações, por suas obras, ganhou a confiança e a escuta de toda essa gente que se aglomerava para ouvir o Profeta de Deus.

Quando termina de falar diz a Simão Pedro que volte a pescar. Com a sinceridade de sempre, o velho e experiente pescador disse ao jovem pregador que ele e seus companheiros estão cansados de lançar as redes durante toda a noite, sem conseguir nada. Mas para obedecê-lo farão outra tentativa. É uma lição de confiança total no poder de Deus. Temos que dizer como Pedro: Mestre, “em atenção à tua palavra, vou lançar as redes.” (v. 5)

Depois do acontecimento extraordinário; “apanharam tamanha quantidade de peixes que suas redes se rompiam… e encheram os barcos, a ponto de quase afundarem.” (v. 6-7) Espontaneamente, aquele homem primário e com caráter firme, deixa que saia do mais fundo de sua pessoa uma oração e um reconhecimento de profunda humildade: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” (v. 8)

Simão Pedro estava profundamente equivocado ao dizer: “Afasta-te de mim”. A feiura do nosso pecado é razão para que o Senhor venha a nós, e não para que se afaste de nós. Pedro compreenderia melhor sua própria realidade e a de seu Mestre se tivesse dito: “Não me deixes nunca, Senhor, porque sou um pecador!” Uma compreensão parcial de seu pecado e um conhecimento superficial de Jesus o levava a afastar-se dele: uma compreensão mais profunda de nós mesmos e dele nos aproximam mais a Ele. De toda maneira, Cristo sabe perfeitamente o que está por trás das palavras de Pedro. Ele quer se desfazer não de Jesus, e sim do pecado que o separa dele. “Afasta-te”, disse Pedro. “De hoje em diante tu serás pescador de homens” (v. 10), responde Jesus.

Então Tiago e João, filhos de Zebedeu e sócios de Simão “levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus.” (v. 11) Nunca saberemos o que levou esses primeiros discípulos a abandonar tão depressa barca e redes, profissão e família para seguir o convite de Jesus; Lucas nos faz compreender que foi um milagre: a pesca milagrosa; mas este episódio parece ter acontecido mais tarde (cf. Jo 21,4-11). Talvez o milagre mais verdadeiro daquele momento foi o que se deu dentro deles, eles é que foram “pescados” na rede do Amor de Deus.

Tu serás pescador de homens”. Esta é a lógica que orienta a missão de Jesus e a missão da Igreja: Ir à procura, sair, “pescar” homens e mulheres, não para fazer proselitismo, mas para restituir a todos a plena dignidade e liberdade, mediante o perdão dos pecados. Eis a essência do cristianismo, anunciar o amor gratuito de Deus, que não se afasta do pecador, mas sim, com atitude de acolhimento e de misericórdia vem a todos, a fim de que cada um possa encontrar a ternura de Deus e receber a plenitude da vida.

Se o ser pescado por Cristo no princípio dá um pouco de medo responder ao seu chamado, as respostas depois se fazem radicais. Cristo conhece nossos corações melhor que nós mesmos, e lê nossos desejos muito mais claramente que nós. A visão de nossa condição de pecadores e da santidade de Deus constitui sempre em nossa vida um ponto de crise, de falência, isso paradoxalmente faz-nos mais próximos a Ele e nos eleva de nós mesmos.

Cada cristão continua a ser chamado por Deus à fé, ao discipulado, à conversão, à santidade e a missão; o Senhor renova-nos o seu Amor e o chamamento no nosso dia a dia. É sempre tempo de lhe responder sim. Temos como Igreja que superar a ancestral “síndrome clerical” que confirma a missão evangelizadora exclusivamente à parcela dos ministros ordenados, religiosos e religiosas. A missão evangelizadora não é monopólio de “profissionais” do sagrado, mas competência de todos que receberam a consagração batismal. A todos, homens e mulheres, Jesus diz: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”.

Se nos fiarmos unicamente em nossas próprias forças, é possível que passemos noites pelejando sem nada conseguir. Mas, quando aprendermos a confiar em Jesus e no seu evangelho; quando quisermos sair de nossos limites, a Palavra de Deus é mais eficaz que nossas próprias razões para não jogar as redes na água, na sociedade, na vida, na família, entre os amigos, no trabalho… Aí tudo mudará como mudou para Pedro e seus companheiros, aí seremos verdadeiros pescadores.

Ser pescador é símbolo da atividade evangelizadora; os pontos de semelhança são óbvios: Necessita-se da paciente perseverança, da persistência contra todo desânimo. E quando chegar a mesma aparente falta de êxito, de ânimo, deve soar em nossos ouvidos a palavra do Mestre: “Avança para águas mais profundas”, incansavelmente, mar adentro lança redes em todas as águas e ventos do mundo; em mares não ainda navegados, infatigáveis mesmo ante as noites longas de trabalho, aparentemente sem frutos.

Lucas hoje nos apresenta as coordenadas fundamentais da nossa identidade cristã: Ser cristão, discípulo de Jesus é, em primeiro lugar, estar como Simão Pedro com Jesus “na mesma barca”. É fazer a experiência pessoal do encontro consigo mesmo e com Cristo, na comunidade. Ser cristão é responder sem medo, mas com confiança ao chamado à missão de “lançar as redes ao mar”, anunciar a alegria do Evangelho. Ser cristão é se deixar pescar e ser pescador.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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